‘Nando’, o craque brasileiro de Tribeca

‘Nando’, o craque brasileiro de Tribeca

Rodrigo Fonseca

22 de junho de 2021 | 17h52

RODRIGO FONSECA
Tribeca, uma das mais disputadas vitrines audiovisuais para exercícios autorais, capaz de atrair os holofotes da indústria cinematográfica para as telas da Nova York, terminou sua maratona de exibições (presencial e online) no domingo, consagrando um delicado olhar sobre o dia a dia das periferias do RJ: “Nando”, de Alec Cutter. Narrado por Seu Jorge, este documentário em tons poéticos registra os sonhos do menino Luis Fernando Fernandes numa metáfora entre lagarta e borboleta que se aplica à realidade da violência no Rio de Janeiro. É uma coprodução Brasil – Chile – EUA na qual Fernando, que vive na Mangueira, sonha ver um jogo do Flamengo no Maracanã. A montagem dá à curta uma fluidez singular. Na entrevista a seguir, Cutter fala ao P de Pop sobre a rota que o levou ao pequeno Fernando.

Como você chegou a Nando e como você avalia hoje o casulo onde ele, esta lagarta tão peculiar à periferia do Rio, floresce?
Alec Cutter:
Encontramos Nando em uma escola de uma ONG na favela da Mangueira chamada ‘Estrela da Favela’. Ele era um garoto gentil e de fala mansa, e devido a esta humildade, senti que ele tinha a pureza e a inocência de se conectar com o público de uma forma profunda. Para muitas dessas crianças e indivíduos das comunidades nas favelas, seu mundo é muito pequeno e, por isso, sinto que o verdadeiro significado deste filme, e sua mensagem, é que estas crianças e seus sonhos são válidos, e eles garantam beleza ao mundo. Eles tem direito a pertencer ao Maracanã e fazer parte do universo do futebol – e eu nunca quero que eles se vejam menos do que isso. Este filme nunca foi apenas sobre futebol, mas, sim, para dar um sentido de pertença a essas crianças cuja visão do mundo foi confinada.
Como foi a engenharia de produção? Quantas pessoas? Quanto custou? Em que locações ele foi filmado?
Alec Cutter:
A produção foi muito difícil, devido aos tiroteios que constantemente se formavam na favela da Mangueira. Tivemos que esperar muitos meses para que as tensões e conflitos se acalmassem antes de retomar a produção. Isto criou um processo de cerca de seis a sete meses de filmagens. A produção consistiu de mim (Diretor, Co-Produtor, Cinematógrafo, Editor) e Igal Albala (Produtor). Também contratamos pessoas da comunidade em todos os dias de produção para ajudar nas filmagens. Tanto Igal como eu não nos pagamos por este projeto. Em vez disso, usamos todas as verbas de produção para ajudar as crianças da comunidade, fazendo a renovação da escola Estrela da Favela, fazendo doação das cestas básicas para muitas famílias dentro da favela da Mangueira. Esperamos continuar este trabalho também. O filme inteiro foi rodado na favela da Mangueira e no Maracanã.
O que o Maracanã ainda representa como um sinal de fascínio?
Alec Cutter:
Acredito que quando o futebol está no seu melhor, ele é o esporte do povo. Portanto, o Maracanã pode representar um espaço no qual pessoas de todas as origens podem se reunir e se unir sobre esta paixão comum. É uma bela experiência sentir a multidão e a história do Maracanã – e eu acredito que é algo que todos deveriam ter a oportunidade de experimentar. O futebol e o Maracanã estão no seu melhor quando podem ser sentidos por crianças como Nando.

Os bastidores do Maracanã em “Nando”

Na lista de curtas de Tribeca, um filmaço americano arrebanhou olhares: “David”, de Zachary Woods. Indicado à Palma de Ouro de curtas de 2020, este filme-piada se ampara num roteiro que jamais larga o trilho da precisão. Will Ferrell brilha em cena no papel de um analista que tem uma sessão de terapia interrompida pelo filho, um ás da luta livre. O analisado, o David do título, vivido pelo ótimo William Jackson Harper, faz o que pode para driblar o inconveniente, mas o absurdo vai se exponenciando narrativa afora.
Cartografia de uma obsessão, num universo onde a afirmação de um devir queer ainda esbarra na intolerância, “The Novice”, um esplendoroso estudo sobre os limites entre perseverança e loucura, foi o ganhador do prêmio principal de Tribeca, coroando a força feminina na direção, com a vitória da cineasta Lauren Hadaway, num ano lotado de mulheres diretoras à dianteira dos longas de maior destaque. O trabalho primoroso de Isabelle Fuhrman, estrela do horror cult “A Órfã” (2009), foi reconhecido com uma láurea de melhor interpretação. E ainda foi concedido um prêmio a mais para esta produção: o de melhor fotografia, dado a Todd Martin.

