Naomi Kawase cura nossa miopia estética

Naomi Kawase cura nossa miopia estética

Rodrigo Fonseca

23 de agosto de 2019 | 09h15

Rodrigo Fonseca
Daqui a cinco dias, Juliette Binoche vai estar no Lido para a inauguração da 76ª edição do Festival de Veneza, à frente do longa-metragem de abertura do evento, o drama The Truth, do japonês Hirokazu Koreeda (de “Álbum de família”), em busca do Leão de Ouro. Na trama, que abre o evento e a briga por prêmios venezianos, ela interpreta a filha de uma veterana atriz (Catherine Deneuve) que abre todos os podres de sua vida numa autobiografia. É a segunda vez, em tempos recentes, que ela trabalha com um expoente do Japão nas telas – lembrando que, em 2007, por seu apreço pelos diretores autorais da Ásia, ela estrelou “A viagem do dragão vermelho”, de Hou Hsiao-Hsien. Fora o duo com Koreeda, ela trabalhou com uma das diretoras de maior potência visual e da mais fina metafísica do cinema contemporâneo, Naomi Kawase (de “Esplendor”). As duas fizeram juntas “Vision”, que estreia no Brasil no dia 12 de setembro, após arrancar aplauso e gerar encantamento no Festival de San Sebastián de 2018.

Na trama, a jornalista francesa Jeanne (La Binoche) vai a terras nipônicas em busca de uma erva medicinal, uma planta raríssima, que nasce a cada 997 anos. A tal erva é capaz de curar toda a angústia e fraqueza espiritual da Humanidade. Ela cresce nas montanhas de Yoshino de Nara, onde há 20 anos, Jeanne viveu seu primeiro amor. É hora de seu passado regressar, e de modo avassalador. É o que disse a cineasta nessa conversa com o P de Pop, quando “Vision” estava em finalização.

“Venho fazendo filmes mais leves nos últimos cinco anos, para que eu encare as trevas deste nosso mundo louco e prove que, mesmo entre elas, pode existir a esperança”, diz Naomi, que rodou “Vision” em sua terra natal, Nara, região de 360 mil habitantes, utilizada séculos atrás como capital oficial do Japão e hoje famosa por seus templos budistas. “Você acredita que filmar em um local familiar pode te dar mais controle sobre o Acaso, sobre a Natureza… mas estes são forças indomáveis. Quando menos você espera, vê alguém fazendo reverência para a Lua ou conversando com flores, sem que isso tenha sido combinado. São reações naturais. É a condição humana”.

 

Queridinha da crítica europeia desde a conquista do Grande Prêmio do Júri de Cannes, com “A floresta dos lamentos”, em 2007, Naomi começou a carreira em 1992, alternando narrativas filosóficas quase fabulares com enredos sobre reconstruções afetivas, sempre trabalhando na linha da sutileza. Agora, ela aborda o amor de maneira mais escancarada em “Vision”. No novo filme, Jeanne (Juliette) conta com a ajuda de um guia (Masatoshi Nagase) que vai mudar sua forma de ver o querer e evocar uma paixão que Jeanne experimentou em sua mocidade, fora da França.

“Há pouco diálogo nos meus filmes porque as palavras nem sempre dão conta de fluxos emotivos. Eu faço filmes sobre encontros. E aqui, o encontro de almas se dá longa da casa da protagonista”, diz Naomi, que já tem um filme novo em finalização para lançar em 2020: “Parallel world”, sobre um sujeito que revisita um observatório onde esteve em um momento crucial de sua adolescência. “Eu preciso deixar as emoções fluidas nos meus planos, dando a eles o tempo de que necessitarem, pois eu não posso tirar da plateia a habilidade de contemplar. A tecnologia que usamos no dia a dia já prejudicou muito nossa contemplação, nossa habilidade de ruminar o que vemos e buscar novos sentidos”, disse Naomi, que sempre elogia o colega Koreeda, tendo comemorado a vitória dele em Cannes, em 2018, quando levou a Palma de Ouro para o Japão.  “Somos amigos há uns 25 anos, com linhas narrativas muito distintas, mas muito marcados pela prática documental. Ambos começamos nossas carreiras filmando documentários sobre famílias e suas rotinas. Ali está nossa poética”.

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