‘Mulher-Maravilha’ enlaça a ‘Tela Quente’

‘Mulher-Maravilha’ enlaça a ‘Tela Quente’

Rodrigo Fonseca

05 de outubro de 2020 | 13h04

Patty Jenkins dirige Gal Gadot no set de “Mulher-Maravilha”

Rodrigo Fonseca
Resgatado pelo circuito exibidor carioca como alternativa para sua reabertura de portas nestes dias de pandemia, com sessões em redes como a UCI (New York City Center e Norte Shopping), “Mulher-Maravilha” (2017) promete ferver a “Tela Quente” da Globo desta segunda, em sua versão dublada, com Flávia Saddy dando a voz à atriz Gal Gadot. Ela interpreta a princesa Diana nesta brilhante aventura, cuja bilheteria foi de US$ 821,8 milhões. Adiada múltiplas vezes, sua parte dois, “Wonder Woman 1984”, estreia por aqui em dezembro, se a covid-19 deixar. Sente-se um perfume de “O Resgate do Soldado Ryan” (1998) num canto deste farfalhante filme, aliás, em seu canto mais terno e vivo, no qual todas as dúvidas acerca de Gal (como estrela eficiente e transcendente) caem por terra. Embora sempre que se fale da obra-prima de Spielberg (no âmbito da guerra) a primeira citação costume ser referente à icônica sequência da batalha na Normandia, a passagem mais potente daquele cult, em termos de roteiro, é o trecho no qual o capitão vivido por Tom Hanks revela para sua tropa que era um professor de Redação e não um matador. Ali, há um sopro de desconserto, no qual os heróis caem do pedestal e experimentam o desamparo, sem máscaras.
Há um trecho na nova aventura da Princesa das Amazonas, criada por William Moulton Marston em 1941, na qual essa mesma sensação se faz sentir, impregnando o semblante da super-heroína a partir olhar de Gadot. É o trecho no qual ela experimenta a felicidade e a gratidão de um grupo de aldeões ao qual acabou de salvar. Em cada um deles, há mais do que reverência: há uma centelha de conforto, de pertencimento. Uma centelha expressa pela diretora Patty Jenkins na tela com um filtro neorrealista, de melodrama social, de reflexão sobre a inclusão. Tem neorrealismo ali porque Patty – conhecida pelo patológico “Monster – Desejo Assassino” (2003) – é uma diretora com muito a dizer sobre fraturas existenciais de figuras em busca de pertença, de um lugar que as acolham. A Princesa Diana de Gal é alguém assim: precisa buscar uma relação especular que lhe dê segurança, porto. A jornada para debelar o Deus Ares, rival dos deuses apolíneos, pode ser um caminho para essa zona de conforto. E o abraço do piloto Steve Trevor (vivido com elegância por Chris Pine) também pode significar um abrigo. Isso porque Patty construiu uma trama pautada pela delicadeza na qual todos os gêneros têm lugar.

É o próprio Trevor (dublado por Marcelo Garcia) quem dá a dica ao expor que a Maldade da raça humana não é uma dádiva de Ares, mas sim uma questão de escolha e de natureza, que não passa por fisiologias, sejam masculinas ou femininas. Outro eco spielberguiano se remonta ao clima de Indiana Jones, na recriação da I Guerra Mundial em viagens pelo mundo. A vilã Dr. Maru, especialista em venenos vivida por Elena Anaya, tem todo o padrão dos vilões nazistas que Harrison Ford combatia com seu chicote.

Pautado pela equidade de gêneros, cuidadoso no trato das figuras masculinas, “Mulher-Maravilha” tem um roteiro maduro, pilotado com competência por Patty apesar da pífia assistência de produção a seu redor. A luta final do filme beira um desfile da Unidos de Cabuçu, mas não por equívoco da cineasta, e sim por falta de aparas na produção. Mas Gal Gadot, com seu sorriso neorrealista de Anna Magnani, impõe respeito como boa atriz. Ele tem, de sobra, a dádiva da sutileza.
Ainda na versão brasileira, vale um aplauso o trabalho de Lina Rossana dublando a Rainha Hipólita (Connie Nielsen), a mãe de Diana.

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