Mostra SP: ‘Berlin Alexanderplatz’ ecoa desejo

Mostra SP: ‘Berlin Alexanderplatz’ ecoa desejo

Rodrigo Fonseca

17 de outubro de 2020 | 10h37

Burhan Qurbani, de óculos, dirige Berlin Alexanderplatz, que disputou o Urso de Ouro de 2020, tendo Welket Bungué e Albrecht Schuch como os destaques de seu elenco multinacional

Rodrigo Fonseca
Vai ter “Nuevo Orden”, do mexicano Michel Franco, em telas e webs brasileiras na próxima quinta-feira, decretando o arranque da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que, sob o comando de Renata de Almeida vai projetar joias brasileiras inéditas (“Chico Rei de Volta”; “Mulher Oceano”) e atrações de múltiplos países (tipo “Days”, do taiwanês Tsai Ming-liang), com destaque para uma joia do audiovisual alemão contemporâneo: “Berlim Alexanderplatz”. Burhan Qurbani é quem assina a direção desta releitura do romance homônimo de Alfred Döblin (1878-1957), transformado em série de TV por Rainer Werner Fassbinder (1945-1982), em 1980. Sua projeção na Berlinale, em fevereiro, na caça ao Urso de Ouro, foi um dos momentos mais emocionantes da maratona cinéfila germânica, em especial pela catártica interpretação de Welket Bungué. Ator de 32 anos vindo de Guiné-Bissau e visto por cá, antes, em “Joaquim” (2017), de Marcelo Gomes.
“Entendi desde muito novo o que é ser periférico e sempre tive a necessidade de contas as milhas próprias histórias, dirigindo curtas e atuando em projetos onde pudesse haver uma série de trocas com realizadoras e realizadores de muitas línguas”, disse Bungué ao P de Pop em Berlim, logo após a projeção do longa, com três horas de duração que voam na tela.
“É difícil se livrar do Diabo depois que a gente deixa ele entrar”, comenta-se, em uma cena do filme de Qurbani, cineasta alemão de origem afegã num indicativo do clima mefistofélico que cerca o imigrante Franz, papel de Bungué. Avesso a toques invasivos em seu corpo e sua alma, ele negocia a alma em sua jornada em prol de se afirmar não como um corpo estranho em um país estrangeiro, mas como parte da geografia de uma Europa ainda xenófoba. Fausto desterritoralizado, ele negocia seu espírito com o crime em nome do desejo de legitimação pelo dinheiro, a ponto de gritar “Eu tenho nome alemão!” para seus adversários, em um meio ambiente hostil de prostituição, lotado de chefões do crime e policiais intolerantes. Radiografia moral de uma Alemanha de caixa dois, de uma brutalidade institucionalizada, o périplo de Franz pelas franjas do delito se impõe como espetáculo cinematográfico pela força de sua edição de som. “Existem muitas línguas mescladas nessa história, com proeminência para o alemão, mas com a percepção de quem estamos em um território de sotaques dos mais diversos, o que me levou a um trabalho delicado de depuração de som, capaz de acentuar a sensorialidade do ambiente”, disse Qurbani ao Estadão.
Na homilia da solidão rezada pelo cineasta no longa, Franz cruza com um Mefisto de beira de rua… Reinhold (vivido magneticamente por Albrecht Schuch)… cuja função é arrebanhar novos bandidos para seus chefes. Há entre eles uma tensão sexual homoafetiva que evoca o Fassbinder de “Querelle” (1982), só que numa luxúria engasgada. É que o coração de Franz vai ser assaltado mesmo por mulheres, como a cafetina Eva (Annabelle Mandeng) e a prostituta de luxo Mieze (Jella Haase). Esta o salva de um acidente convertido em cicatrizes profundas. Mas algo em Franz não permite que ele se afaste de Reinhold, mesmo quando este começa a enxergar Mieze como um empecilho. São querências incompatíveis. São sexos em polos opostos numa cidade capaz de abraçar todas as desinências verbais dos verbos “querer”. “É um mundo onde o desejo é soberano”, diz Qurbani, que chamou a atenção da Europa, há dez anos, com “Shahada”.
Inclua no topo da lista de apostas da Mostra em 2020 “MISS MARX”, da italiana Susanna Nicchiarelli, aplaudido em Veneza e em San Sebastián. Responsável pela biografia da cantora alemã Christa Päffgen em “Nico, 1988” (2017), a cineasta romana de maior prestígio na atualidade escala a inglesa Romola Garai para viver a caçula de Karl Marx: Eleanor, tradutora e feminista essencial para o debate do sufragismo. Sua trilha sonora é um achado.

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