Nadav Lapid, sinônimo de excelência

Nadav Lapid, sinônimo de excelência

Rodrigo Fonseca

23 de dezembro de 2019 | 10h39

Rodrigo Fonseca
Poucos lançamentos deste fim de ano em solo nacional dividem tanto as opiniões do público e da crítica quanto “Sinônimos”, produção que deu o Urso de Ouro a Israel, em fevereiro, e que chegou às telas do Brasil no fim de semana com fome de redesenhar um debate moral acerca das tradições de sua pátria e das representações da França como terra da liberdade. Estamos diante de um dos roteiros mais sólidos de 2019, vivificado em imagens de um requinte de enquadramento que parece incompatível com o olhar “turístico” que, habitualmente, faz-se de Paris. Há quem já dê como certa a escalação de seu diretor, Nadav Lapid, para o júri da Berlinale 70, que vai de 20 de fevereiro a 1º de março, na capital alemã. Aos 44 anos, o realizador vem sendo tratado em sua pátria como celebridade. Mais do que isso: num país que produziu seriados de enorme prestígio, ele virou um parâmetro de excelência para a arte de se escrever roteiros, além de ser encarado como um transgressor dos códigos culturais. Ele é encarado como uma grife criativa desde 2011, quando ganhou o prêmio especial do júri do Festival de Locarno com “Policeman”.
“Israel é um ser vivo, como todo país: nações são feitas por pessoas, que estão em constante movimento, inclusive para fora, e que, para onde vão, levam sua cultura consigo. O que me fez construir a saga de Yoav, o protagonista de “Sinônimos”, foi a minha própria experiência fora de minha pátria, em uma nação que não compartilha das mesmas leis milenares que cercam a minha cultura. Como viver, portanto, nesse espaço de ‘liberdade’ moral”, disse Lapid ao P de Pop, por telefone.

Em “Synonymes”, Yoav (Tom Mercier, numa atuação estonteante) é um jovem que chega à França cheio de sonhos e de aversões ao país que deixou para trás. Mas trocar uma nacionalidade pela outra é uma tarefa carregada de um ônus existencialista: ele tem que ir à embaixada muitas vezes, não consegue se livrar de sua língua natal e se vê cercado de sombras xenófobas. É o preço do pertencimento e da busca por um recomeço. “Yoav é um herói, em uma percepção clássica dessa palavra hoje tão barateada”, diz Lapid. “Ele é um homem belo, muito inteligente e com muita potência de descoberta que passa por uma jornada na qual seu olhar vai desconstruindo os encantamentos mais barateados que a vivência em outras terras nos abre. Há, talvez, algo em Yoav de Jacques Tati, comediante cujo cinema eu adoro e que traz uma estranheza bem-humorada em sua forma física de se relacionar com esse espaço, a partir de uma desconstrução da língua. É um filme em que eu tento repensar a dimensão existencial da palavra como parte essencial do cinema”.

Dos potenciais concorrentes ao Urso de Ouro do ano que vem, nada se sabe de Berlim, das vias oficiais, ainda que seja dada como certa a ida de “Home”, longa de estreia da atriz germânica Fanka Potente. Na busca por produções mais midiáticas, a Berlinale 2020 parece estar de olho em “The Postcard Killings”, do bósnio Danis Tanovic, que promete ser um dos grandes sucessos de bilheteria da Europa este ano, baseado na literatura de James Patterson. Jeffrey Dean Morgan e Famke Janssen encabeçam o elenco deste policial sobre o assassinato de uma jovem em Londres. Espera-se muita mídia também para “My Salinger Year”, produção canadense pilotada por Philippe Falardeau, e estrelada por Sigourney Weaver no que promete ser o melhor desempenho dela em anos. Há ainda uma promessa de holofotes quentes em torno em torno da coprodução luso-brasileira “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, na qual João Botelho dirige Chico Diaz com base na prosa de José Saramago. E há, já, uma torcida pelo ator Viggo Mortensen, por sua estreia como cineasta em “Falling”: drama LGBTQ+ sobre um ancião (Lance Henriksen) intolerante diante da orientação sexual de seu filho.
Cogita-se, ainda, a participação de longas-metragens inéditos da inglesa Sally Potter (“Molly, com Elle Fanning e Javier Bardem vivendo filha e pai em crise); do romeno Cristi Puiu (com “Malmkrog”); do dinamarquês Thomas Vinterberg (“Druk”, no qual Mads Mikkelsen encarna um professor alcoólatra); de Naomi Kawase (com “Asa ga Kuru”, sobre uma mulher às voltas com a adoção de um bebê); do polonês Tomasz Wasilewski, com “Fools”; e alguns falam na animação “Izzy Got the Frizzies”, a estreia do coreano Kim Ki-Duk em desenhos. Saberemos o que vai entrar (ou não) nos próximos dias.

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