Naomi Kawase e a estética da delicadeza

Naomi Kawase e a estética da delicadeza

Rodrigo Fonseca

14 de agosto de 2020 | 10h54

Rodrigo Fonseca
Conforme sua 68ª edição se prepara para arrancar nas telas, a partir da exibição hors-concours de “Rifikin’s Festival”, de Woody Allen, San Sebastián vê uma torcida fervorosa se formar (nas redes sociais) em torno de “Asa Ga Kuru” / “True Mothers”, o novo longa-metragem de Naomi Kawase, indicado à Concha de Ouro de 2020. O evento espanhol este ano será presencial, de 18 a 26 de setembro, tendo títulos inéditos de Thomas Vinterberg (“Druk”/ “Another Round”), de François Ozon (“Verão de 85”) e Sharunas Bartas (“In The Dusk”) na competição. Só que nenhum deles está chegando à disputa com tanto prestígio quanto a cineasta japonesa de 51 anos consagrada mundialmente por “A Floresta dos Murmúrios”, laureado em Cannes em 2007 com o Grande Prêmio do Júri. Seu novo longa disseca o microcosmo da instituição familiar a partir do conflito entre duas mulher às voltas com a maternidade.
“Venho fazendo filmes mais leves nos últimos cinco anos, para que eu encare as trevas deste nosso mundo louco e prove que, mesmo entre elas, pode existir a esperança”, disse Naomi ao P de Pop quando concorreu em Cannes, em 2017, com “Esplendor”, pelo qual foi agraciada com o Prêmio do Júri Ecumênico. “Eu venho de Nara, uma província do Japão a cerca de 400 quilômetros de Tóquio. Estou a costumada a olhar o mundo de um polo periférico, longe de um centro mais metropolitano, cercada pela Natureza. Aprendi, lá, a valorizar as relações afetivas mais íntimas e silenciosas”.

Delicadeza, a raiz forte da culinária estética de Naomi já foi aclamada em San Sebastán antes, com louvor. Em 2018, ela concorreu lá com “Vision”, estrelado por Juliette Binoche. A cálida recepção a esse filme ampliou a fama da realizadora em território ibérico. Localizada em território basco, do ladinho da França, a cidade espanhola sedia a mais prestigiada mostra de cinema de seu país (e um dos mais respeitados do mundo), chamada Donostia Zinemaldia no idioma local (o Euskara). Terra dos pintxos, acepipes saborosos que potencializaram a culinária da região, a charmosa cidadezinha espanhola anseia pelos planos requintados da cineasta, que vai refletir sobre o que significa criar uma criança em “True Mothers”. A trama: depois de uma longa e mal sucedida luta para engravidar, convencida pelo discurso de uma associação de adoção, Satoko e seu marido decidem adotar um menino. Alguns anos mais tarde, sua maternidade é abalada por uma ameaça desconhecida, Hikari, que afirma ser a mãe biológica da criança. Satoko decide confrontar Hikari diretamente.

“Há pouco diálogo nos meus filmes porque as palavras nem sempre dão conta de fluxos emotivos. Eu faço filmes sobre encontros. E aqui, o encontro de almas se dá longa da casa da protagonista”, diz Naomi. “Eu preciso deixar as emoções fluidas nos meus planos, dando a eles o tempo de que necessitarem, pois eu não posso tirar da plateia a habilidade de contemplar. A tecnologia que usamos no dia a dia já prejudicou muito nossa contemplação, nossa habilidade de ruminar o que vemos e buscar novos sentidos”.

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