‘Música é Passado’ é um livro de futuro

‘Música é Passado’ é um livro de futuro

Rodrigo Fonseca

30 de março de 2021 | 12h06

Mario Marques faz um balanço da indústria fonográfica entre os anos 1990 e 2009 em seu novo livro, reunindo textos do “Jornal do Brasil”, de “O Globo” e do “Laboratório Pop”

RODRIGO FONSECA
Leitura mais saborosa no terreiro da não ficção entre os livros que caíram no radar do P de Pop em 2021, até agora, “Música É Passado” valeria só pela aula de estilo e de pontuação que é o fraseado de Mario Marques, um dos jornalistas que, nas franjas da ousadia, mais e melhor formaram a geração deste que vos tecla. Falando de bandas como Prefab Sprout ou Los Hermanos, ele sempre desafiou a caretice e a bandeira do 68ismo que dirige nossa arte. Mas há algo além de ortografia e invenção gramatical na publicação editada pela Prefab, com capa assinada pelo animador e cartunista Tiago Rodrigues e diagramação feita pelo Studio Roma Design, com o reforço de Romildo Castro Gomes e Adilson Nunes. Esse algo + é o timbre ferino com que Marques disseca os desgovernos da canção, da percussão, da lírica e do faro para negócios na indústria fonográfica. A maneira como ele tritura o axé caça-níqueis e atomiza a ignorância de um mercado que mantém Nei Lisboa longe dos holofotes abre para o leitor uma porta para a iluminação na relação com os meandros da criação musical. Ele ainda acredita nela, mas sabe ser seletivo. Hoje dedicado ao marketing político, do qual é um bamba, o crítico egresso de Nova Iguaçu, formado pela amplitude modulada da Mundial AM em seu radinho de pilha, fala ao Estadão sobre os turbilhões sonoros dos anos 1990 e 2000, sem deixar de avaliar o presente.

Seu texto sobre o É o Tchan é de uma deliciosa ferocidade que parece ter sumido da crítica musical. Mas além do testemunhal da época, o que houve de precioso do Axé dos anos 1990?
Mario Marques:
Eu tinha uma forma meio agressiva na abordagem dos produtos. Meus colegas, mais elegantes, tachavam discos ruins de irregulares. Eu já classificava de “medíocres”, “horrorosos”, “patéticos”. O axé era a música de baixos teores da época. Eu passava mal do estômago quando tocava. A Ivete Sangalo foi o que sobrou disso aí.
Como você avalia o impacto da pandemia sobre a cultura musical brasileira hoje, tomando por base os bailinhos online e as lives? Seu livro fala do futuro da música de forma alarmista. Esse futuro te assusta?
Mario Marques:
A situação dos músicos é dramática. Tem muito músico quase passando fome. Não consigo enxergar show pra multidões esse ano, mesmo com todo mundo vacinado. A classe artística, de um modo geral, está apática. O dinheiro sumiu. E no Brasil está bem grave. Muita gente vai ficar pelo caminho e buscar outra profissão.
O Seu Jorge da sua crítica de 2001, pós Farofa Carioca, fez jus à promessa que era? Nessa mescla do pop, do samba, da balada, como ele faz, algo mais te soa potente na música nacional hoje?
Mario Marques:
O Seu Jorge fez seu caminho sozinho. Ele desde sempre sabia o que queria. Seu talento foi administrado por ele ou por sua mulher. Hoje ídolo em várias partes do mundo, tem agentes, mas nunca empresário. Seu Jorge sobreviveu em meio a um mundo maledicente. Ele teve que se equilibrar para não deixar que o puxassem para baixo. O jornalismo musical também é assim. O jornalista cultural não tem gratidão por nada, se sente artista sendo peão. Eu vou lançar na semana que vem o livreto “Como identificar um mau-caráter”. É dedicado a pessoas que são personagens do nosso dia a dia, rasteiros, sorrateiros e medíocres. Não respiram. Absorvem sua respiração. E depois desligam sua máquina sem você perceber.
O texto de julho de 1999 para o Globo, sobre o Los Hermanos, aponta uma trajetória poética de vigor. Mas de que maneira, hoje, essa trilha deles, aberta há duas décadas, “hermanou”? O que veio deles e o que ficou neles?
Mario Marques:
Los Hermanos é o último fenômeno de rock brasileiro messiânico. Que atraía multidões. Esse papel era da Legião nos anos 80 e parte dos 90. Mas os Los Hermanos, tal qual o Prefab Sprout, tem só um gênio: Marcelo Camelo.

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