‘Mulher-Maravilha’ tem um quê de Spielberg

‘Mulher-Maravilha’ tem um quê de Spielberg

Rodrigo Fonseca

02 de junho de 2017 | 13h14

Gal Gadot dribla o sexismo numa atuação viva ao encarnar a Princesa das Amazonas da DC Comics

RODRIGO FONSECA
Sente-se um perfume de O Resgate do Soldado Ryan (1998) num canto do farfalhante Mulher-Maravilha… seu canto mais terno e vivo, no qual todas as dúvidas acerca de Gal Gadot (como atriz eficiente e transcendente) caem por terra. Embora sempre que se fale da obra-prima de Spielberg (no âmbito da guerra) a primeira citação costume ser referente à icônica sequência da batalha na Normandia, a passagem mais potente daquele cult, em termos de dramaturgia, é o trecho no qual o capitão vivido por Tom Hanks revela para sua tropa que era um professor de Redação e não um matador. Ali, há um sopro de desconserto, no qual os heróis caem do pedestal e experimentam o desamparo, sem máscaras. Há um trecho na nova aventura da Princesa das Amazonas, criada por William Moulton Marston em 1941, na qual essa mesma sensação se faz sentir, impregnando o semblante da super-heroína a partir olhar de Gadot: o trecho no qual ela experimenta a felicidade e a gratidão de um grupo de aldeões ao qual acabou de salvar. Em cada um deles, há mais do que reverência: há uma centelha de conforto, de pertencimento. Uma centelha expressa pela diretora Patty Jenkins na tela com um filtro neorrealista, de melodrama social, de reflexão sobre a inclusão.

Tem neorrealismo ali porque Patty – conhecida pelo patológico Monster – Desejo Assassino (2003) – é uma diretora com muito a dizer sobre fraturas existenciais de figuras em busca de pertença, de um lugar que as acolham. A Princesa Diana de Gal é alguém assim: precisa buscar uma relação especular que lhe dê segurança, porto. A jornada para debelar o Deus Ares, rival dos deuses apolíneos, pode ser um caminho para essa zona de conforto. E o abraço do piloto Steve Trevor (vivido com elegância por Chris Pine) também pode significar um abrigo. Isso porque Patty não fez o filme sexista (anti-homem) que se esperava, mas sim uma trama pautada pela delicadeza na qual todos os gêneros têm lugar. É o próprio Trevor quem dá a dica ao expor que a Maldade da raça humana não é uma dádiva de Ares, mas sim uma questão de escolha e de natureza, que não passa por fisiologias, sejam masculinas ou femininas.

Outro eco spielberguiano se remonta ao clima de Indiana Jones, na recriação da I Guerra Mundial em viagens pelo mundo. A vilã Dr. Maru, especialista em venenos vivida por Elena Anaya, tem todo o padrão dos vilões nazistas que Harrison Ford combatia com seu chicote.

 Livre de ranços fascistóides, sem idiotizar as figuras masculinas, Mulher-Maravilha tem um roteiro maduro, pilotado com competência por Patty apesar da pífia assistência de produção a seu redor. A luta final do filme beira um desfile da Unidos de Cabuçu, mas não por equívoco da cineasta, e sim por falta de aparas na produção. Mas Gal Gadot, com seu sorriso neorrealista de Anna Magnani, impõe respeito como boa atriz. Ela é tudo o que Charlize Theron (“a” candidata ao posto de vigilante feminina nº 1), com toda a sua arrogância, gostaria de ser. O problema é que falta a Charlize o que Gal e seu Mulher-Maravilha  têm de sobra: sutileza.

Mas… NEM DE LONGE é o filme de super-herói definitivo. Christopher Nolan já fez isso antes, na trilogia Batman. E tem Guardiões da Galáxia – Volume 2 em cartaz – e com Sylvester Stallone – para nos lembrar o que significa ser pop.

p.s.: Flávia Saddy dubla Gal Gadot no Brasil.

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