Entre os longas americanos premiados, foi conferida uma láurea de melhor estreante para “Queen of Glory”, da atriz Nana Mensah. Eis “O” filme deste festival, bem falado em muitas línguas pela força de sua protagonista. Abrilhantada por uma direção de arte refinadíssima, esta dramédia é um estudo sobre choque entre culturas (sobretudo na triste herança do sexismo) e uma exortação à harmonia familiar. No enredo, uma estudante de pós-doutorado do Bronx quer deixar NY e ir para Ohio para perseguir seu amante, mas recebe a notícia de que herdou a livraria evangélica de sua mãe, uma imigrante de Gana. Ela não pode deixar a loja sem cuidar do funcionário mais querido daquele empório, um ex-condenado (interpretado por Meeko com inteligência e humor). O roteiro constrói uma crônica sagaz de boas maneiras. A direção da fotografia apela para elementos de gramática documental, criando um ensaio realista particular sobre Nova York.
Embora não tenha sido premiado, “Shapeless”, de Samatha Aldana, foi um ímã de elogios no festival. É inevitável a comparação entre este thriller somático e o cult “Swallow”, também egresso de Tribeca, em 2019, e também centrado em alimentos. Eis aqui a promessa do que pode vir a ser “o” horror cult do ano. Nele, uma cantora, Ivy (Kelly Murtagh), encara toda a sorte de plateias durante as noites de Nova Orleans, em meio a uma batalha pessoal com uma estranha desordem alimentar que mexe com sua psiquê, fazendo com que ela se relacione de maneira compulsiva com a comida. As cenas em que dedos e olhos brotam de seu corpo são de gelar a espinha.

No terreno das ficções latinas, “a” atração foi “El Perfecto David”, de Felipe Gómez Aparicio, da Argentina. Sombrio do começo ao fim, com uma fotografia que desafia a placidez do realismo abrindo-se ao chiaroscuro, este drama ganha contornos de thriller psicológico ao explorar a psiquê alquebrada de um adolescente (Maurido Di Yorio) cuja meta é ter um corpo escultural, apelando para horas e horas de maromba – e solidão. Sua mãe (Umbra Colombo, em brilhante atuação) é uma artista plástica que usa o físico de seu rebento como forma de criar um estatuário apolíneo. E essa conjugação entre a arte de um e a sanha fisiculturista do outro caminha para a loucura, rendendo um filmaço.
Nos 45 minutos do segundo tempo de suas atrações do ano, Tribeca saiu deslumbrada de “Nem Um Passo Em Falso” (“No Sudden Move”), novo filme de Steven Soderbergh, que estreia dia 1º de julho na HBO Max, em especial pela atuação em estado de graça de Don Cheadle. Sintonizado com a tradição narrativa de Dashiell Hammett, fiel a toda uma linhagem de narrativas noir, mesmo sendo calcado em um texto (roteiro) original de Ed Solomon, o longa é um estudo sobre atraiçoamento, numa Detroit dos anos 1950 tão áspera que lembra a fotografia de Ernest Laszlo em “A Morte Num Beijo” (“Kiss Me Deadly”, 1955). Soderbergh parece regressar à boa forma de sua obra-prima, “Kafka” (1991), em seu ímpeto de mapear valores morais em um mundo oprimido pelo lucro. No papel de Curtis, um ex-presidiário escalado para surrupiar um documento, num roubo que se revela uma armadilha, Cheadle é uma espécie de Mike Hammer neste pulp dos anos 2020.

“Nem Um Passo Em Falso” chega no dia 1º de julho na HBO Max

p.s.: Não é raro nos sentirmos perdidos e confusos diante da quantidade de informações (verdadeiras e falsas) a que temos acesso diariamente pelos meios de comunicação e redes sociais. A circulação de notícias, obras e ideias está em profunda transformação no mundo atual, passando por fenômenos como os da “fake news”, mas também ampliando em nível vertiginoso nossa possibilidade de acesso ao conhecimento. Com dramaturgia e direção de Cecilia Ripoll, o espetáculo “PANÇA”, que estreia dia 1º de julho no Teatro Arthur Azevedo, constrói uma fábula para tratar da reprodutibilidade da notícia e das falhas da comunicação humana. O espetáculo foi selecionado pelo edital Prêmio de Montagem Teatral, da Fundação Anita Mantuano de Artes do Estado do Rio de Janeiro (FUNARJ). Com estrutura cômica e farsesca, a peça acompanha a história de um talentoso e endividado escritor que, de seu pequeno vilarejo, escuta falar sobre a mais nova invenção da capital: a famosa máquina de imprensa. Com desejo de ampliar a venda de seu mais recente romance, o autor se endivida ainda mais para conseguir comprar a copiadora mecânica. No elenco, estão André Marcos, Clarisse Zarvos, Diogo Nunes, Julia Pastore e Ademir de Souza. “Sem compromissos rígidos em dar conta de fatos históricos, a fábula está mais preocupada em se perguntar o que acontece com a sociedade quando surgem avanços que transformam a capacidade de reprodutibilidade de obras e ideias. Como a ampliação dos meios de reproduzir discursos impacta na transformação social e no imaginário dos indivíduos?”, questiona a autora e diretora Cecilia Ripoll.

p.s.2: Vinte e cinco jovens da comunidade Indiana, localizada no Complexo do Borel, no Rio, receberam, em mãos, um exemplar de “O Diário de Anne Frank” para um projeto que fomenta a produção de narrativas a partir de vivências. Best-seller mundial desde sua publicação, em 1947, o livro é construído a partir de depoimentos de Annelies Marie Frank (1929-1945), judia teuto-holandesa, morta num campo de concentração nazista após passar anos escondida no sótão de uma casa em Amsterdã. Os jovens terão aulas sobre literatura e história, com foco no Holocausto, a fim de desenvolverem um processo criativo chamado “Cartas para Anne Frank”. Quais histórias eles terão para contar? As respostas serão dadas em breve quando o vencedor da melhor carta – que também poderá ser feita em vídeo – será premiado com um laptop.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.