‘My Sunny Maad’ anima as telas do Egito

‘My Sunny Maad’ anima as telas do Egito

Rodrigo Fonseca

27 de novembro de 2021 | 17h22

Vestida de noiva, a tcheca Herra é devorada pelo olhar apaixonado de seu marido afegão em “My Sunny Maad”, laureado em Annecy com o Prêmio do Júri

RODRIGO FONSECA
Depois de uma arrancada à brasileira, com “Marinheiro das Montanhas”, de Karim Aïnouz, fora de suas sessões competitivas oficiais, o 43º Festival do Cairo, cujo júri é presidido pelo diretor sérvio Emir Kusturica, promete um domingo de animação, ainda que com o colorido político da realizadora tcheca Michaela Pavlátová. Graças ao abrasivo olhar da diretora de “Repete” (Urso de Ouro de curtas em 1995) sobre a opressão contra vozes femininas, o almoço egípcio neste 28 de novembro tende a ser indigesto, mas necessário, graças aos temperos de “My Sunny Maad”, também chamado “Ma Famille Afghane”. Em junho, o Festival de Annecy – a Cannes da indústria animada – deu à produção o Grande Prêmio do Júri, habilitando-a a uma carreira de sucesso comercial. É a vez de o Egito provar de suas polêmicas.
Indicada ao Oscar dos curtas-metragens em 1993 com o desenho “Reci, reci, reci…”, Michaela virou queridinha no Brasil, onde o festival Anima Mundi – paralisado há dois anos – fez dela uma celebridade. Na ativa desde 1989, a cineasta consagrou-se por sua mirada antissexista, de tintas provocativas – e eróticas. Mas o longa que vem lhe valendo aplausos vai por caminhos mais áridos. Caminhos por onde Herra, sua protagonista, aprende o que é submissão cultural. “Jamais usei o feminismo como um parâmetro de luta assumido, mas sempre quis falar da dificuldade que as mulheres encaram para assumir e viver seu desejo. E o querer aqui passa por interditos da cultura do Afeganistão, que eu tentei representar com respeito, mas atento a relatos reais”, disse Michaela ao Estadão, via zoom.
Baseado em “Freshta”, um romance da jornalista Petra Procházková, baseado em vivências da autora, “My Sunny Maad” acompanha a imersão de Herra, uma jovem tcheca, no Afeganistão após seu casamento com Nazir, um sujeito apaixonado por ela, mas devoto às tradições de seu país. Após o casamento, Herra vai morar com a família dele, assumindo a burca sobre suas madeixas louras, submetendo-se a regras que, pouco a pouco, vão minando sua felicidade e sua aposta na harmonia da vida a dois. As tentativas frustradas de Herra em engravidar dão ainda mais peso naquele relacionamento, pautado por códigos sexistas opressivos. Estima-se que o Festival de Cairo há de acolher reações não tão simpáticas ao filme, à força dos diálogos denuncistas escritos por Ivan Arsenjev e Yaël Giovanna Lévy e filmados por Michaela à luz da prosa de Petra.
“Discutir a tolerância é o princípio desta trama, que vai além do simbolismo político mais imediato, ao se embrenhar sobre tradições culturais que soam coercitivas a olhos ocidentais. Minha ideia foi retratar o dia a dia de um casamento, da forma mais universal possível, sob a perspectiva da esperança. A palavra é esperança, sempre”, disse Michaela, que começou a desenvolver o projeto em 2015.

Lotada, a entrada da sala Ópera, centro nervoso do Festival do Cairo, recebe plateias de todo o Egito e da Europa em peso

Nos momentos finais de Annecy, o Estadão publicou uma reportagem destacando o quão é requintada a direção de arte de “My Sunny Maad”, que ganha uma dimensão de melodrama quando Herra passa a cuidar de uma criança cujo crânio tem uma estrutura óssea mais alargada do que a média da cabeça das crianças. “Não é um filme de excesso gráfico, que torna tudo cartunístico. É uma conversação. É a vida. É um mundo hostil”, disse a diretora, à época.
Rever seu “My Sunny Maad”, no 43º Festival do Cairo, após a experiência de imersão em Karim e seu “Marinheiro das Montanhas” expande o entendimento da dimensão sensorial inerente à memória. Ovacionado em Cannes, elogiado na Mostra de São Paulo e já garantido para o Festival do Rio, o .doc de Aïnouz é um diário de viagem filmado na primeira ida de Karim à Argélia, país em que seu pai nasceu. Entre registros da viagem, filmagens caseiras, fotografias de família, arquivos históricos e trechos de super-8, o longa opera uma costura fina entre a história de amor dos pais do diretor, a Guerra de Independência Argelina, memórias de infância e os contrastes entre Kabylia (região montanhosa no norte da Argelia) e Fortaleza, cidade natal de Karim e de sua mãe, Iracema. Passado, presente e futuro se entrelaçam em uma singular narrativa, na qual o realizador de “Madame Satã” (2002) faz de Iracema uma coprotagonista de uma aventura geopolítica de reminiscências, apoiado em uma montagem organizada numa lógica plástica de colagem. Há cromos, vinhetas, instantâneos dos dias atuais e relatos, sendo muitos deles guiados pela lembrança da revolução argelina contra o jugo dos franceses. É um documentário poético de tônus revolucionário, não apenas em sua maneira de abordar o tema da resignação quanto em sua maneira de celebrar afetividades.
Há 14 longas estrangeiros em competição no Cairo, a serem julgados por Kusturica. A Itália foi o primeiro país a se destacar no certame, com “A Chiara”, no qual Jonas Carpigiano (realizador de “Ciganos da Ciambra”) acompanhe a explosão hormonal de uma adolescente da Calábria (o papel é defendido por Swamy Rotolo) que descobre os laços entre seu pai e o submundo do crime organizado na pátria da Máfia.

Maratona egípcia segue até o dia 5 de dezembro

Ainda no domingo, o Cairo confere “El Rey De Todo El Mundo”, de Carlos Saura, o artesão cinemático maior da Espanha nos anos 1970. Depois de uma passagem por San Sebastián com o curta “Rosa Rosae”, o mítico realizador de “Cria Corvos” (1976) regressa aos longas com um musical de elementos documentais sobre a conexão cultural entre o México e os espanhóis que o colonizaram, sem ignorar violências históricas do imperialismo. Ana de la Reguera e Manuel Garcia-Rulfo são bailarinos que contam uma história de casal atropelada por opressões paternas e pela máfia local.
Tem maratona de filmes no Cairo até 5 de dezembro.

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