‘Mr. No’ reafirma a grife Bonelli nas HQs

‘Mr. No’ reafirma a grife Bonelli nas HQs

Rodrigo Fonseca

08 de abril de 2020 | 15h22

Rodrigo Fonseca
Caldeirão de surpresa, sempre com temperos de aventura à moda milanesa, a Bonelli Editore é hoje a titular do gibi mais luxuoso nas livrarias e gibiterias do Brasil: “Mister No – Revolução: Vietnã”, com roteiros de Michele Masiero e desenhos de Matteo Cremona. Painel dos EUA nos anos 1960, a partir das aventuras do piloto criado em 1975, nas HQs, por Sergio Bonelli e Gallieno Ferri, a graphic novel é parte de uma série de álbuns que exploram diferentes fases do herói brasilianista. Faltam “Califórnia” e “Amazônia”. Quem trouxe para nós as incursões vietnamitas do personagem foi a Panini Comics, num encadernado de fino trato. Editado (e muito bem) em solo nacional pela Record, no início dos anos 1990, No, cujo nome real é Jerry Drake, é um ex-militar que se refugia na selva amazônica. Em seu gibi de linha, ele era um veterano da Segunda Guerra. Seu interesse pela América do Sul era um espelho da paixão do próprio Bonelli por nosso continente. Mas na trama escrita por Masiero, as cronologias foram mudadas e No vira um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones, forçado a se alistar e lutar na Ásia, em paralelo a uma decepção amorosa com o triângulo formado entre ele, uma namorada e o vício dela em heroína. A narrativa aposta na dor da educação sentimental, sem medo do drama, ao mesmo tempo em que recria o conflito bélico nas selvas asiáticas com um hiper-realismo impressionante. A tradução é de Julio Schneider, um dos maiores bambas da versão dos fumetti para a língua portuguesa.

Em paralelo à circulação de “Mister No”, um outro título da Bonelli, “Brad Barron” anda pelas gibiterias, abordando as aventuras de um biólogo às voltas com uma invasão alienígena. Há ainda um outro herói das HQs italianas, best-seller na Europa, a caminho das bancas do Brasil: o agente Nathan Never. Especialista em estratégias de defesa, ela subverte parâmetros morais do vigilantes habituais dos quadrinhos em prol não apenas dos contratos comerciais de segurança a preço fixo que assina, mas também de seu senso de justiça particular. Até o fim do semestre, a Editora Graphite publicará o vigilante futurista da Bonelli seguindo a numeração da Itália desde o primeiro número, em formato 17X23cm, com 336 páginas em seu preto e branco estilizado e irrigado de chiaroscuros (com 24 páginas extras em cores). Este primeiro volume (que está sendo viabilizado via financiamento coletivo pelo site catarse.me/nn1) garante ao leitor brasileiro as três primeiras edições originais de Never, confeccionadas em Milão, agora com tradução de Paulo Guanaes.

p.s.: Quase um ano depois da consagração de “A Vida Invisível” em Cannes, com o prêmio Un Certain Regard e uma forte badalação para o Oscar, o diretor cearense Karim Aïnouz volta ao circuito dos grandes festivais internacionais, agora via Suíça, no Visions du Réel, falando de suas raízes familiares – a Argélia – a partir de um retrato de um dia na vida de uma mulher que apostou na militância como homilia na fé pela transformação política do presente. Seu novo documentário “Nardjes A.”, batizado com o nome de sua personagem, será uma das atrações do Visions du Réel, maratona documental suíça, realizada anualmente em Nyon, e, desta vez, em dias de 40ena, transferida para a internet, no site https://www.visionsdureel.ch/en. A data do evento: de 17 de abril a 2 de maio. Antes, o longa de Karim foi projetado na programação da 70ª Berlinale. Nele, o realizador faz uma defesa da sabedoria feminina e da retidão dos jovens. Ao cruzar seu olhar com a jovem e inflamada ativista Nardjes, em meio à Revolução dos Sorrisos, em solo argelino, em 2019, o diretor de “Madame Satã” (2002) aplica um de seus filtros autorais: a atenção ao transbordamento de quem é visto como desviante. Nardjes é uma ferida aberta na moral de uma nação inquieta. Uma ferida de onde brotam as flores de uma juventude que não se deixa calar.

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