Nanni Moretti nas quebradas do Chile de Allende

Nanni Moretti nas quebradas do Chile de Allende

Rodrigo Fonseca

25 de junho de 2019 | 14h07

Rodrigo Fonseca
Em meio a um embate com uma figura conservadora do Chile, avessa a entrevistas, em um dos mais tensos momentos do documentário “Santiago, Itália”, já em cartaz, Nanni Moretti escuta “Só abri uma exceção de falar com o senhor porque me disseram de sua imparcialidade” do arredio entrevistado, sendo forçado a extrair uma suposta “neutralidade” de onde ela não existe. Na mesma hora, o veterano cineasta italiano de 65 anos – hoje às voltas com a filmagem  de “Tre piani” – retruca: “Eu não sou imparcial”. É uma forma de afirmar a linha política que vai guiar a colheita de depoimentos de uma experiência documental acerca do trauma causado pelo fim do governo de Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973.

Só que esse memorialismo chega ancorado numa linha autoral típica de Moretti, consagrado por longas-metragens como “Caro diário” (1993) e “Aprile” (1998). Existe um esporte definido por ele como um “passatempo tipicamente italiano” que é a lamentação: “Venho de uma pátria onde as pessoas reclamam e se fazem de vítimas para não encarar os erros que cometem em relação à política, em uma atitude de total descaso com o próximo”, disse o diretor de “O quarto do filho” (Palma de Ouro de 2001) ao P de Pop, na França, enquanto começava as filmagens do documentário “Santiago, Itália”. O projeto é uma viagem pelo passado do Chile, com base no golpe militar que depôs Allende e a utopia de um regime de tons socialistas na América Latina. Moretti colhe diferentes depoimentos – de artistas, de líderes operários, de professores e dos cineastas Miguel Littín e Patricio Guzmán – a fim de construir um mosaico de vozes acerca do trauma da perda da liberdade democrática. A intervenção totalitária, assunto que inspirou o .doc do realizador de “O Crocodilo” (2006), também se faz presente em seu novo projeto de ficção, já em produção: o já citado “Tre piani”, adaptação do romance israelense “Three floors up”, de Eshkol Nevo, ambientado em um prédio em Tel Aviv.

“Não diria que sou um cineasta político, mas sim alguém que se interessa pelos conflitos que chegam à minha porta, mesmo que eu não saia à procura deles. A realidade vem e se faz notar em suas mazelas sociais, em seus desrespeitos ao bem alheio. Mesmo quando eu filmo algo que se passa em outra realidade, outro mundo, é da Itália que eu estou falando, com todas as contradições que a acomodação moral nos causou”, explica o cineasta, que lançou o longa sobre a História chilena no Festival de Turim, em dezembro, em uma entressafra de projetos ficcionais – seu último longa foi “Minha mãe”, ganhador do prêmio do Júri Ecumênico de Cannes, em 2015. “Desde a minha estreia, em 1973, eu sou um ator que dirige, para ter plena liberdade de buscar uma voz própria, que surpreenda o espectador”.

Lançado na quinta no Brasil, “Santiago, Itália” foi elencado pela revista “Cahiers du Cinéma”, a bíblia do audiovisual autoral, como um dos filmes mais importantes de 2019, sobretudo pela forma como o cineasta recria memórias sobre a tortura no governo militar que depôs Allende. Há uma série de depoimentos sobre crimes de Estado, com destaque para o depoimento de uma jornalista que fala sobre como sua torturadora, uma militar grávida, obrigava-a a costurar um casaco para seu bebê.

Moretti vai finalizar “Tre piani” até dezembro, de olho numa vaga na competição de Cannes de 2020. Ele deve participar do elenco, que inclui Riccardo Scamarcio, Alba Rohrwacher e Margherita Buy. Ele assume o papel de um dos moradores de um apartamento cujos inquilinos lidam com suas mediocridades e fracassos.

p.s.: Fernanda Abreu e Toni Garrido têm uma nova roupagem da canção “Tempos modernos”, com arranjos de DJ Memê, para celebrar o êxito da geração do rock e do pop nacional de 50 anos (ou um tico mais), como é o caso de Lulu Santos, talento por trás desse hit sonoro. O projeto é da Musickeria.

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