Na mira de festival chinês, thriller mineiro surpreende nas telas

Na mira de festival chinês, thriller mineiro surpreende nas telas

Rodrigo Fonseca

27 de novembro de 2016 | 15h17

“Elon Não Acredita na Morte”: premiado em Brasília, destaque na Semana dos Realizadores, escalado para Macau

RODRIGO FONSECA
Única produção brasileira em competição no Festival de Macau, cuja primeira edição vai de 8 a 13 de dezembro na província lusófona da China, Elon Não Acredita na Morte é uma garantia de inquietação poética na programação da Semana dos Realizadores, com sessão neste domingo, às 21h40 no Espaço Itaú do Rio de Janeiro. O filme é um atestado do vigor do cinema feito hoje nas Minas Gerais por uma geração engajada em refletir sobre os rumos estéticos e éticos da imagem – seguida de perto por uma nova crítica que tem em Marcelo Miranda seu pilar. Acolhido com aplausos inflamados – e merecidos – no Festival de Brasília, em setembro, este thriller (ou quase isso, vide sua musculatura existencialista) de Ricardo Alves Jr. segue a trilha do looser (Rômulo Braga, em uma atuação devastadora) em busca do paradeiro de sua mulher. Braga saiu do DF com o troféu Candango de melhor ator pelo longa-metragem, que se candidata (com facilidade) ao posto de melhor thriller brasileiro do ano, vitaminando um filão no qual o cinema brasileiro emplacou recentemente a pérola Para Minha Amada Morta (2015), de Aly Muritiba, lá do Paraná. Aliás, são dois filmes que conversam pela temática, por uma inquietação existencial frente ao desemparo e pelo clima de tensão, embora, aqui, a direção opte por um caminho de maior saturação (de breu, de cores ferventes, de mistério), dialogando – ainda que de forma indireta – com uma tradição mais imagética e mais psicanalítica da genealogia do suspense. É difícil sair dele sem pensar em Estrada Perdida (1997), de David Lynch.

Estrela do necessário Exilados do Vulcão (2013), Clara Choveaux vive uma femme fatale que embaralha ainda mais a percepção de Elon em sua investigação. E ainda sobrou espaço nobre para o quadrinista e escritor Lourenço Mutarelli em cena: ele tem uma participação como o primeiro marido (ou coisa do tipo) da desaparecida. É na fotografia de Matheus Rocha que o longa impõe toda a sua potência, em enquadramentos de corpo a corpo com Rômulo, em andanças a esmo por labirintos de mistério.
Na China, Elon Não Acredita na Morte vai longas como Free Fire, de Ben Wheatley (Reino Unido), um thriller policial com Brie Larson, premiado em Toronto; São Jorge, de Marco Martins (Portugal), considerado uma espécie de Rocky Balboa luso; e Trespass Against Us, de Adam Smith (Reino Unido), um filme de ação com Michael Fassbender. Em sessões paralelas, fora de concurso, serão exibidos a aclamada comédia alemã Toni Erdmann, encarada como a mais forte concorrente ao Oscar de filme estrangeiro de 2017, e a produção Brasil-EUA Indignação, dirigida por James Schamus. Para a sua abertura, o Festival de Macau escalou um drama sobre os bastidores do mundo do balé, Polina, danser sa vie, de Valérie Müller e Angelin Preljocaj, com a atriz Juliette Binoche.