Murilo Salles ganha (uma merecida) retrospectiva na Caixa Cultural

Murilo Salles ganha (uma merecida) retrospectiva na Caixa Cultural

Rodrigo Fonseca

11 Julho 2016 | 02h05

O diretor carioca ganha mostra na Caixa Cultural -RJ

O diretor carioca ganha mostra na Caixa Cultural

RODRIGO FONSECA

Há uma indústria de mostras cinematográficas em plena atividade hoje nos centros culturais brasileiros e, entre as ofertas do ano deste terreno das retrospectivas, há uma atração obrigatória chegando ao Rio de Janeiro, nas telas da Caixa Cultural: O Cinema de Murilo Salles – O Brasil em Cada Plano. É uma chance rara para as novas (e, sobretudo, as novíssimas) gerações conferirem a carreira do mais suicida (em termos da coragem de correr riscos em prol da imagem) de todos os diretores brasileiros que estrearam em longa metragem na década de 1980. Com largada agendada para o dia 19 de julho, estendendo-se até o dia 31 deste mês, o evento, organizado sob a curadoria de Mariana Bezerra, reservou para a sua estreia o curta-metragem Sebastião Prata ou, bem dizendo, Grande Otelo (1971), um marco do formato. Ficou para o fim o longa que fez Murilo trafegar com pompa do posto de fotógrafo (aliás, um dos maiores da história do nosso cinema) para o de realizador: Nunca Fomos Tão Felizes, laureado com o troféu Ernest Artaria no Festival de Locarno, na Suíça, em 1984.

“Nunca Fomos Tão Felizes” (1984)

13 Nunca Fomos Tão Felizes

Para o dia 23 de julho foi programado o desconjuntante O Fim e os Meios (2014). É um longa que merece um capítulo à parte nos estudos do espelhamento entre o ficcional e o real no Brasil – sobretudo neste Brasil de trocas presidenciais e de crise.  É raro a gente ver sair das fornalhas dos realizadores nativos um thriller político: filão lapidado pelos italianos Francesco Rosi e Elio Petri e por um franco-grego, o deus Costa-Gavras (de Z), entre os anos 1960 e 70, para fazer da denúncia uma forma de poética. Murilo o faz sem incorrer em desesperanças ou desesperos, preocupado com a potência visual.

O fim e os Meios

Embora seja – antes de tudo – um suspense eletrizante em sua caracterização para a conspiração envolvendo um marketeiro, um aspone do Senado e uma jornalista, esta produção se ocupa de expressar contradições morais e engasgos existenciais fazendo, à frente do texto, uma investigação imagética do espaço e do tempo. Há um Rio de Janeiro que só se vê nas nossas desatenções. E há uma Brasília invisível aos jornais, vista da mesa de jantar, de lençóis perfumados de sexo e de varandas onde se observa o nada. Uma caixa d’água na Zona Sul carioca ou uma floresta nos soam como um jardim de signos que se bifurcam frente à câmera indócil de Murilo.

“O Fim e os Meios”, de 2014

Uma personagem-guia, Cris, vivida por Cíntia Rosa, abre o filme grávida de um publicitário, Paulo Henrique (Pedro Brício, de uma precisão cirúrgica). Paulo acaba de ser chamado para dirigir a publicidade de um senador (Emiliano Queiroz). Sua adesão ao convite de trabalho se dá pelo assédio do dinheiro e pela chance de começar uma vida com Cris e a filha que ambos geraram. Mas, uma vez no coração da República, o casal vai se perdendo numa ciranda que, a princípio, é girada pelas eleições e, depois, passa a ser movida pelo instinto carnal. Cris sabe por que vai para Brasília: quer casar e ter uma vida segura com seu bebê, oferecendo a ela um bom pai. Mas, filme adentro, essa certeza vai se transsubstanciando à sombra de Hugo, assessor do senador, interpretado com uma maestria inquestionável por Marco Ricca.

 Arrebatador em sua atuação, Ricca domina a telona mais uma vez ao afastar O Fim e os Meios da moral e cívica, conduzindo-o por instâncias pantanosas dos porões do Planalto. Seu Hugo é a atualização pós-moderna de uma modalidade do coronelismo inerente à nossa Sociologia. Ele é o capataz cordial dos coronéis do Nordeste, que assopra antes de bater, que seduz antes de devorar. É o predador do Brasil que se desenha Cerrado adentro. Cris e ele vão estabelecer uma relação que extrapola diferenças de classe e fetiches: é a sedução da força política. E, a partir dela, Murilo promove uma resenha sobre o degredo da nossa ética, expressa com nervos à flor da pele.

https://www.youtube.com/watch?v=cyBx0QfawdQ

Laureado com o prêmio de melhor roteiro no Festival do Rio de 2014, O Fim e os Meios tem um charme a mais na direção de arte de Pedro Paulo de Souza, que, com discrição, traça o desenho da opulência dos ricos e da indiferença blasé da classe média. Para Cíntia Rosa, é um filme de virada, capaz de fazer dela a nova Zezé Motta.

“Nome Próprio”, de 2007

Na mostra da Caixa Cultural, no dia 24, foi agendado outro filmaço de Murilo no qual ele se sintonizou com angústias existenciais da contemporaneidade: Nome Próprio, de 2007. Kikito de melhor filme em Gramado, o longa traz Leandra Leal no papel de uma blogueira às voltas com a voracidade da palavra e a voracidade do desejo.

p.s.: Que decepção é A Era do Gelo: O Big Bang, a quinta parte da franquia criada por Chris Wedge e Carlos Saldanha em 2002, que perde sobremaneira sem a presença do carioca de Marechal Hermes na direção. Com a premissa de narrar os efeitos que a queda de meteoritos sobre a Terra pode ter sobre a realidade do tigre-dentes-de-sabre Diego, do mamute Manny e da preguiça Sid, o longa-metragem foi dirigido por Mike Thurmeier e Galen T. Chu, que não escapam das armadilhas de uma dramaturgia formulaica, desgatada pela repetição.

p.s.2: Está previsto para esta quinta-feira o (tardio) lançamento do thriller A Conexão Francesa (La French), uma produção de 2014, dirigida por Cedric Jimenez, que injeta litros de adrenalina nas veias de qualquer circuito por onde passa. Estrelada por Jean Dujardin (de O Artista), este policial febril oferece o ponto de vista europeu para os eventos que inspiraram o oscarizado Operação França (1971), de William Friedkin.