Na letra do axé: Oju Obá, a livraria da inclusão

Na letra do axé: Oju Obá, a livraria da inclusão

Rodrigo Fonseca

28 de fevereiro de 2021 | 11h18

Elaine Marcelina e Anna Gomes alimentam a arte de ler na Zona Oeste do RJ

RODRIGO FONSECA
Cabe um mundo inteiro na URL https://oju-oba.lojaintegrada.com.br/. Mundo esse repleto de diversidade, regido por Xangô, com os caminhos abertos para autoras e autores negras/os que hoje se consolidam como promessas da literatura, começando pela anfitriã, Elaine Marcelina. Nas canjicas que resplandecem Oxalá em sua risada redentora, brota a alegria de quem acaba de encampar um projeto literário precioso para o Rio de Janeiro, fora do eixo Zona Sul/Centro. Autora de pepitas como “As Coisas Simples da Vida”, ela fundou com a filha, Anna Gomes, a livraria Oju Obá, a fim de dar voz a escribas da prosa e da poesia, com destaque para quem está refletindo a inclusão racial e a certeza de que #vidasnegrasimportam – e muito. Enquanto muitos templos da leitura fecham, Anna e sua mãe driblaram a crise e meteram um golaço em dupla via: o empório do ler inaugurado por elas opera parte online (podendo ser acessada via ojuobalivraria@gmail.com ou no whatsapp 21983093648 ou 219702-70198), parte presencial. Onde fica? Rua Alfredo Pessoa, 85, apt. 201, Campo Grande, Rio de Janeiro. Tem muita coisa pra gente grandona refletir a existência e a essência, tipo “Notas de Escurecimento”, de Plínio Camillo, e pra criança gostar de letrinhas e letronas, como “Lia Lia”, de Cintia Barreto, com ilustrações de Camilo Martins. No papo a seguir, Elaine conta ao P de Pop o conceito de seu trabalho para formar novas e novos fãs dos verbos de ação em ligação com o prazer da página impressa.

Qual é o conceito da livraria?
É o negro na primeira pessoa, como protagonista, valorizando a ancestralidade das e dos que caminharam antes de mim, abrangendo as e os que caminham comigo e aquelas e aqueles que caminharão depois de mim. Neste primeiro momento a livraria oferecerá a venda de livros para todos os públicos, e também produtos artesanais.

O que quer dizer o nome da livraria?
Oju Obá é uma palavra Yorubá e significa “Os Olhos do Rei” ou “Os Olhos de Xangô”. Oju Obá faz parte do culto do Orixá Xangô.

O que significa abrir uma livraria na Zona Oeste do Rio de Janeiro hoje?
Abrir uma livraria na Zona Oeste do Rio de Janeiro hoje, em plena pandemia, significa um empreendimento criado por duas mulheres negras para dar visibilidade às escritoras e aos escritores negros que estão produzindo arte, cultura e educação. Significa sobretudo a valorização da cultura africana e afro-brasileira. Temos pouquíssimas livrarias na Zona Oeste e, nas poucas que temos, não encontramos os livros de autoras e autores negros. Por ser escritora, professora, ativista cultural, percebo a necessidade de valorização da cultura negra nesta região. A Livraria Oju Obá é, na verdade, um quilombo literário, que está nascendo na sala da minha casa, pois a livraria é virtual, mas, para os moradores do da Zona Oeste do Rio de Janeiro, criamos a metodologia de compra via whatsapp, para que os mesmos não tenham o custo do frete. É uma forma de levar cultura, facilitar o acesso à leitura de leitores desta região tão carente de tudo, onde o investimento do poder público ainda carece de maior atenção.

Laroiê!

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