‘Na Trilha do Sol’ prova como a MUBI é essencial

‘Na Trilha do Sol’ prova como a MUBI é essencial

Rodrigo Fonseca

23 de janeiro de 2021 | 13h03

RODRIGO FONSECA
Se existe um lugar na streaminguesfera que só dá alegria aos cinéfilos apaixonados por algo além de séries (com todo o respeito à grandiosidade de muitas delas, vide “Lupin”, “Segunda Chamada”, “The Boys” ou “WandaVision”), este lugar é a MUBI, que amanheceu este fim de semana exibindo “Na Trilha do Sol” (“The Sunchaser”, 1996) em sua grade. Só o fato de dar a seu realizador, Michael Cimino (1939-2016), o reconhecimento autoral que este perdeu depois de “O Portal do Paraíso” (1980) – e só resgatou no finzinho da vida, no peito da crítica – já seria razão potente o suficiente para se prestigiar o www.mubi.com. Mas o trabalho que a plataforma de curadoria humanizada vem fazendo pelo mundo – especialmente aqui, sob os bons auspícios de Juliana Barbieri, sua gestora local – vem sendo de uma riqueza singular. Basta ver que no próximo dia 29 o cardápio deles acrescentará exibições do visceralíssimo drama “Beginning” (“Dasatskisi”), de Dea Kulumbegashvili, filme egresso da Geórgia laureado com a Concha de Ouro no Festival de San Sebastián e com o Prêmio da Crítica no Festival de Toronto. E tem muitas pérolas por lá. Mas o garimpo da vez é por conta de Cimino.

Catártico ao colocar “What a Difference a Day Makes”, na voz de Little Esther Phillips, para celebrar a redenção de um bom burguês, “Na Trilha do Sol” foi o último dos sete belos longas dirigidos por Cimino, o mais proscrito de todos os cineastas da Nova Hollywood – tão proscrito que até sua morte foi tratada com menos honraria do que ele merecia ter. Expoente de uma carpintaria narrativa moderna, mais ágil do que os filmes de ação feitos nos EUA nos anos 1970 costumavam ser, ele mostrou-se um talento com “O Último Golpe” (1974), filmando Clint Eastwood e Jeff Bridges entre tiros e pontapés. A confirmação de sua excelência no comando das câmeras se deu com “O Franco Atirador” (1978), um dos mais crus e dolorosos registros da Guerra do Vietnã e de seus efeitos no inconsciente de uma América pobre e operária.
Dali saiu uma bilheteria mastodôntica (US$ 50 milhões) e cinco Oscars, dos quais ele levou para casa os de filme e diretor. Mas, dois anos depois, com “O Portal do Paraíso”, ele passaria dos céus da reverência ao inferno do desdém popular e do fiasco comercial. Este anti-western teve seu orçamento inflacionado para cerca de US$ 44 milhões (um acinte para a época), o que faliu a mítica United Artists e jogou toda a credibilidade do realizador no vaso. Abandono, folclore, um projeto frustrado de filmar os 500 anos do descobrimento do Brasil e muita decepção: isso foi o que sobrou de Cimino ao longo de exatas duas décadas de ausência do formato no qual se fez lenda. Ele teve um curtinha incluído na antologia “Cada Um Com Seu Cinema” (2007), de Cannes, onde é encarado como rei. Mas aquilo era só um aperitivo. O legado que ele deixa é maior.

Blue (Jon Seda) e o Dr. Reynolds (Woody Harrelson) em “Na Trilha do Sol”, hoje na MUBI

Estrelado por um Woody Harrelson em estado de graça, “Na Trilha Do Sol” chegou ao Brasil num VHS mequetrefe da Warner Bros. e em sessões dubladas na madrugada do SBT. Chegou a disputar a Palma de Ouro no ano em que Francis Ford Coppola – curiosamente, um de seus mais ativos contemporâneos de Nova Hollywood – presidiu o júri cannoise e laureou Mike Leigh e seu “Segredos e Mentiras” (1996). Na trama, Harrelson interpreta o oncologia Michael Reynolds, um médico bem-sucedido profissionalmente cuja vida afetiva anda na vala. Ao ser convocado para tratar um prisioneiro indígena em fase terminal de um câncer, o criminoso Brandon Blue Monroe (Jon Seda), ele acaba sendo confrontado com uma realidade diversa da sua, não apenas em diferenças sociológicas mas no desequilíbrio existencial que enfrenta. Em meio a um choque cultural, Blue sequestra Reynolds e o arrasta em uma jornada pela América adentro, em busca de um espaço ritual das populações Navajo, onde espera fazer as pazes com os espíritos de seus ancestrais. No meio do caminho, numa narrativa de road movie de um realismo esturricado, nutrido pela fotografia do inglês Douglas Milsome (câmera chefe de Kubrick em “Nascido Para Matar”), Cimino transforma o que começa como aula de Sociologia numa jira onde essência e matéria colidem numa reflexão sobre serenidade. Aliás, o dilema de ser e estar sereno é um dos tópicos de autoralidade da filmografia de Cimino, presente mesmo em seus thrillers mais violentos, como o exuberante “O Ano do Dragão” (1985) e “O Siciliano” (1987), exibido pela Globo numerosas vezes, com o saudoso gênio da voz Júlio Cézar dublando Christopher Lambert. Mais um adendo de excelência para “The Sunchaser” é a trilha sonora de Maurice Jarre. E vale prestar atenção no desempenho da subestimada atriz Talisa Soto, como uma das integrantes dos Navajos.
Tudo o que existe de vívido nas decupagens de Cimino é fruto de uma hemodiálise poética da imagem. Para entendê-la é necessário voltar no tempo. Houve uma vez um verão, o de 1967, no qual o cinema americano engajou-se numa bossa nova para seus padrões, diante de dois filmes “Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas”, de Arthur Penn, e “A Primeira Noite de um Homem”, de Mike Nichols. Em ambos, dois diretores com experiências em outras mídias (o primeiro da TV, o segundo do teatro) contextualizaram a juventude dos EUA sob uma ótica alarmista de percepção do cerceamento moral e da violência das instituições, seja pela caretice da Família seja no chumbo quente do Estado. Dali pra frente, a filmografia do Tim Sam tomou uma curva à esquerda, imbuindo-se do espírito cinemanovista – aquele que pariu Truffaut, embalou Bertolucci, ninou Skolimowski, pôs Glauber para ventilar verdades – para tirar cascas das feridas nas veias abertas da América profunda.

