Mostra SP: ‘O Lodo’ é um ‘O Inquilino’ à mineira

Mostra SP: ‘O Lodo’ é um ‘O Inquilino’ à mineira

Rodrigo Fonseca

13 de outubro de 2020 | 13h36

Manfredo (o luminoso Eduardo Moreira) encara com desconforto o divã do Dr. Pink (Renato Parara) em “O Lodo”, o filme mais caudaloso do mineiro Helvécio Ratton

Rodrigo Fonseca
Em tempo de apogeu do audiovisual das Gerais, com vozes – como a de Ana Carolina Soares, Juliana Antunes, André Novais Oliveira, Affonso Uchoa, João Dumans, Gabriel Martins e outras potências, como o crítico Marcelo Miranda, escriba dessa movimentação – se afirmando Brasil e mundo afora, a renovação das estéticas mineiras alcança também um de seus pilares mais expressivos: Helvécio Ratton, que, aos 71 anos, entrega aos cinemas um filme surpreendente, movido a mistério e elegância, “O Lodo”. Sua passagem pela 44ª Mostra Internacional de São Paulo (agendada de 22 de outubro a 4 de novembro) está garantida. Seu nome costuma ser historicamente associado à representação da infância e da adolescência, por mérito de olhar: “A Dança dos Bonecos”, lançado por ele em 1986, talvez seja a mais lúdica encarnação do universo infantil em uma indústria que vivia o apogeu de Os Trapalhões. No engatinhar da Retomada, ele ainda emplacou “Menino Maluquinho: O Filme” (1995), o deslumbre “Pequenas Histórias” (2007) e “O Segredo dos Diamantes” (2014), três outras preciosas reflexões sobre o mundo de quem, no amolecimento de seus dentes de leite, faz da imaginação uma bolinha de gude. Porém, em paralelo a suas incursões no imaginário da criançada, Ratton pensou a vida adulta pelas artimanhas do engano (caso de “Amor & Cia”, num diálogo com Eça de Queirós) e pela brutalidade institucionalizada (“Batismo de Sangue” e “Em Nome da Razão”). Abordou ainda a realidade da periferia sob um prisma de inclusão, com o delicado “Uma Onda no Ar” (2002), que merecia ser exibido em escolas para ilustras o debate sobre tolerância. Sua volta às telas se dá pelas veredas do (extra)ordinário de Murilo Rubião (1916-1991) e pelas ruas de Belo Horizonte. L.G. Bayão, uma das penas mais infalíveis do roteiro brasileiro hoje, tendo “Kardec” (2019) e “Motorrad” (2017) em seu currículo, escreve com Ratton um roteiro capaz de raspar nos grilhões do absurdo e do fantástico, apontando para um terreno no qual nossa cinematografia raramente mergulha: a paranoia. Poucos filmes nacionais recentes são mais kafkianos do que este suspense psicológico, vestido de conto moral, pilotado por Ratton com uma edição sufocante, que o montador Mair Tavares torna mais tensa a cada novo plano. Tem muito de “O Inquilino” (1976), de Roman Polanski, nele. A fotografia de Lauro Escorel, de um requinte apolíneo, favorece ainda mais o clima de vertigem dessa narrativa, criando uma espécie de paradoxo formal com a sensação de tontura vivenciada por seu protagonista e por nós, ao estabelecermos uma relação de empatia plena com sua angústia. Como (anti-)herói, o diretor escolheu um dedicado funcionário de uma seguradora de BH: Manfredo, vivido por um Eduardo Moreira nas raias da exuberância. Ele é parte do Grupo Galpão, bunker de invenção teatral na qual Helvécio foi buscar a argamassa poética para sua jornada às trevas do cotidiano, em sua tradução mais intimista. Manfredo é um homem de números, elementos que, como Machado de Assis definia, não comportam metáforas. Abraçado à exatidão da aritmética e da inspeção de seguros, ele tem um abrigo, que é devassado por uma crescente depressão. Sua vida aparentemente ordeira é temperada por um caso extraconjugal com a mulher de seu chefe – papel dado a uma luminosa Fernanda Vianna. Mas essa torção que dá na moral não embota sua retidão e sua eficiência. O que vai atropelá-las é caçada que vai se abater sobre ele depois Manfredo que visita um analista e psiquiatra: o Dr. Pink, personagem que o ator Renato Parara desenha (inteligentemente) com ares sombrios de Vincent Price. Pink é um Dr. Phibes do talking cure, que enxerga em Manfredo um sistema doente a ser curado. Este não se dá lá muito bem com Freud e decide não deitar mais no divã de Pink, mas passa, sucessivamente, a ser seguido pelo psi, sendo cobrado ostensivamente, recebendo avisos de novas consultas. Em paralelo, há uma mulher que telefona para a casa de Manfredo todo o tempo, a exigir dele compromissos de que não tem medida: cabe à brilhante Inês Peixoto executar essa figura. Pressionado por todos os ladros, Manfredo se recusa a procurar saída nas conversas que Pink lhe demanda. E sua negativa ao trabalho de análise gera custos… altos… gera processos e gera uma somatização do lodaçal em seu inconsciente, expresso em diques de sangue escuro (tipo lama) que vaza de seu peito, em forma de feridas. Esse lamaçal é mais do que uma expressão dos traumas de Manfredo. Ele representa o chorume que nos cerca, com as inaptidões do Estado, com a conivência da Lei com o que é injusto, com o desemparo ao nosso redor. Mais atento ao Brasil de hoje, impossível. Mas a sofisticação com que Ratton conduz a câmera para esse esquadrinhar de alma, num domínio cirúrgico das cartilhas do thriller, é o que mais impressiona neste (mineiríssimo) filme de madureza de um realizador que, vira e mexe, surpreende.

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