Música pro terceiro campo de Ismael Caneppele

Música pro terceiro campo de Ismael Caneppele

Rodrigo Fonseca

27 de julho de 2021 | 08h08

Julia Lemmertz tem uma atuação comovente numa narrativa que mescla ficções e realidade

Rodrigo Fonseca
Custou imenso… foram quatro anos… mas, enfim, o belo “Música Para Quando as Luzes se Apagam” dá o ar de sua graça no circuito exibidor, com sessões no Espaço Itaú. É uma intentona poética vinda das bandas do Sul, cerzida em linhas coloridas, finas, com cheiro de flor por Ismael Caneppele, naquele hiato inominável entre o documentário e a ficção. É um estudo sobre o indecifrável. E aquilo que não se decifra nos devora. E é essa a sensação estética que o filme causa: nhac! Um “nhac!” faminto sobretudo nas convicções narrativas mais domesticadas da plateia nacional. Há, em cena, um barravento de Walt Whitman (1819 -1892), poeta americano desafiador de tabus na lírica e no sexo. Barravento esse que se nota na maneira como o diretor (que, à época de sua feitura, era um estreante no ofício, vindo da prosa e do roteiro) flagra a autorrepresentação… ou até a autoficção. Tem um fiapo de trama por sob a colcha sensorial de amarelos, azuis, sépias, marrons e borrões de luz estourada costurada pela fotografia (febril) de Pedro Gossler. Percebe-se um garoto num corpo de menina, em uma crisálida masculina. Na narrativa, Emelyn Fischer está virando Bernardo. E o querer que sente por uma outra mocinha torna mais forte sua inquietude. Mas isso é o que se monta entre cacos e pétalas, de uma opacidade documental, despejadas sobre uma translúcida camada ficcional. Parece haver um registro ali, de múltiplas texturas, de vídeo e filme, comungando-se na curiosidade (e na doação) de uma adulta, uma suposta artista, que é chamada apenas de Mulher e confiada a uma Julia Lemmertz em estado de ascese. A tal Mulher veio dar meios para Emelyn desenhar sua própria história, seja ela fábula ou fato. E essa presença se processa no cinema com potência similar àquela com que Jessica Chastain gravitava sobre “A Árvore da Vida” (2011), de Terrence Malick. Aliás, parece haver muito do transcendentalismo malickiano, que é menos Filosofia e mais profissão de amor pela Natureza. Daí Whitman, que em suas Folhas de Relva, dizia:
“Você deve ser aquele a quem procuro, ou aquela a quem procuro, (isso me vem, como em um sonho,)
Vivi com certeza uma vida alegre com você em algum lugar,
Tudo é relembrado neste relance, fluído, afeiçoado, casto, maduro,
Você cresceu comigo, foi um menino comigo, ou uma menina comigo,
Eu comi com você e dormi com você – seu corpo se tornou não apenas seu, nem deixou o meu corpo somente meu”

Quatro anos atrás, o longa fez sua estreia no Festival de Brasília, que viu nascer um novo cineasta, e dos corajosos. Nasceu também ali um maduro fruto da colheita do chamado Cinema de Terceiro Campo, conceito esboçado na antropologia da imagem de David Bordwell e, depois, retratalhado como dogma nas pesquisas do português João Maria Mendes e do brasileiro José Carvalho. Terceiro Campo é a terminologia – inaugurada a partir de experimentos de Peter Greenaway dos anos 1990 – usada para qualificar narrativas que esnobam jornadas (não importa se o herói vai do ponto A ao B, até porque o conceito de herói ali não se aplica) e não são fiéis a discursos ou ideologias. O que vale em filmes como o de Caneppele é sensorialidade, a experiência sinestésica, calçando-se em personagens de identidades “fluídas” (ou seja, em mutação), como a de Emelyn e mesmo a da Mulher, esculpida por La Lemmertz em um desempenho transcendente. Há longas de Kim Ki-Duk (“Casa Vazia”), de Lee Chang-Dong (“Burning”) e (sobretudo) de Leos Carax (o sacrossanto “Holy Motors”) nessa linhagem do terceirocampismo. Há um quê disso na “Praia do Futuro” (2014), de Karim Aïnouz, e agora na sonata à gaúcha de “Música Para Quando as Luzes Se Apagam”, que leva plateias ao debate e, em alguns casos, ao êxtase.

p.s.: A estreia de “Annette”, do já citado Leos Carax, em circuito europeu amplia o prestígio da banda Sparks, dos irmãos Ron e Russell Mael.

p.s.2: “Viúva Negra” é um filamço, mas não se enquadra à perfeição dos códigos do cinema de super-herói, tal qual a Marvel estruturou, de 2008 para cá. Ele é muito mais um filme de ação do que uma aventura de supers. Por isso, não faz sentido algum querer dele uma bilheteria como aquelas que os Vingadores fazem. A natureza de gênero é outra.

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