Na Real_Virtual volta com Eliza Capai e Tendler

Na Real_Virtual volta com Eliza Capai e Tendler

Rodrigo Fonseca

03 de novembro de 2021 | 13h06

RODRIGO FONSECA
Uma nova – e imperdível – etapa do evento que mais mobilizou o cinema documental deste país no auge da pandemia, em 2020, começa nesta quarta-feira, mobilizando 24 vozes – das mais variadas gerações e dos mais diversificados estilos – alinhadas com as estéticas da não ficção: o seminário Na Real_Virtual. Serão 12 encontros desta noite até o dia 10 de dezembro, sempre às 19h, ambientados na plataforma Zoom, via Sympla. Dá um pulinho lá na URL https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2021 pra conhecer a riqueza de seleção montada pelo cineasta e professor Bebeto Abrantes; pelo decano da crítica Carlos Alberto Mattos (autor de um obrigatório livro sobre Eduardo Coutinho); e pela pesquisadora e programadora Carla Italiano. A produção é capitaneada por Kerlon Lazzari, via Associação Imaginário Digital e a Supimpa Produções. Para a abertura, a legião de “.docófilos” do Brasil vai conferir um papo entre Eliza Capai – diretora laureada na Berlinale de 2019 com o prêmio da Anistia Internacional por “Espero a tua (re)volta” – e o campeão de bilheteria Silvio Tendler (“Jango” e “Anos JK”), o papa do cinema historiográfico em nossas terras – e telas.
Segundo Mattos, “o encontro de nomes veteranos com talentos de gerações mais novas permitirá uma ótima discussão sobre linhas de ruptura e de continuidade na maneira de os cineastas brasileiros se defrontarem com o real”.

Sexta é dia de Theresa Jessouroun conversar com Cristiano Burlan, num debate batizado de “O corpo como alvo”. As próximas mesas serão: no dia 10) Marcos Pimentel e Marília Rocha; no dia 12) Tetê Moraes e Camila Freitas; no dia 17) Geraldo Sarno e Henrique Dantas; no dia 19) João Batista de Andrade e Toni Venturi; no dia 24) Allan Ribeiro e Letícia Simões; no dia 26) Eduardo Escorel e Carlos Adriano; no dia 1º de dezembro, Orlando Senna e Cavi Borges; no dia 3 Dez.) Sandra Kogut e Aline Motta; no dia 8 Dez.) Jom Tob Azulay e Ana Rieper; e no dia 10 Dez.) Jorge Bodanzky e Takumã Kuikuro.
“Destaco a proposta de promover diálogos a partir de temas e ideias que nomeiam cada encontro, o que concerne não apenas as duas pessoas que estão convidadas ali para debater, mas que se desdobram em uma série de outros filmes contemporâneos”, diz Carla Italiano. “Acho que vale comentar um pouco sobre o (conceito de) Arquivo e como isso aparece nesse ciclo do Na Real. Parece-me uma palavra que aparenta carregar um significado imediato, mais superficial, mas que pode ser significar tanto, como um termo em disputa mesmo, no sentido de ser apropriada por diferentes sujeitos, usos e intervenções na própria ideia de história. Penso isso particularmente no que diz respeito ao cinema realizado por mulheres e sujeitos historicamente marginalizados, apartados dos espaços de poder e de tomada – sobretudo no cinema – como, por exemplo, cineastas negras e negros e indígenas. Penso ainda como a ideia do arquivo significa, também, a possibilidade de criar uma história coletiva através do próprio corpo, de memórias pessoais… familiares, de modo a reivindicar uma existência, contornar as tentativas de apagamento, algo extremamente forte no cinema brasileiro do documentário brasileiro atual. Algo que extrapola um uso, talvez, mais convencional do (re)emprego de arquivos de montagem, levando as suas ideias para outros lugares. Nesse sentido, eu destacaria o trabalho da Aline Mota, que está presente nesse ciclo, e o trabalho em curta-metragem de Takumã Kuikuro”.

