Na dialética do desejo, Bigode (en)canta em versos e verbos de ação

Na dialética do desejo, Bigode (en)canta em versos e verbos de ação

Rodrigo Fonseca

12 Dezembro 2017 | 10h49

Rodrigo Fonseca
Excitar é o verbo de ação por trás dos planos filmados ao longo de 52 anos de cinema por Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, cujos curtas e longas-metragem seguem a estética da provocação… assim como seus poemas, que, sazonalmente, brotam não em salas escuras, mas em livrarias. Nesta quarta, dia 13/12, ele tira mais uma fornada quente do forno – a mais quente, talvez, de sua escrita em versos, dado o teor (homo)erótico de suas trovas, seus estribilhos, suas rimas, seus gemidos – em forma de antologia. De um requinte plástico singular em sua editoração, a começar pela capa do pintor Victor Arruda, o livro se chama Reis de Paus e sai pela Ed. Mariposa Cartonera (que trabalha com materiais reciclados). Quem quiser prestigiar o diretor de O Princípio do Prazer (1978), basta pintar amanhã no Gabinete de Leitura Guilherme Araújo, na Rua Redentor 157, em Ipanema, esquina da Garcia D’Avila. Lá serão lidos exercícios de desejo tais como:

Impedimento

coxas cabeludas

 nervos músculos

 suam pelas pernas

 na disputa

choque do macho

contra o macho

zebu e búfalo

no chão o menino padece

puro Édipo

escorre a gosma da boca

cuspe e cheiros

suas ceras e seu chorume

de virilha

mas gozam juntos

todos os Infantes

na travessia dos mares

desse campus

Ou

UFC

como um gladiador,

esfrega-se no contido ódio

de seu par

para afastar o desejo

abusa da máscara inconsútil e super atuada

daqui desta arena, milhões

de dólares vos contemplam

a marca do tênis,

o talco para os pés

O poeta e cineasta com Bete Mendes e Ney Latorraca (de chapéu) no set de “Introdução à Música do Sangue”

Segundo Bigode, “este livro muda o rumo da minha poesia, antes comprometida com influências da chamada Geração de 45, e a insere agora em uma necessária contemporaneidade. O processo foi iniciado em 2013, sem a intenção de ser um livro. Movido pela imagem de um jogador de futebol nu, no vestiário,  escrevi o primeiro poema. E depois vieram outros, com a temática do jogo , que é altamente erotizado. Inconscientemente ele ficou pronto numa hora de ameaças à liberdade de expressão e me pareceu oportuno lançá-lo”, diz o cineasta. “Que seu lançamento seja um ato político. Meu cinema é a continuidade da minha poesia escrita… assim como Pasolini não dissociava sua literatura de seus filmes , como expressões da mesma fonte”.

 

Este ano, Bigode lançou o drama à mineira Introdução à Música do Sangue, seu melhor filme em anos.