MUBI exibe um Coppola inédito, com Tim Roth

MUBI exibe um Coppola inédito, com Tim Roth

Rodrigo Fonseca

19 de novembro de 2021 | 16h46

Um septuagenário linguista rejuvenesce na trama de Mircea Eliade que Francis Ford filmou em 2007, com Tim Roth (maquiado na foto acima)

RODRIGO FONSECA
Baseado na literatura do filósofo romeno Mircea Eliade (1907-1986), especialista do estudo de mitos, o belo “Velha Juventude” (“Youth Without Youth”, 2007) marcou o regresso do diretor Francis Ford Coppola aos sets, após um hiato de dez anos sem rodar longas, iniciado após a estreia de “O Homem Que Fazia Chover” (1997), mas nunca teve vaga em circuito no Brasil. A partir deste domingo, é possível conferir essa pérola na streaminguesfera, a partir da MUBI. No sábado, a plataforma de curadoria humanizada aposta em outro filmaço do realizador americano: “O Fundo do Coração” (“One From The Heart”, 1981). Na trama, ambientada em 1938, o linguista Dominic Matei (papel defendido por Tim Roth nas raias da excelência) está planejando suicídio, cansado de seis 70 anos de vida, quando é atingido por um raio. Após o acidente, ele passa a rejuvenescer. Sua mudança é percebida pelos nazistas que deseja fazer dele uma cobaia.
Decidido a voltar à direção em 2022, para filmar “Megalópolis”, com Oscar Isaac e Michelle Pfeiffer, Francis Ford Coppola anda cheio de gás para criar imagens de novo, após um intervalo em sua criação, dedicado à sua produção de vinhos. Ele já havia falado sobre isso no debate realizado no Beacon Theatre, NY, mediado por Steven Soderbergh (de “sexo, mentiras e videotape”), durante a edição 2019 do Festival de Tribeca. À época, o evento exibiu um corte inédito feito por Coppola a partir do material bruto de “Apocalypse Now”, que, então, completava 40 anos. A nova edição é diferente da versão original, de 1979, e da versão “redux”, de 2001, enxugando gorduras, ampliando reflexões filosóficas e realçando o tônus de rebeldia que o realizador esbanjava nos anos 1970.
“Naquele tempo havia independência na maneira de se trabalhar com cinema nos EUA, sob a influência da Nouvelle Vague francesa e de mestres como Kurosawa. Fazíamos filmes de arte, personalíssimos e, por vezes, experimentais, se comparados à linguagem clássica americana”, disse Coppola ao P de Pop em 2015, quando ganhou uma retrospectiva no Rio. “O exercício de linguagem que fizemos nos tempos de “O poderoso chefão” encontrou dificuldade de levantar financiamento e assegurar distribuição, pois não havia um padrão entre nós. Naquela época, nossos filmes ensinaram o cinema a encontrar novas maneiras de expressar humanidade, nas formas mais distintas, sem confiar em muletas mercadológicas que hoje cansam plateias”.

Fã de diretores mais jovens, porém já cinquentões, como Alexander Payne e Wes Anderson, Coppola ganhou duas Palmas de Ouro em Cannes. A primeira veio por “A Conversação” (1974) e a segunda por “Apocalypse Now”.
“Minhas narrativas são sempre dedicadas a figuras marginalizadas, com foco em pessoas que estão alienadas em relação aos limites do mundo. É a paixão que move os personagens que me interessam. Passei por muitos gêneros investigando a condição humana”, disse Coppola na Comic-Con, em 2011, propondo uma reflexão otimista sobre o papel da internet e das vitrines digitais para o cinema. “A evolução que essas novas ferramentas estão causando simbolizam um capítulo novo para a história do audiovisual que está sendo escrito agora. Pelas vias do digital, o cinema galgar novas alturas, algumas antes inimagináveis, repensando inclusive o 3D”.

p.s.: Integram a 12ª edição do Festival Varilux (25 de novembro a 8 de dezembro) longas-metragens magistrais como “Titane”, de Julia Ducournau; “Ilusões Perdidas”, de Xavier Giannoli; “A Travessia”, de Florence Miaihe; e “Enquanto Vivo”, de Emmanuelle Bercot. Fiel à sua tradição de sempre exibir clássicos, o festival do casal Boudier presta um tributo póstumo a Jean-Paul Belmondo, morto no dia 6 de setembro, aos 88 anos, com uma projeção de “O Magnífico”, de 1973, no qual o astro de “Acossado” vive uma aventura nas raias das intrigas de espionagem sob a direção de Philippe de Broca. Haverá ainda sessão de “As Coisas da Vida”, de 1970, com Michel Piccoli, Romy Schneider e Lea Massari e Jean Bouise.

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