Mostra exibe estreia de Daniel Brühl na direção

Mostra exibe estreia de Daniel Brühl na direção

Rodrigo Fonseca

22 de outubro de 2021 | 16h18

O genial Peter Kurth brinda com Daniel Brühl antes de uma saraivada de ataques em “A Porta ao Lado”

Rodrigo Fonseca
Prestes a regressar às telas à frente de uma versão 0KM do romance “Nada de Novo no Front” (1929), de Erich Maria Remarque (1898–1970), o ator o teuto-espanhol Daniel César Martín González Brühl é o responsável por um dos achados mais preciosos da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo .45 neste fim de semana: “A Porta ao Lado” (“Nebenan”). É a estreia dele na direção de longas-metragens, lançado em maço na disputa pelo Urso de Ouro da Berlinale 2021. O filme saiu pouco antes de ele destilar vilania na série “Falcão e o Soldado Invernal”, da Disney +. E é um filme no qual ele sabe rir de si mesmo quando busca reforçar seu lugar de honra entre os intérpretes mais inquietos da Europa nos dias de hoje. Aliás, sua inquietude não se limita mais só a atuação. Tem sessão dele neste sábado, 21h10, no Espaço Itaú Frei Caneca 2; no domingo, às 18h10, no Reserva Cultural; no dia 28, às 18h, no no Espaço Itaú Frei Caneca 1; no dia 30, às 16h20, na Sala Globoplay 1 do Cine Marquise; e no dia 2, às 18h20, na Cinesala. É uma narrativa de uma engenhosidade rara.
Bem antes de “Toni Erdmann” (2016) devolver ao cinema alemão uma popularidade como ele só desfrutara nos melhores tempos de Volker Schlöndorff, Fassbinder, Wenders e Herzog, um ritual de desapego aos pretéritos que o motor econômico da Europa viveu, no pós-Guerra fez do parque audiovisual dos povos germânicos uma plataforma de culto: “Adeus, Lênin!” (2003). Fenômeno de bilheteria com um faturamento estimado em US$ 79 milhões, aquele longa chamava a atenção pelos atos picarescos de um rapaz para proteger sua mãe do choque de saber da reunificação das duas Alemanhas. Mais do que a sacada das espertezas do personagem, havia, na dramédia de Wolfgang Becker um astro nato: Brühl, então entre os 24 e 25 anos. Muitos jovens atores não americanos (Gael García Bernal, Louis Garrel, Riccardo Scamarcio) apareceram no alvorecer do século, mas poucos alcançaram uma trajetória como a dele. Fez cults (“Bastardos Inglórios”), disputou o Globo de Ouro (com “Rush”), fez séries (“O Alienista”) e ainda oxigenou a vilania da Marvel, no papel do Barão Zemo, em “Capitão América: Guerra Civil” (2016), numa aura de maldade que se repete agora no já citado seriado da Disney. Agora, aos 43 anos, ele se lança como realizador, alcançando elogios por sua precisão, parte por sua aposta no risco.

Autocrítica pura e aplicada, “A Porta ao Lado” (chamado “Next Door” nos EUA) é uma espécie de “Birdman” jovial. Assim como na oscarizada dramédia de Alejandro González Iñárritu, a imposição de um filme de super-herói como trilha para o sucesso de um ator é alvo de debate. Mas diferentemente do personagem de Michael Keaton, que vivia à sombra de um Batman de penas, o Daniel encarnado por Brühl, na trama escrita por Daniel Kehlmann, ainda não uma Liga da Justiça em sua vida. Ele está a um passo de fechar um contrato para um projeto com vigilantes mascarados. Fala-se em dado ponta de um “Darkman 2”, sem conexões com o filme de Sam Raimi. O ponto é: para alguém que é lembrado por um seriado de quinta, que fez na TV alemã, fazer cinemão é um trampolim – mais para o estrelato do que para a realização. Mas Daniel tem filhos pra sustentar e uma vaidade enorme para alimentar. Consciência pesada ou não, ele tem uma viagem a fazer e um contrato para assinar. Mas, para isso, uma bicadinha numa cerveja ajudaria. Eis que ele para num bar. Só poderia ter escolhido um lugar diferente.
Nada contra o atendimento ou as bebidas. O problema é que um dos clientes, Bruno (o genial Peter Kurth), vem de um lugar parecido com o de Daniel e sabe que a gentrificação uniu os dois: um anônimo como ele e um dublê de superstar. E Bruno está sedento pra falar disso. Entre os dois se estabelece uma relação especular feroz. É uma relação que Brühl desenvolve como numa peça teatral, onde os atos são separados por um arejamento do palco principal (o bar), com sazonais saídas dele, para respirar, para tentar ir embora.
É longa nervoso, que exaspera e transcende nossas expectativas, propondo um painel da Alemanha hoje a partir das angústias de sua população.

“Luz Natural”: melhor direção na Berlinale

Outro achado da Berlinale nesta Mostra é “Luz Natural” (“Természetes Fény”), de Dénes Nagy, da Hungria, que tem sessão neste sábado, às 18h20, Espaço Itaú da Augusta, e neste domingo, às 16h15, Espaço Itaú da Frei Caneca. Ganhador do Urso de Prata de melhor direção na Berlinale. Há tempos, talvez desde “Na Neblina” (2012), de Sergey Loznitsa, não se via uma incursão tão visceral aos fronts da II Guerra, mais preocupada em mapear o estado de coisas daquele instante da História do que em cartografar horrores. Não é um filme sobre o Holocausto, é um filme sobre a vivência do combate, do ponto de vista do estrangeirismo, da falta de pertença, da desconexão dos combatentes com o terreno que estão lutando para proteger, a mando de uma ideologia política.
Mais conhecido por seu trabalho como documentarista, Dénes Nagy estreia na ficção levando de suas experiências com as narrativas do Real um olhar geográfico para entender o quanto o espaço afeta conjugação do verbo “viver” em contextos de tensão. Há violência, há medo, mas há, sobretudo, incertezas acerca do que virá para os personagens. Municiado de um dado histórico – em 1943, húngaros foram convocados para lutar na URSS ocupada -, o cineasta mergulha nas fossas do Império Soviético, num inverno de plena aspereza, para tentar mapear, de um ponto de vista distanciado, o que (e como) se viveu ali. Importa menos a jornada que ele narra e mais o ambiente físico e, à certa medida, moral, onde ela se passa, para possibilitar à plateia uma chance rara de espatifar a imagem da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) hoje cristalizadas em nosso imaginário.
A Mostra segue até o dia 3.

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