‘Mr. Long’, do Japão, é o melhor da Berlinale até agora

‘Mr. Long’, do Japão, é o melhor da Berlinale até agora

Rodrigo Fonseca

12 de fevereiro de 2017 | 22h42

“Mr. Long”, pérola do Japão, é “o” filme da Berlinale até agora

RODRIGO FONSECA
Epifania, aquela sensação de enlevo quase religioso que a Arte provoca ao colocar o olhar do espectador em transcendência, já se fez presente no 67º Festival de Berlim graças aos esforços do diretor japonês Sabu (de Monday e Miss Zombie) e de seu Mr. Long, uma narrativa soberba que patina pela estranheza e pelo niilismo até fazer da esperança seu ponto de chegada. Com ecos de Hana-Bi (1997), de Takeshi Kitano, e de Drive (2011), de Nicolas Winding Refn, o concorrente do Japão, protagonizado pelo galã asiático Chang Chen (de O Tigre e o Dragão), apresenta um formato narrativo no qual o que parece tropeço vira linguagem, num roteiro que avança entre causa e efeito abrindo digressões de seus personagens paralelos. E mais, é um filme de ação que vira comédia, que vira melodrama, que vira drama familiar, que tomba pelas veredas do realismo social, mas que volta a ser ação, num arco que jamais perde a harmonia nem a comunicabilidade, apoiado numa precisão de decupagem invejável. Nada melhor até agora na briga pelo Urso de Ouro de 2017.

Aberto com cenas de execução construída no molde dos melhores exemplares da Ásia no quesito filme de gângster, Mr. Long acompanha a transformação na rotina de um matador de aluguel de Taiwan (Chen), especialista em matar com facas, depois que ele é alvo de uma emboscada em uma missão no Japão. Fadado a morrer, ele consegue escapar e cai num bairro pobre, onde um menino carente lhe ajuda a sobreviver. O guri é filho de uma dependente química. O assassino se recupera e usa itens de cozinha que encontra para fazer um cozido. Esse gesto se repete dia a dia, sempre com o garotinho perto, estabelecendo uma relação silenciosa de amizade. Vizinhos vão sendo atraídos pelo cheiro da comida e passam a enxergar naquele sujeito que só sabe falar chinês um chef de primeira. Sem outra alternativa e necessitado de dinheiro, ele vai cozinhando para os moradores, que montam um carrinho de comida para que ele possa vender suas guloseimas. Nisso, a viciada se restabelece e se encanta pelo jeito cuidadoso do sujeito – apelidado ali de Mr. Long – e acaba se afeiçoando, criando uma vida a dois. Mas, o crime, esse bumerangue social, voltará a bater na porta do trio.

Em seu círculo estrutural fascinante de dramaturgia, Mr. Long alimenta um exercício quase litúrgico dos festivais de cinema de se tentar adivinhar o potencial vencedor pelo perfil do presidente do júri. O cabeça dos jurados deste ano é o cineasta holandês Paul Verhoeven, um realizador do chamado “filme de gênero”, coisa que esta pepita nipônica é, em sua espinha dorsal de thriller. Mas os filmes de gênero feitos pior Verhoeven, tipo Instinto Selvagem (1992) ou Elle (2016), partem de uma cartilha estabelecida e partem para uma reflexão existencial sobre a condição humana. É o mesmo que Sabu fez.  

“Una Mujer Fantástica”, do Chile: trans

Já existe uma torcida organizada por aqui (e com toda razão) em torno da vitória de Daniela Veja, estrela da pérola chilena Una Mujer Fantástica, na disputa pelo prêmio de melhor atriz. E mais do que mérito, pelo trinômio empenho + talento + ferramental cênico farto, a premiação desta mulher trans seria uma forma de reconhecer um dos pleitos sociais, sexuais, comportamentais e políticos mais urgentes da atualidade: a inclusão dos transsexuais. O drama do diretor Sebastián Lélio (de Glória) relata o inferno que se abate sobre a vida da cantora trans Marina (Daniela) depois que seu namorado morre (subitamente, de aneurisma), despertando uma onda de agressão e de repulsa por parte da família do finado.

Ainda no rastro do Urso de Ouro, entre os filmes de maior aclamação, segue com bom destaque o drama franco-senegalês ambientado no Congo Félicité, de Alain Gomis, sobre uma cantora pobre de Kinshasa em luta para salvar o filho. Fala-se muito da atuação de Richard Gere e de Steve Coogan para prêmios por The Dinner, único dos 18 concorrentes de CEP americano. Aliás, uma dobradinha entre EUA e Brasil, com Armie Hammer no elenco, será exibido nesta segunda: Call Me By Your Name, de Lucca Guadagnino, produzida por Rodrigo Teixeira e sua RT Features (de Alemão), falando de uma love story LGBT. Sua exibição será na mostra Panorama, onde o maior destaque, a checar pelo zumzumzum local foi para Vazante, de Daniela Thomas, pelo arrojo visual da fotografia de Inti Briones na recriação do Brasil de 1821. Coladinho tá o alemão Tiger Girl, de Jakob Lass, sobre a exótica parceria entre uma taxista e uma vítima de assédio.

Tendências: