MUBI e Festival do Rio in the mood Wong Kar Wai

MUBI e Festival do Rio in the mood Wong Kar Wai

Rodrigo Fonseca

15 de dezembro de 2021 | 08h53

Wong Kar Wai e o fotógrafo australiano Christopher Doyle em foto de set dos anos 1990: os dois renovaram o visual do melodrama

RODRIGO FONSECA
Parceira fidelíssima do Festival do Rio, em sua 23ª edição, preparada para celebrar os 45 anos de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976) com uma sessão de gala, esta noite, no Cinépolis Lagoon 3, a MUBI tem um dedinho (mágico) numa das mostras paralelas mais concorridas da maratona cinéfila carioca, em 2021: a seção In The Mood For Wong Kar Wai. Cinco filmes do controverso realizador chinês, ás do chamado “metamelodrama”, estão em cartaz no evento, em cópias 4K, viabilizadas com o empenho da www.mubi.com. Estão no pacote “2046: Os Segredos do Amor” (2004); “Amor À Flor da Pele” (2000); “Happy Together – Felizes Juntos” (1997); “Anjos Caídos” (1995); e “Amores Expressos” (1994). Em março, a plataforma digital multinacional de curadoria humanizada, gerenciada no Brasil por Nathalia Montecristo, pôs essas pérolas de WKW em sua grade e estabeleceu uma ponte do Estadão com o artesão da fotografia em movimento que ajudou Kar Wai a esculpi-las: o australiano Christopher Doyle.
“Tudo o que a gente fazia era desejo puro, pois o nosso diferencial, na história do melodrama, foi devolver ao gênero uma carnalidade e uma sensualidade que foram extraídas dele pelos códigos do moralismo. E era um trabalho colaborativo nosso, sem hierarquia. A força do que você vai ver nesses filmes recuperados em 4K pela MUBI se deve à direção de arte somada ao figurino somada à liberdade do elenco somada à oportunidade que a direção nos dava para criar de maneira conjunta”, disse Doyle ao Estadão.
Dedicado fotografar filmes desde “Aquele Dia na Praia” (1983), quando iluminou boas ideias de Edward Yang (1947-2007), transformando-as em planos tocantes, Doyle sempre ressalta o esplendor da força feminina na obra de Kae Wai. Basta revisitar imagens de atrizes como Maggie Cheung, Brigitte Li e Faye Wong nos filmes de maior sucesso do cineasta para que ele entenda o quanto da revolução que hoje circula pelos pleitos de “empoderamento” já estavam em crisálida no trabalho das grandes intérpretes asiáticas que se destacaram na década de 1990 e 2000.
“É da natureza desses filmes buscar o espaço da tela grande. Eles foram pensados como se fossem espetáculos visuais. Mas, no trabalho da MUBI, há um componente histórico essencial: todos precisamos saber como queremos compartilhar a explosão de ideias que nos tocam e o streaming despontou como um eixo que não nega o cinema, mas se soma a ele. Tem muita gente jovem fazendo vídeos na internet que tem alimentado bem a cultura da imagem. Precisamos estar abertos às mídias que existem mutuamente, seja uma plataforma, seja um festival”, disse Doyle ao Caderno 2 do Estado.

“Amor À Flor Da Pele” vai ser exibido no Festival do Rio neste sábado, às 21h20, no Reserva Cultural

Cannes e Berlim aplaudiram o modo como ele e Kar Wai redefiniram a cartilha do melodrama, misturando mambo, Nat King Cole, The Mamas and The Papas, tons de vermelho e espelhos numa cartografia da Hong Kong dos anos 1960, 1990 e até de 2040. Cores explodem nas telas em filmes como “Amor à Flor da Pele”, que deu a Tony Leung o prêmio de melhor ator na Croisette, há 21 anos. “Estávamos sempre atentos ao ritmo, porque o drama pede uma melodia. Mas estávamos atentos também a questões que passam pelos afetos, pelo querer, pelo entendimento daquilo que nos leva a gostar de alguém”, disse Doyle. “O cinema que me inspira é o cinema do inesperado. Cada vez que eu filmo, preciso ir às locações, conhece-las, respeitar suas formas e seus desenhos. É do espaço que brota a luz. É do esparo que eu extraio a dinâmica de que a luz necessita em cada história”.
Sem lançar filmes desde 2013, quando abriu a Berlinale com a exibição de “O Grande Mestre”, Kar Wai está finalizando a série “Blossoms Shanghai”, sobre um milionário que venceu na vida por seus próprios meios e um oportunista que cruza seu caminho. Já Doyle acaba de trabalhar em “Just 1 Day”, de Erica Li.

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