‘Mulher do Pai’: uma dose violenta de amadurecimento

‘Mulher do Pai’: uma dose violenta de amadurecimento

Rodrigo Fonseca

22 de junho de 2017 | 08h51

“Mulher do Pai”, laureado em 2016 com três prêmios no Festival do Rio, foi representar o Brasil na Berlinale deste ano

RODRIGO FONSECA
Enfim chega hoje ao circuito, depois de uma passagem consagradora pela Berlinale, sob -8º de frio alemão, Mulher do Pai, parábola sobre o amadurecimento e a descoberta do desejo a ele inerente que deixou o Festival do Rio 2016 de queixo caído diante da precisão cirúrgica com a qual a cineasta gaúcha Cristiane Oliveira conta histórias. Atento às feminices e suas complexidades, o filme é um maduro exercício de desafio ao silêncio. Não por acaso, fez de Cristiane a ganhador do troféu Redentor de melhor direção.

Rodado na fronteira com o Uruguai, este drama versa sobre uma adolescente, Nalu (Maria Galant), em processo de reeducação afetiva com seu pai cego (Marat Descartes, sempre impecável) e com a atual paquera deste, sua professora de Artes, Rosário (Verônica Perrotta, prêmio de melhor atriz coadjuvante na Première Brasil). Nada se sabia sobre ele, fora a certeza do bom rendimento de sua diretora em curtas (Messalina e Hóspedes) e da habilidade de Marat em incendiar a tela. Mas ao longo de 94 silenciosos minutos, o público que se arriscar a entrar pelo lado Sul de nossa pátria, o Sul de Cristiane, comungará do evangelho da readequação sentimental, relembrando como feridas viram cicatrizes no processo de amadurecimento da juventude, regado a hormônios e desilusões.

Cristiane Oliveira no set do Sul

Ambientado numa instância no Sul do país, Mulher do Pai esgarça o Tempo no moenda muito parecida com a usada pelo cinema argentino, evocando cults como Kamtchatka (2002), só que sem qualquer tônus político, ou El Último Verano de la Boyita (2009): ou seja, desfia-se nele um rosário de relações. Marat vive Ruben, um ex-desenhista que perdeu a visão aos 20 e poucos anos por uma doença, como um sujeito xucro, acostumado a dar ordens às mulheres que o cercam, refugiando-se no zumzum de seu rádio de pilha. A morte de sua mãe (Amélia Bittencourt) vai tirá-lo, de modo parcial de sua inércia, conforme aprende a lidar com a chegada de um amor, Rosário, e a domar as tempestades hormonais de Nalu. A jornada dele é retilínea e curta: é sair da toca. Já a jornada de Nalu segue uma curva com arquitetura de quebra-molas: sai e volta para as convicções herdadas da finada avó, enquanto aprende a conjugar o verbo “amar”.

Viradas, o filme tem poucas. Não é uma estrutura clássica, de três atos, de redenção: é um filme com a lucidez de perceber que os ganhos da vida muitas vezes chegam como migalhas, enquanto as perdas nos aparecem como banquetes de fel. Em sua estreia no posto de realizadora de longas, Cristiane faz um registro dessa liturgia irretrocedível de perder e ganhar como uma dinâmica da existência. E o faz com desenvoltura, apoiada nos enquadramentos cerzidos a delicadeza da fotógrafa Heloísa Passos (faminta pela força daquele céu sulista), e com charme, seduzindo-nos pela simplicidade e pela paixão nos tempos de madureza entre Rosário e Ruben. Heloísa também saiu com prêmio do Rio. É um filme de múltiplas vitórias e com múltiplos vértices abertos a serem explorados.