Nadège Trebal e a economia do amor

Nadège Trebal e a economia do amor

Rodrigo Fonseca

10 de agosto de 2019 | 15h32

A atriz e diretora Nadège Trebal se firma como cineasta, na briga pelo Leopardo de Ouro de 2019, com “Douze Mille”, no qual contracena com Arieh Worthalter, falando da merchandisação do querer

Rodrigo Fonseca
Formada em Literatura, mas escolada no cinema pelas vias do Real, com .docs de flamas políticas como “Bleu Pétrole” (2012) em seu currículo na tela, a diretora e atriz francesa Nadège Trebal colocou Locarno no bolso, neste sábado de calor suarento com um mergulho afetivo na ficção e nas mazelas do Capital: “Douze Mille”. É um banho de descarrego em forma de longa-metragem. Sua atuação se pauta pelo ardor, comp a de seu colega de cena, Arieh Worthalter, a quem ela dirige nas raias da pressão realista. É uma ‘love story’ daquelas das mais descabeladas, com foco nos riscos de desagregação de um casal. Arieh é Frank, cuja renda cai a zero após perder um trabalho nas franjas da ilegalidade. A certeza de que sua mulher, Maroussia (papel de Nadège), ganha mais do que ele, leva Frank a uma ciranda de erros atrás de um emprego que lhe garanta uma bolada mensal. É o que a cineasta parisiense de 43 anos definiu nesta entrevista ao P de Pop como sendo a “merchandisação do querer”.

Qual é o espaço para a sociologia em uma história de amor como “Douze mille”?
Nadège Trebal: A busca de Frank por dinheiro resvala no velho conceito da ‘prova de amor’. Só que sua leitura para essa tradição é das mais materialistas, o que me dá uma deixa para falar de uma forma ‘tarifária’ de amor. Forma essa na qual o capitalismo abala as bases da afetividade.

Qual é a sua leitura social… ou política… da vida a dois?
Nadège Trebal: É a percepção de que a vida em casal tornou-se uma microempresa, com encargos altos demais para sustentar um equilíbrio. Há que se buscar um balanço sem deixar o desejo se esvair.

O quanto a sua experiência documental pesou na construção dessa estética?
Nadège Trebal: O Real me deu mais intimidade com os contrastes humanos, pois fazer .docs me fez me apaixonar pelas diferenças. Maroussia é doce, mesmo em sua resistência mais feroz. Frank é alguém que deixa seu desejo por dinheiro interferir na relação.

Fala-se muito em cena, mas há rasgos de silêncio que doem na alma. O que eles te revelam?
Nadège Trebal: O som é permanente nas minhas imagens, mesmo aquelas em que não há diálogo. O som interior, do drama dos personagens, grita por meio de gestos.

Neste domingo, Locarno recebe uma experiência narrativa sem palavras… sem diálogo do habitualmente “falastrão” diretor canadense Denis Côté (de “Vic + Flo viram um urso”): o longa de 66 minutos “Wilcox”. Guillaume Tremblay vive o personagem central, um sujeito taciturno que aposta na liberdade acima de tudo. Côté brilhou na última Berlinale, em fevereiro, com o sombrio “Répertoire des Villes Disparues”. Ainda no dia 11, o festival recebe a montadora Claire Atherton para um debate sobre o conjunto de sua obra. O festival termina no dia 17, com a premiação e a exibição de “To the ends of the Earth”, de Kiyoshi Kurosawa.

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