Na Real_Virtual consagra o cinema indígena

Na Real_Virtual consagra o cinema indígena

Rodrigo Fonseca

08 de novembro de 2020 | 11h13

Rodrigo Fonseca
Revelando Brasis de diversos sotaques, etnias e vivências, o seminário Na Real_Virtual, a maior festa online das estéticas documentais brasileiras, que engatou no último dia 4 um novo ciclo, abre sua segunda semana de trabalhos compartilhando dos saberes de quem milita dos rituais de empatia do cinema indígena. Dois artistas de verve autoral foram convocados para falar: Alberto Álvares – cineasta indígena da etnia Guarani Nhandewa, nascido na aldeia Porto Lindo, Mato Grosso do Sul, professor e tradutor, responsável por .docs como “O Último Sonho” – e Vincent Carelli – antropólogo franco-brasileiro que fez no projeto Vídeo nas Aldeias um veio de formação de diretoras e diretores, além de ter em seu currículo “Corumbiara”, o Kikito de melhor filme de Gramado, em 2009. A dupla conversa com os curadores do simpósio, Bebeto Abrantes e Carlos Alberto Mattos. Para ficar por dentro dos colóquios montados por eles, basta acessar https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2.
“Cinema indígena é a pluralidade e diversidade. Cada cineasta indígena traz o seu novo olhar e sua nova forma de escrever o filme, uma forma de ler a imagem através de um filme”, diz Álvares. “As nossas realidades são diferentes. Por isso, existe uma forma diferente de narrar e contar os nossos pensamentos, na forma de filmagem mesmo”.
“As expressões indígenas ecoam nos vários campos das artes ultimamente e há um interesse progressivo de uma certa geração pela perspectiva dos indígenas diante da nossa crise civilizatória e catástrofe ambiental anunciada”, diz Carelli.

Para calçar as conversas, Abrantes e Mattos trouxeram filmes seminais de seus convidados. De Álvares, a escolha foi “Guardiões da Memória” (2018). Nele, o realizador percorre cinco aldeias guaranis do estado do Rio de Janeiro ouvindo xeramoins e xejaryis (os mais velhos e as mais velhas). Eles e elas falam da importância da memória e da transmissão de conhecimentos para as novas gerações. O filme registra imagens, histórias, cantos e danças, além da saída de um grupo para vender peças de artesanato em Paraty. “Alberto Álvares, cineasta da etnia Guarani Nhandewa, não foi formado pela Vídeo nas Aldeias. Daí a particularidade do seu caso, bastante autônomo e independente”, explica Mattos, um dos mais respeitados críticos do país, responsável pelo livraço “Sete Faces de Eduardo Coutinho”. “Sua filmografia destaca-se pelo estilo clássico, sereno, e pela atenção dada à transmissão oral na cultura guarani. A maioria dos seus filmes se volta para a espiritualidade, os ensinamentos dos mais velhos e o pensamento dos seus companheiros sobre o estar no mundo. Quando não está por trás de sua câmera ou da ilha de edição, Alberto fala sobre seu trabalho e suas escolhas com uma voz poética que vale a pena ouvir”.

Para traduzir as lutas de Carelli, o Na Real_Virtual trouxe “Martírio” (2016), codirigido por Tatiana Almeida e Ernesto de Carvalho. No longa, vemos o retorno ao princípio da grande marcha de retomada dos territórios sagrados Guarani Kaiowá através das filmagens de Carelli, que registrou o nascedouro do movimento na década de 1980. Vinte anos mais tarde, tomado pelos relatos de sucessivos massacres, Carelli busca as origens deste genocídio um conflito de forças desproporcionais: a insurgência pacífica e obstinada dos despossuídos Guarani Kaiowá frente ao poderoso aparato do agronegócio. “A história do cinema indígena no Brasil nunca poderá ser contada sem uma forte menção a Vincent Carelli”, diz Mattos. “Morando em aldeias desde os 20 anos de idade, esse antropólogo franco-brasileiro criou todo um mecanismo de apropriação dos indígenas em relação a sua própria imagem. Seja propiciando o contato audiovisual entre tribos, seja promovendo oficinas de formação de cineastas, ou mesmo realizando seus próprios filmes sobre a questão indígena”.
No frigir dos ovos das inquietações documentais, o Na Real_Virtual garantiu para si uma trupe de talentos invejável para as próximas conversas: Adirley Queirós, Claudia Priscilla, Eryk Rocha, Evaldo Mocarzel, Joel Zito Araújo, Kiko Goifman, Lúcia Murat, Roberto Berliner, Sandra Werneck, Silvio Da-Rin, Susanna Lira e Walter Salles. É sempre às 19h, às segundas, quartas e sextas. Vale a atenção.

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