Ao refletir sobre o atual desenho documental brasileiro, Bebeto diz que a pandemia afetou – e ainda afeta – a produção não ficcional em suas várias dimensões: na temática, na produção, na estética e na linguagem. “Eu mesmo realizei com Cavi Borges o longa .doc ‘Me Cuidem-se!’, sobre todo o período mais agudo da pandemia/quarentena, de março à setembro de 2020. Recentemente Sandra Kogut também lançou um filme sobre a mesma temática, com o recorte de personagens que serviram de cobaia para testes com vacinas anti-COVID. Eduardo e Lauro Escorel estão lançando agora na Mostra de São Paulo de 2021 o filme ‘Sars-Cov-2 – O Tempo da Pandemia’. Tematicamente, por conta do isolamento imposto pela quarentena, houve uma intensificação de filmes que abordam a vida privada das pessoas e revelam suas casas, suas dúvidas, desejos e receios, suas intimidades. O doc contemporâneo já tinha validado e consolidado a tendência de fazer da subjetividade, do personagem e dos próprios diretores, ‘assunto de filme’. Mas, não há dúvidas de que as circunstâncias de isolamento da pandemia impuseram com mais força essa tendência que já em curso”, diz Bebeto. “Do ponto de vista estético, a pandemia estimulou o uso da linguagem de encontros via Zoom, com seu jogo de janelas na tela, em muitos docs. Da mesma forma, também trouxe e impôs uma certa aceitação de um tipo de imagem/som, tremidas, muitas vezes enquadradas de uma forma mais irregular. Surgiu uma certa crueza no fazer docs. Novamente aqui, essas ‘novidades pandêmicas’ há muito estavam em curso no .doc contemporâneo. Mas a pandemia intensificou-as, justificou e mais: impôs seu uso. Quanto aos streamings da vida, essas plataformas consolidam uma nova forma de se ver filmes, conhecida por ‘3A’s’: Anytime, Anything, Anywhere. E, os docs “pegam carona” nessa nova forma de se assistir. O que traz novas questões. Mas essa é outra história…”.

p.s.: “No Labirinto do Cérebro” (Editora Objetiva), sucesso literário do neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho, dedicado a suas experiências na Medicina, será transformado pela produtora Sonia Rodrigues em uma série documental de seis episódios, com estreia prevista para o primeiro semestre de 2022. Em uma ação de pré-lançamento, Sonia – filha do Shakespeare brasileiro, o dramaturgo Nelson Rodrigues – vai conversar com o Niemeyer Filho, num podcast homônimo ao livro, sobre numerosas vitórias das ciências médicas em casos extremamente difíceis, que nos emocionam e nos enchem de otimismo de forma arrebatadora. O lançamento de “No Labirinto do Cérebro”, online, será nesta quarta-feira, no Spotify e demais plataformas digitais, antecipando um pouco do clima da série que será lançada no ano que vem. A cada semana, um episódio inédito irá ao ar. Serão seis no total.

p.s.2: A atração de terça (09) no Megapix é uma programação com os oito filmes da franquia Rocky, a partir das 08h55. O personagem foi criado pelo ator e diretor Sylvester Stallone, se tornou responsável pelo maior sucesso de sua carreira e gerou uma legião de fãs. A Maratona Balboa começa com “Rocky – Um Lutador”, de 1976, e vai até os mais recentes, como “Creed: Nascido Para Lutar” (2015) e “Creed II” (2018).

p.s.3: Em sua 40ª edição, programada de 26 de março a 3 de abril de 2022, o Bergamo Film Meeting vai dedicar uma retrospectiva completa ao diretor Costa-Gavras, mestre do cinema político. Responsável por sucessos como “Z” (1969), o cineasta franco-grego também será homenageado durante a 43ª edição do Efebo d’Oro, que acontecerá em Palermo, de 14 a 20 de novembro de 2021, onde receberá o Prêmio Efebo d’Oro Lifetime Achievement – Banca Popolare Sant’Angelo.

p.s.4: “A Menina Que Roubava Livros” é o novo espetáculo do Grupo Teatro Novo, que estreia no dia 5 de novembro, às 20h, no Teatro Municipal de Niterói, com apresentações também nos dias 6 e 7 de novembro (sempre às 18h). O espetáculo é baseado no texto original de Markus Zusak e tem como referência o filme dirigido por Brian Percival. A peça foi totalmente ensaiada de forma remota durante a pandemia. A direção do espetáculo é de Rubens Emerick Gripp e Cristina Guimarães. Todas as apresentações contam com intérprete de libras.

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