Mostra SP: ‘Órbitas’ da liquidez e da sinestesia

Mostra SP: ‘Órbitas’ da liquidez e da sinestesia

Rodrigo Fonseca

20 de outubro de 2020 | 13h35

O artista plástico Thiago Martins assina o cartaz de “As Órbitas da Água”

Rodrigo Fonseca
Paralelismos nietzschianos entre o que nos faz presa e o que nos torna caçadores, entre o que nos envenena e o que nos cura, povoam as reflexões do sociólogo polonês Zygmunt Bauman em múltiplas latitude e fazem dele uma das lupas essenciais para encontrarmos os lastros de inquietude mais finos de “As Órbitas da Água”, um dos mais fabulares (e doídos) representantes do cinema brasileiro na 44ª Mostra Internacional de São Paulo, que começa nesta quinta-feira. Diz Bauman: “A incapacidade de escolher entre atração e repulsão, entre esperanças e temores, redunda na incapacidade de agir. O impasse de escolher entre atração e repulsão, entre esperanças e temores, redunda na incapacidade de agir”. É essa, nas entrelinhas, a maior potência poética (trágica) do novo longa-metragem de Frederico Machado (de “Lamparina da Aurora”), um dos pilares do audiovisual maranhense. Há liquidez – aquela da qual Zygmunt fala ao apontar a dissolução do que resistia de sólido das ideologias pretéritas, imperfeitas – por todo o lado numa narrativa que desliza sinuosa (na montagem de Daniel Costa), emulando uma aparente fluidez do Tempo. Um fluido que se espalha, mas fica… fica… fica… É difícil não pesar no galope d’“O Cavalo de Turim” (2011), de Béla Tarr e Ágnes Hranitzky, diante do contexto de eterno retorno de um enredo de vingança, de acerto de contas, do cicatrizar de velhas feridas, do ir de volta – tudo parece virar sinônimo ao barulho da correnteza, na sinestesia típica de F. Machado. Logo nos primeiros minutos, um casal de forasteiros vividos por Rejane Arruda (em delicada atuação) e Antonio Saboia (com um manancial de expressões perfeito pra esmerilhar o silêncio) chega a uma vila de pescadores do litoral do Maranhão. É um lugar onde nada parecia acontecer. “A vida é para sempre coisa alheia”, ouve-se quando eles atracam, num segmento chamado de “Água”, que dá sequência a um hemisfério batizado de “Lodo”. Os dois acabam transformando a vida do lugarejo, trazendo dor, força, loucura e uma catarse há tempos esperada para a rotina isolada daqueles moradores, mexendo com libidos e desejos. Parece haver ali uma centelha para um incêndio capaz de desviar os astros da via láctea da retidão. Mas, indo e vindo, marejando nossos olhos com a fotografia dionisíaca de Ben Real, Machado expõe a sina de que, naquela galáxia onde a palavra é estrela cadente, os corpos celestes repetem uma mesma rota. A questão é: na repetição, algo se quebra… algo brota. É assim a parte final da trilogia dantesca composta também pelos filmes “O Exercício do Caos” (2013) e “O Signo das Tetas” (2015), que fazem de Frederico um bardo das incontinências e de seus riscos. É o artista plástico Thiago Martins quem assina o cartaz de ‘Órbitas…”, que pode ser encarado desde já como uma opção obrigatória do menu de 198 títulos da Mostra de 2020.

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