Naquele momento, nos EUA, uma trupe surgiu com uma proposta de engajamento social, político, comportamental e estético. Entre eles estavam o já citado Coppola (“O Poderoso Chefão”), Shirley Clarke (“For Life, Against The War”), o deus Martin Scorsese (“Taxi Driver”), Melvin Van Peebles (“Sweet Sweetback’s Baadasssss Song”), Peter Bogdanovich (“A Última Sessão de Cinema”), Gordon Parks (“Shaft”), Bob Rafelson (“Cada Um Vive Como Quer”), Bob Fosse (“Cabaret”), o ferrabrás Brian De Palma (“Carrie, a Estranha”), Jerry Schatzberg (“O Espantalho”), Hal Ashby (“Muito Além do Jardim”), a brilhante Elaine May (“O Rapaz Que Partia Corações”), George A. Romero (“A Noite dos Mortos-Vivos”), George Lucas (“Star Wars – Episódio IV: Uma Nova Esperança”), John Carpenter (fruto tardio dessa colheita, que funda sua estética a partir de “Assalto à 13ª DP” e “Halloween”) e um certo Steven (o do “Tubarão” e de “Contatos Imediatos do 3º Grau”). E ponha ao lado deles um documentarista de peso como Peter Davis (“Corações e Mentes”) e ficionistas mais velhos, como Robert Altman (“M.A.S.H.”), John Cassavetes (“Maridos”), Monte Hellman (“Briga de Galo”), Sidney Lumet (“Serpico”) e Sydney Pollack (“A Noite dos Desesperados”). Embora muito esqueçam, foi aí que Woody Allen (“Bananas”) apareceu. E essa patota trouxe pro primeiro plano da tela as varizes éticas que impediam a oxigenação do sangue americano.

Eles eram os chamados Easy Riders, em referência ao filme homônimo de Dennis Hopper, lançado em 1969 e tido como a carta de intenções de uma nova poética fílmica desesperada pelas chagas de sua pátria. Essas chagas eram, em geral, políticas e sociais – com destaque para a exclusão dos pobres e o dos imigrantes. Falavam ainda do massacre dos ragazzi fãs de Beatles e Rolling Stones mortos no Vietnã. Mas também havia a chaga da própria imagem, ou seja, a impotência que o próprio cinema teve de deflagrar uma revolução a partir de sua habilidade de (re)interpretar o mundo ao colocar sua memória em movimento.
Cimino foi um desses garotos de ouro e tomou a ousadia de questionar a condição sagrada dos caubóis e dos soldados nos EUA, colocando eslavos (os russos inclusive) como vítimas numa época na qual a Guerra Fria ainda geava almas. Ao se chocar contra o icerberg da baixa bilheteria, ele encarou uma borrasca com filmes autoralíssimos (e esnobados), como “Horas de Desespero” (1990). Quando não se esperava mais nada dele, o Festival de Cannes acolheu “Na Trilha do Céu” como sendo uma espécie de prece aos deuses da autoralidade em busca de prorrogação, de vida e de obra. Deu certo, mesmo sem muito barulho.

O diretor Michael Cimino, que morreu aos 77 anos em 2016, deixando longas seminais e o livro “Big Jane”, lançado em 2001

É difícil encontrar, no cinema dos anos 1990, filme mais bonito e mais triste sobre o tema da acomodação. Harrelson vivia ali um período de apogeu, sendo indicado ao Oscar por “O Povo Contra Larry Flynt” (Urso de Ouro de 1997), naquela mesma época. Seu personagem, Reynolds, embarca numa jornada de salvação até um vale onde, de acordo com as lendas de povos indígenas, qualquer doente pode sair curado de suas enfermidades.
Cimino foi convocado para o Além sem ter alcançado esta Aruanda redentora: o câncer do desprezo (por parte da indústria) custou sua paz, sua harmonia, sua alegria. Ele morreu em decorrência de um assassinato cultural. Mas uma cura hoje se faz ver: sua filmografia agora é objeto de estudo, de respeito e de culto, e a MUBI colabora imensamente para que ele tenha a glória prometida, ainda que num após vida. Que “Na Trilha do Sol” possa ser resgatado nessa belíssima janela de streaming com o devido cuidado, para que ele seja lembrado como um mestre daquele que talvez seja – nos EUA – o mais fértil período de casório entre as ousadias autorais e as boas receitas comerciais. Que o hoje octogenário Monte Hellman, também muito esquecido, mesmo tendo feito obras-primas como “Corrida Sem Fim” (1971), “A Vingança de um Pistoleiro” (1966) e “Iguana – A Fera do Mar” (1988) não precise morrer para ter esta mesma honra que (tardiamente) Cimino conquistou. Que a MUBI se lembre logo de Hellman. Há de lembrar. Ela lembram de todas/os. Que bom que ela existe, ao alcance de um clique.

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