Muralha alguma contém Zhang Yimou

Muralha alguma contém Zhang Yimou

Rodrigo Fonseca

06 de abril de 2020 | 10h47

Zhang Yimou dirige Matt Damon no set de “A Grande Muralha”, que a “Tela Quente” exibe nesta segunda, às 23h10

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Pilar audiovisual da China nas telas, Zhang Yimou, diretor responsável pelo filmaço desta “Tela Quente” – “A Grande Muralha” – enfrenta, há quase um ano e meio, uma peleja silenciosa da qual pouco – ou nada – se fala. Em 2019, no auge do Festival de Berlim, um dos títulos que foram ao evento alemão com fome de Ursos, foi retirado misteriosamente da competição, sob ordens do governo chinês, sendo que Yimou era seu realizador. “One Second” é o título deste longa-metragem ATÉ HOJE escondido do artesão autoral responsável por pérolas como “A História de Qiu Ju” (Leão de Ouro de 1992). A dramédia que ele ainda não lançou foi extirpado da disputa berlinense às pressas, sem explicação prévia. A justificativa dada: a produção ainda não estava 100% finalizada. O rumor generalizado: a alta cúpula do Poder da China teria reprovado a dimensão política da narrativa de Yimou, censurando-a para cortes. A trama tem como foco a amizade entre um cinéfilo a uma jovem que vive sem teto, em uma província. Falava-se que seria o melhor trabalho recente do cineasta, que botou o planeta pra chorar, em 1988, com “Sorgo Vermelho”, e abalou nervos, em 2002, com “Herói”. Em sua passagem pelo Festival de Pingyao (PYIFF), de Jia Zhangke, realizado em outubro, Yimou falou de um outro projeto, já em finalização. Esse longa em fase de conclusão é um thriller de espionagem chamado “Impasse”. Zhag Yi (de “Flores do Oriente”) lidera o elenco. Na ocasião, o cineasta comentou que espera ver “One Second” em circuito, apesar dos percalços por que passou. No dia 2 de abril, o realizador de “Lanternas Vermelhas” (1991) completou 70 anos, em plena atividade, mesmo encarando narizes torcidos aqui e acolá. Mas a projeção de seu febril “The Great Wall” (2016) na Globo hoje, às 23h10, em plena 40ena, é uma forma de a TV aberta brasileira dar uma visibilidade a mais à sua artesania singular.
É difícil aceitar o fato de o Cinema valorizar tão pouco a obra de Yimou mesmo sabendo de toda a sua contribuição seja em termos de cifras altas, seja em termos estéticos, afinal foi ele, lá atrás, em 1987, quem apresentou o audiovisual chinês moderno ao mundo, quando seu “Sorgo Vermelho” ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim. Foi a partir dele – e de Chen Kaige, com “Adeus, Minha Concubina”, de 1993 – que uma China de implosões e de geopolíticas outras que não a da Revolução Cultural de Mao Tse-Tung ganhou as telas do planeta. Ali, abriu-se um terreno que para uma esquadra asiática de diferentes latitudes daquele continente pudesse ganhar circuito global. Se não bastassem filmes de tessitura dramática sofisticada como “Tempo de Viver” (Grande Prêmio do Júri em Cannes, em 1994) e “Nenhum a Menos” (Leão de Ouro em Veneza, em 1999), ele ainda surpreendeu exibidores com as bilheterias milionárias de “Herói” (2002) e da obra-prima “O Clã das Adagas Voadoras” (2004). Porém, a fama de pelego, de servidor do lado mais reacionário do Estado, ampliado quando dirigiu a festa de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, tolheu qualquer boca a boca fervoroso em prol de sua arte. O desejo de filmar com astros de Hollywood, como o galês Christian Bale, em “Flores do Oriente” (2011), tornou o diretor mais polêmico na visão dos puristas, que irão ao desespero ao ver o que ele faz em “A Grande Muralha”, uma aventura com “A”. Gritarias correram à solta na Ásia quando ele escalou os americanos Matt Damon e Willem Dafoe para liderarem um elenco que valoriza uma estrela oriental de talento GG: Jing Tian. Num formato à la “Mad Max: Estrada da Fúria” (no qual Charlize Theron brilha mais do que Tom Hardy), é ela a heroína nos moldes clássicos deste épico estimado em US$ 150 milhões (algumas fontes dão mais) que, segundo o site Box Office Mojo, faturou US$ 335 milhões pelo mundo afora.

Dublada no Brasil por Regina Maria Maia, Jing é a comandante Lin Mae, a líder das tropas responsáveis por guardar a Grande Muralha da invasão de criaturas escamosas. Escamas, guelras e garras se espalham pela telona neste espetáculo visual da mais pura transcendência que mistura a tradição asiática do gênero “filme de monstro” à cartilha do épico. Nele, vemos China que se estima ser do fim dos anos 1200, quando guerreiros europeus visitam a região à cata de pólvora. Os mercenários William (Damon, ótimo) e Tovar (o chileno Pedro Pascal, elemento cômico infalível) fazem parte da turba de invasores que buscam o “pó negro” dos chineses. Mas a passagem deles se dá num momento de conflito das tropas imperiais contra os Taoties, raça de répteis (ou algo assim) vinda de outro mundo que deseja se reproduzir pela Terra, comendo tudo o que se move. É mais uma metáfora para o canibalismo, tema da onda na ficção, vide “The Walking Dead” e derivados zumbis – não por acaso, um dos roteiristas é Max Brooks, do livro “Guerra Mundial Z”, filmado em 2013, com Brad Pitt. E também tem um quê de “Alien”.

Fora o ritmo e o virtuosismo das sequências de luta, “A Grande Muralha” surpreende por seu descaso com o realismo: não há um esforço de se enquadrar efeitos especiais ao Real, de modo a imprimir mais verossimilhança; há, sim, uma saturação das cores e da velocidade dos ilusionismos, de modo a acentuar o que há de mágico. É uma lógica similar àquela utilizada por ele em “A Maldição da Flor Dourada” (2006). Cada efeito parece uma animação, em especial os balões usados como transporte pelos chineses, no comando de Lin Mae, que lembra uma heroína de mangá, galvanizando o apreço do cineasta por guerreiras femininas impávidas, mas… humanas. E a presença do grande ator Andy Lau como um estrategista de guerra é um mimo à parte de um filme que parece uma mistura de “O Senhor dos Anéis” com “A Invenção Hugo Cabret”, sendo meio epopeia de formação nacional, meio fábula escapista. Podem-se apontar, contudo, deficiências berrantes, como o esforço de se despolitizar os fatos em torno da criação da murada, atribuindo sua edificação apenas a folclores. E há certas inconsistências de roteiro, sobretudo na figura do mercenário vivido por Dafoe, cuja presença é desvalorizada e cujo personagem não para de pé. Mas nada disso dilui o viço do projeto, que expõe toda a ouriversaria deste mestre da direção que é Zhang Yimou. Na versão brasileira, Marcus Jardym dubla Damon e o ótimo Philippe Maia empresta a voz a Pascal.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: