‘Mundo Novo’, filme à la Rohmer e Milton Santos

‘Mundo Novo’, filme à la Rohmer e Milton Santos

Rodrigo Fonseca

17 de dezembro de 2021 | 13h02

Tati Villela é um dos achados entre as estrelas que disputam o aplauso e troféu Redentor do Festival do Rio

RODRIGO FONSECA
Algo no ar, derivado de um zeitgeist cinéfilo (mas também sociológico), sugere que um filme miúdo em termos de produção, mas pantagruélico em ambição estética (e na assertividade ao olhar para os desarranjos do país), possa embaralhar resultados na disputa de uma Première Brasil apinhada de pesos pesados como “Uma Baía”, “Medida Provisória”, “A Viagem de Pedro”, “Medusa” e “O Pai da Rita”. Pelo burburinho que anda cercando “Mundo Novo”, de Alvaro Campos – e isso vem desde sua passagem pela Mostra de São Paulo, em outubro – suspeita-se de que um vulcão dramatúrgico vá entrar em erupção no 23º Festival do Rio nesta sexta. Disseram pelos corredores da Mostra que Alvaro (realizador de “Altas Expectativas”, com Pedro Antônio Paes, e do nevrálgico .doc “Tá Rindo De Quê? – Humor e Ditadura”) fez, em seu mais recente trabalho, “uma mistura de Éric Rohmer com Milton Santos”, num lúdico exercício de algo classificável como “geopolítica amorosa”. Basta meia hora de sessão para notar que há um roteiro inusitado no longa-metragem a ser apresentado pelo diretor esta noite, às 18h, no Cinépolis Lagoon, na reta final do festival. Uma escrita inusitada, capaz de driblar fórmulas, capaz de capturar mais modos de vivências (estados) e menos arquétipos. Some ao coletivo de acertos do filme a esmerilhada fotografia de Rita Albano e o Coletivo DAFBA, ao tingir o Rio com um preto & branco plúmbeo, naquela cor de chumbo que nem a visão raio-X do Homem de Aço consegue devassar, deixando as cicatrizes da Cidade Maravilha mais afloradas.
A trama: no aniversário de um ano da pandemia, a advogada Conceição, ou Cons (Tati Villela, um achado), e o grafiteiro Presto (Nino Batista), um casal inter-racial, vão até a casa de Charles (Kadu Garcia), irmão de Presto, para pedir sua assinatura como fiador na compra financiada do apartamento no Leblon que ancora o sonho de futuro do casal. Mas o pedido se mostra bem mais complexo do que conseguir uma simples assinatura. Caso vá ao cinema nesta sexta ver o que Alvaro propõe, preste bem atenção na figura de Carlos, papel que prova o quanto Paulo Giannini deveria ser mais valorizado no cinema brasileiro. Preste atenção ainda à forma como seu realizador contextualiza a pandemia – e a destruição que ela gerou – de modo tão criativo como fez o romeno Radu Jude em seu “Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental”, comédia laureada com o Urso de Ouro na Berlinale. “Mundo Novo” parece uma tradução de “Cidade Partida”, de Zuenir Ventura, mas se torna, pouco a pouco, a autopsia em corpo vivo do Mundo Antigo que a lógica de castas de uma high society feudal como o Rio de Janeiro mumificou. É um filme de contágio.

Que doença(s) extrapolam a covid-19 no arranjo social que você busca retratar?
Alvaro Campos:
A falta de generosidade da cidade em assumir os preconceitos que dão nome e forma à sua geografia. E a insensatez de não admitir que, com ou sem Covid, estamos num Novo Mundo que chegou – e que precisa rearranjar a cidade à sua feição.
Qual é a dimensão de solidão que pauta essa história de amores e grupos? Que solidão norteia o Leblon? Que solidão serve de bússola ao Vidigal?
Alvaro Campos:
É a solidão daqueles que se isolam cada vez mais porque não admitem que aqueles que lhe eram pretensamente diferentes hoje são igualíssimos na ocupação dos mesmos espaços. Um rápido google diz que o Vidigal é um bairro/bairro-favela. Por que o Vidigal não é simplesmente parte do Leblon? Não sou urbanista, mas a crueldade da retórica que separa comunidade e asfalto é o que define essa cidade – e a mantém como é.
Parece haver um interesse autoral em sua obra numa noção que a sociologia chama de “vulnerabilidade”, ou seja, em corpos ou vivências que são vulnerabilizados por exclusões sociais, de cor ou de orientação sexual… E ainda de estatura? O que seria essa estrutura de vulnerabilidade? O que te atrai nela?
Alvaro Campos:
Cinema é uma das minhas maiores companhias. É a minha coordenada no mundo. É justo que tente fazer dele também a coordenada de quem não se vê na tela. De quem se acha mais sozinho do que de fato está. De quem tem histórias diferentes para contar e formas diferentes de sentir pra partilhar com todos nós. E nos reunir, de preferência, na sala de cinema. Juntos.
Qual é o papel trágico ou épico de uma história de amor no microcosmo de contradições do Rio de Janeiro?
Alvaro Campos:
Bel Hooks dizia que amar é um ato político. Como tudo na vida, amar exige fé. Amores inter-raciais numa cidade partida são de fato possíveis? As pessoas saem do filme se perguntando isso, as variáveis são enormes de acordo com a experiência individual de cada espectador. E se elas veem no filme um épico ou uma tragédia, depende do que cada um entende por amor – e até que ponto vale a pena persistir por ele.

Simone Spoladore flutua na Paixão segundo Marcela Lordy extraído de Clarice Lispector em “O Livro dos Prazeres”

Falando de roteiros desta Première Brasil, que o júri não esqueça de “O Livro dos Prazeres”, o momento Chantal Akerman da diretora Marcela Lordy, que promove uma sofisticada operação de “deslizamento” em seu corpo a corpo com a prosa homônima de Clarice Lispector (1920-1977). Chega a ser uma heresia aplicar o “redutor” conceito de “adaptação” para definir o quão sofisticado é o diálogo estabelecido entre o script de Josefina Trotta e Lordy e o livro “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”, lançado por Clarice em 1969. Em ambos, o romance e o filme, conhecemos Loreley – professora chamada entre seus pares só de Lóri – pelo vácuo em seu peito, que a leva a se desgarrar de qualquer possível relação amorosa duradoura. Na prosódia lispectoriana, caímos em seu buraco a partir de uma vastidão de pensamentos, numa estrutura existencialista vista de dentro de sua cabeça, mas ali bem perto de seu coração selvagem. Já o longa prefere morder a maçã no escuro e trabalhar seu desejo numa tradução exteriorizada, preferindo o estar ao ser. É mais vida e menos ontologia, assumindo o reator nuclear Simone Spoladore como sua Jeanne Dielman (a figura central da filmografia chantaliana) sob as vestes de Lóri. Josefina e Marcela transpõem a Lóri das páginas para as telas não de forma a adaptar as angústias do livro, tal e qual, como se fosse uma… “adaptação”. O livro é um engrama (um traço residual) a partir do qual o longa (na belíssima fotografia de Mauro Pinheiro Jr.) cria uma Lóri particular, uma Lóri pra chamar de sua. E é uma Lóri como a heroína escrita por Lispector em “A Bela e a Fera”: ao dimensionar que a ferida do viver é grande demais (na incapacidade de lidar com a perda da mãe, na pulsão de debelar o machismo, na dificuldade de ritualizar a entrega afetiva), ela olha para dentro de seu abismo e se deixa olhar por ele. A atuação de Simone permite que a gente olhe junto pra esse fosso tão grande. Que atuação!
Merece especial aplauso (e quem sabe um Redentor de melhor coadjuvante) o trabalho de Felipe Rocha ao criar um irmão que transborda sexismo. A partir dele, Marcela desconstrói modelos arcaicos sem medo de ser ácida. E ele, com maturidade, desnuda vícios de modelos históricos nocivos.

Enrique Diaz encarna Dom Casmurro em longa premiado no Fest Aruanda: o melhor Bressane em uma década

Até o momento o único filme desta Première que aponta um procedimento de escrita parecido com o de “O Livro dos Prazeres” não está em competição, mas é, de longe, um dos mais encatadores filmes feitos neste país este ano: “Capitu e o Capítulo”, de Júlio Bressane, em seu olhar para “Dom Casmurro” (1899), de Machado de Assis (1834-1908). Tem sessão dele neste sábado, às 20h, no Cinépolis. Mariana Ximenes se agiganta ao criar uma Capitu empoderada. E Cláudio Mendes vive um José Dias como nunca se viu igual, evocando Zé Trindade. Bressane saiu do Fest Aruanda, na quarta, com os prêmios de melhor filme e direção – merecidíssimos, aliás – por um de seus exercícios de autoralidade mais elegantes. Os figurinos de Maria Aparecida Gavaldão) e o desempenho de Enrique Diaz como coadjuvante (ele faz o Bentinho em tempos de madureza) também foram premiados lá em Aruanda. Domingo o Festival do Rio chega ao fim.

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