Mostra SP: Wiseman no calcanhar de Trump

Mostra SP: Wiseman no calcanhar de Trump

Rodrigo Fonseca

14 de outubro de 2020 | 12h47

Frederick Wiseman com o Leão de Ouro honorário de Veneza: aos 90 anos, o papa da observação do cinema documental americano, revelado com “Titicut Follies” (1967), receberá o Troféu Humanidade da Mostra

Rodrigo Fonseca
Inaugurado na segunda, com filmes do mundo todo, entre eles o brasileiro “Irmã”, de Luciana Mazeto e Vinícius Lopes, o FIF-Festival International du Film de La Roche-sur-Yon – realizado em uma cidadezinha francesa da região do Pays de la Loire, a cerca de quatro horas e meia de Paris – vai encarar (e se encantar) com os 275 minutos de “City Hall” nesta quinta-feira, a fim de celebrar os 90 anos (em plena atividade) do documentarista americano Frederick Wiseman. Ele vai receber o Prêmio Humanidade na 44ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (22 de outubro a 4 de novembro), que também vai projetar seu novo longa-metragem e coroar uma trajetória de enamoramento com o Real iniciada em 1967, com “Titicut Follies”.
“O que eu aprendo de cada realidade é aquilo que você vê nos filmes, sem teses prévias. Eu tenho uma técnica, que é sempre a mesma, e busco estabelecer relações entre os universos que filmo”, disse Wiseman em entrevista ao P de Pop, quando finalizava “Monrovia, Indiana” (2018) com imagens da vida no campo nos EUA, buscando registrar os rituais cotidianos de pessoas que enxergaram em Trump um salvador da economia dos EUA. “Sabemos muito sobre a vida nas metrópoles americanas, pois o cinema de ficção se debruça sobre os mais variados pontos da geografia das grandes cidades. Mas pouco se fala sobre a importância de uma comunidade agrícola para realidade contemporânea”.

Todos os contratempos morais inerentes à gestão Trump se materializam em “City Hall”. Nele, que periga ser o filme mais disputado da Mostra em 2020, quando evento pilotado por Renata de Almeida se reinventa online, vemos um painel do dia a dia da prefeitura de Boston, com foco na injustiça racial, nas crises de habitação, nas ações governamentais contra as mudanças climáticas. Fiel à linha autoral dos documentários de Wiseman – que não têm arco narrativo padrão, nem narração ou entrevistas -, o longa é baseado na observação do dia a dia do coração de Massachusetts entre o outono de 2018 e o inverno de 2019. Seu eixo dramático está nas atividades do prefeito Marty Walsh, com este se dirigindo aos líderes empresariais de sua cidade sobre o impacto da mudança climática no porto local, Vemos Walsh ouvindo veteranos no Faneuil Hall em 11 de novembro, observando o Dia de Ação de Graças na Goodwill Industries e discursando no Symphony Hall. Cada passo dessa rotina revela o detalhe de um organismo citadino complexo entre das engrenagens dos Estados Unidos.
“Não existe invisibilidade no cinema. Assim que a câmera passa por alguém e flagra este indivíduo em suas atividades mais simples, ele já ganha subjetividade poética”, defende Wiseman, que fez da discrição uma virtude essencial a seu trabalho.

Em meio a celebridades do cinema, ele passa despercebido, embora tenha uma filmografia estudada pelo mundo afora, sempre presente em festivais como os de Cannes, Veneza, Berlim e o brasileiríssimo É Tudo Verdade. Já ganhou o Emmy (por “Hospital” e “Law and Order”), o prêmio de melhor .doc do Festival de Marselha (por “Public Housing”), um troféu da Federação de Críticos e uma série de láureas pelo conjunto de sua carreira. Filmes recentes dele, como “La Danse” (2009) e “Crazy Horse” (2011), tornaram-se sucessos de audiência. Mas nada disso mudou seu método de trabalho: observar e deixar o objeto se revelar para a câmera sem interferências, sem proselitismos.

Uma das apostas da Mostra de SP, “ISSO NÃO É UM ENTERRO, É UMA RESSURREIÇÃO” (“This is not a burial, it`s a resurrection”), de Lemohang Jeremiah Mosese, representa o cinema de Lesoto

Ainda acerca da Mostra, entre os 198 filmes desta edição, fique ligado em “Isso não é um enterro, é uma ressurreição” (“This is not a burial, it`s a resurrection”), de Lemohang Jeremiah Mosese. Laureado com 14 prêmios internacionais, este drama egresso de Lesoto vem comovendo o mundo com a saga de uma viúva de 80 anos que luta para reinventar sua vida e a de seus vizinhos após saber da morte de seu filho. Vale atenção também para “Chico rei entre nós”, de Joyce Prado. Retratada em nosso cinema num cult de 1985 de Walter Lima Jr. que passava até na “Sessão da Tarde” na década de 1980, a história de Galanga – monarca guerreiro do Congo capturado por portugueses e escravizado em Vila Rica – retorna agora como narrativa documental de inclusão e resiliência.

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