Mostra reflete a ‘Luz Natural’ húngara

Mostra reflete a ‘Luz Natural’ húngara

Rodrigo Fonseca

02 de novembro de 2021 | 17h38

RODRIGO FONSECA
Até 23h59 desta quarta, a plataforma digital da 45. Mostra de São Paulo garante a seus usuários um passaporte para o Outono Húngaro – hoje um dos mais resplandescentes movimentos do audiovisual. Basta ir no www.mostra.org. Lá, cate a aba Mostrar Play e dê um mergulho no drama bélico “Luz Natural”
(“Természetes Fény”), lançado mundialmente com o título de “Natural Light”. No dia 5 de março, a produção deu a seu realizador, Dénes Nagy o Urso de Prata de melhor direção na Berlinale.
Há tempos, talvez desde “Na Neblina” (2012), de Sergey Loznitsa, não se via uma incursão tão visceral aos fronts da II Guerra, mais preocupada em mapear o estado de coisas daquele instante da História do que em cartografar horrores. Não é um filme sobre o Holocausto, é um filme sobre a vivência do combate, do ponto de vista do estrangeirismo, da falta de pertença, da desconexão dos combatentes com o terreno que estão lutando para proteger, a mando de uma ideologia política. Mais conhecido por seu trabalho como documentarista, Dénes Nagy estreia na ficção levando de suas experiências com as narrativas do Real um olhar geográfico para entender o quanto o espaço afeta conjugação do verbo “viver” em contextos de tensão. Há violência, há medo, mas há, sobretudo, incertezas acerca do que virá para os personagens.

O diretor Dénes Nagy

Municiado de um dado histórico – em 1943, húngaros foram convocados para lutar na URSS ocupada -, o cineasta mergulha nas fossas do Império Soviético, num inverno de plena aspereza, para tentar mapear, de um ponto de vista distanciado, o que (e como) se viveu ali. Importa menos a jornada que ele narra e mais o ambiente físico e, à certa medida, moral, onde ela se passa, para possibilitar à plateia uma chance rara de espatifar a imagem da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) hoje cristalizadas em nosso imaginário. O princípio da estranheza – e da incerteza – que torna o filme vivo – em meio à estonteante fotografia de Tamás Dobos – é a figura do combatente István Semetka, vibido por Ferenc Szabó, numa comovente atuação. Amente de István é dissecada diante de nós, mesmo em momentos de silêncio monástico. Ele não entende porque foi parar ali, assumindo a liderança de uma luta da qual não se sente capaz de representar, na qual não consegue crer.

Ainda no Mostra Play, online (www.mostra.org), não perca “Listen”, de Ana Rocha de Sousa. Laureado com 22 láureas desde o Festival de Veneza de 2020, quando ganhou o Prêmio do Júri da seção Orizzonti e o troféu Luigi De Laurentiis (de melhor filme de estreia), esse drama social celebra a maternidade. Na trama, um casal luso, Bela (Lúcia Moniz) e Jota (Ruben Garcia), tenta pagar as contas de uma vida em Londres, para onde foram atrás de mais e melhores oportunidades de emprego. Mas tudo dá errado para eles e seus três filhos, ameaçando uma intervenção judicial que os separe.

p.s.: Em telas cariocas, “Marighella” está em pré na Vila Isabel e em Del Castilho. Pra alguém que cresceu – e vive – na Zona Norte do Rio de Janeiro, a chance de ver um filme que (nos) inspira brasilidade em uma área que, normalmente, não costuma ser contemplada pelo cinema autoral deste país, é um tapa na cara do moralismo, da miopia geopolítica do circuito. Seu Jorge está um esplendor no papel central.

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