Musical de Brian De Palma assombra o IMS

Musical de Brian De Palma assombra o IMS

Rodrigo Fonseca

07 de maio de 2022 | 10h40

William Finley é o espectro vingador de “O Fantasma do Paraíso”, em cartaz neste sábado, na filial paulista do Instituto Moreira Salles (IMS)

RODRIGO FONSECA
Com Kleber Mendonça Filho, o realizador de “O Som Ao Redor” (2012), no timão de seu cinema, o Instituto Moreira Salles(IMS) tem renovado olhares desde a reabertura de suas salas de exibição, no Rio e em São Paulo, projetando filmes imperdíveis (como o inflamável “Medida Provisória”; “Pequena Mamãe”; “Fortaleza Hotel”; o ganhador da Palma de Ouro, “Titane”) e realizando mostras temáticas com um menu de salivar, como é o caso de “Máscaras”, atualmente em sua grade. Em seu cardápio carioca, o evento exibe, neste sábado, “A Lira do Delírio”, de Walter Lima Jr., às 16h, e “O Homem Elefante”, de David Lynch, às 18h. Já a atração do IMS paulistano é uma iguaria de Brian Russell De Palma: “O Fantasma do Paraíso” (“Phantom of the Paradise”, 1974). A sessão será às seis da tarde deste 7 de maio. E, junto do musical transgressor do realizador de “Missão: Marte” (2000) rola “O Colírio do Corman Me Deixou Doido Demais” (2020), de Ivan Cardoso.
Mistura de Goethe com o “Fantasma da Ópera” da Broadway, o espetáculo canoro pilotado por De Palma foi a contribuição plástica mais pop desse diretor ao cinemanovismo americano fora de sua escalada pelo terror e pelo suspense. Os musicais já haviam sido abarcados na onda revolucionária da Nova Hollywood, por meio do “Cabaret” de Bob Fosse, em 1972. Mas nem mesmo o fino da fossa de Fosse podia ombrear o camp feito por De Palma, amarelado como o Giallo italiano de Dario Argento. O que Brian propõe é uma desconstrução semântica de um filão, buscando elementos horroríficos para repaginar uma cartilha que tem no canto e na dança seus pilares narrativos.

Nascido em 11 de setembro de 1940, em Newark, Nova Jersey, e longe das telas desde 2019, quando lançou o thriller “Dominó”, De Palma era um estudante de Física que se apaixonou pelo cinema e iniciou seus trabalhos na telona com exercícios semióticos que lembram Godard. Sua estreia como realizador ocorreu em 1960, ao rodar o curta-metragem “Icarus”. Filho de um cirurgião, a quem acompanhou em muitas operações, De Palma rodou 29 longas nas últimas seis décadas, sempre acusado de copiar mestres do écrã. Controverso por excelência, classificado como misógino e voyeurista, De Palma foi, durante décadas, classificado como um pastichador de Alfred Hitchcock, até que uma retrospectiva realizada em 2002 no Centre Pompidou recontextualizou sua filmografia, buscando uma identidade autoral própria para além de suas referências. Na ocasião do evento, que vinha de carona na estreia mundial de “Femme Fatale” (2002), só um filme seu não teve que se desculpar da acusação de ser cópia, xerox ou mesmo um pastiche de qualquer marco da História Audiovisual: “O Fantasma do Paraíso”, cujo aroma de originalidade e inquietação se dá ja na sequência de abertura, quando um suarento dublê de Paul Anka canta “Goodbye, Eddie”, nos cítricos acordes da banda Juicy Fruits. Ao rever seu experimento musical, o cineasta declarou: “Hitchcock é o maior mestre da arte contar histórias a partir de imagens e se eu uso alguma referência de sua gramática esses elementos complexificam o que eu conto. Mas acho que hoje, após quase 50 anos como diretor, eu já tenho meus próprios métodos configurando um estilo”.

“Medusa” ganhou o troféu Redentor de Melhor Filme em 2021

Aos 81 anos, De Palma rodou “O Fantasma do Paraíso” em locações na Califórnia e no Texas (no Majestic Theatre, improvisado como estúdio) ao custo de US$ 1,3 milhões. A produção rendeu ao cineasta o Grande Prêmio no Festival de Cinema Fantástico de Arvoriaz, na França. E rolou uma indicação ao Oscar de melhor trilha sonora.
William Franklin Finley, astro que interpreta Winslow e um espectral assassino em “O Fantasma do Paraíso”, trabalhou nove vezes com De Palma, numa parceria iniciada em 1962 com o curta “Woton’s wake”. Compositor e músico, Paul Williams, escolhido por De Palma para interpretar Swan, participou como ator de cerca de 80 produções, seja para o cinema ou para a TV, incluindo o cultuado “Caçada humana” (1966), de Arthur Penn. Indicado ao Oscar quatro vezes e premiado com a estatueta por “Nasce uma estrela”, de 1977, Williams encarna o Mefisto do Inferno fonográfico que De Palma criou.
No IMS do Rio, a sessão do “Fantasma do Paraíso” será no dia 28, às 16h.
Falando de IMS, lá nas instalações paulistanas da instituição, neste sábado, vai ser exibido, às 20h15, o longa vencedor da Première Brasil do Festival do Rio de 2021: “Medusa”, de Anita Rocha da Silveira. Foi o único longa brasileiro de ficção a ser projetado em Cannes no ano passado, na Quinzena dos Realizadores. A fotografia de João Atala tinge o Rio com um colorido inusitado nessa investigação sobre um mito da potência feminina em meio a um rito fundamentalista evangélico que pune mulheres que exercitam o desejo fora dos desígnios de uma moral religiosa. Marilia Moraes assina a montagem. No Rio, o site do IMS indica que o longa de Anita pssa no domingo do Dia das Mães, às 18h.

p.s.: Marcia do Valle está impagável (e luminosa) no espetáculo “Uma Peça Para Fellini”, que rola às sextas e sábados no saguão do Estação Net Rio, em Botafogo. No texto de Joaquim Vicente, ela vive uma faxineira que sonha com Federico Fellini (1920–1993). É uma atuação que transborda humor, num trabalho de expressão corporal quase cartunesco, que fazem dela uma HQ viva. E saem frases perolares de sua boca, como “O único verdadeiro realista é o visionário” e “Por que o amor tem que doer?”.

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