Mostra fica face a face com o belo ‘Bergman Island’

Mostra fica face a face com o belo ‘Bergman Island’

Rodrigo Fonseca

01 de novembro de 2021 | 14h22

Ingmar Bergman e Ingrid Thulin em fotos dos bastidores das filmagens de “Luz de Inverno”, numa vida a dois parecida com a que vemos na narrativa de “Bergman Island”, na 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em cartaz até quarta

RODRIGO FONSECA
Há que se considerar um mimo da 45ª Mostra de São Paulo o gesto de disponibilizar online um dos mais arrebatadores títulos de sua programação de 265 filmes, que termina nesta quarta-feira, após 14 dias de mobilização audiovisual da maior metrópole do país: “Bergman Island”, de Mia Hansen-Løve, ou MHL, com a “Cahiers du Cinéma” costuma se referir a ela. Está na plataforma Mostra Play esse longa-metragem que levou a grife brasileira da RT Features, de Rodrigo Teixeira, para a competição pela Palma de Ouro de Cannes em julho. É um longa esmerilhado no cinzel da delicadeza, que impressiona pela construção de roteiro arquitetada pela cineasta francesa de 40 anos. Construção essa em total conexão autoral com sua obra pregressa. Há uma ponte direta entre a estrutura de metalinguagem dessa produção aplaudida pela Croisette – que arranca da habitualmente soporífera atriz Mia Wasikowska sua primeira boa interpretação em uma década de superestima – e a investigação existencial empreendida por Hansen-Løve em “O Que Está Por Vir” (“L’Avenir”), pelo qual ela conquistou o merecido Urso de Prata de melhor direção na Berlinale, em 2016. Agora, em seu regresso às telas, após o esnobado “Maya”, de 2018 – também pautado pela noção de andanças pela vida ou pelo mundo, em busca de um sentido que preencha suas personagens -, a diretora faz um périplo pela Escandinávia, e por sua produção cinematográfica titânica, a fim de mostrar como um casal de artistas preenche o vácuo em suas almas e em sua necessidade de criar. Alma, aliás, é palavra que abre portas no estudo que a realizadora promove num corpo a corpo com o legado do mestre dos mestres: Ingmar Bergman (1918–2007). Temos, a um só tempo, um drama de afetividade mesclado a um ensaio sobre a criação e um tratado sobre a estética bergmaniana, feito a partir de dúvidas – bastante pertinentes – e não sobre afirmações.

Ambientado na Ilha de Fårö, onde Bergman viveu e encontrou inspirações, numa casa lotada de fitas VHS e (dizem) de fantasmas, o filme de Hansen-Løve adota um casal de cineastas para ser o eixo de seu primeiro tomo, que se passa (de alguma maneira) num plano de realidade que nos serve de âncora. Esse duo amoroso, Chris e Tony, é interpretado pela luxemburguesa Vicky Krieps (em estado de graça em cena, numa atuação que evoca uma diva de Ingmar: Bibi Andersson) e pelo inglês Tim Roth, afinado como sempre. Ele vai ser homenageado com uma projeção na região insular onde seu ídolo viveu. Ela tem personagens para a nova trama que, com dificuldades, escreveu, mas está em busca de um desfecho, ou melhor, da catarse precisa para seus protagonistas. Entre passeios de bicicleta, taças de vinho branco e papos com curadores sobre a relação de Bergman com Deus, Chris vai compartilhando conosco, a plateia, o estado de alerta indisfarçável sob o qual seus sentimentos se encontram.

Chris (Vicky Krieps) e Tony (Tim Roth): personagens à procura de uma autoria

E isso não tem nada a ver com Tony, pois não se trata de uma (óbvia) alusão a “Cenas de um Casamento” (1973), um híbrido de minissérie e filme que levou multidões de suecas e suecos ao divórcio há cerca de cinco décadas. O amor deles parece sereno, embora mais próximo de uma garoa do que de uma tempestade de paixão. O conflito de Chris, pelo que a dramaturgia (jamais explícita de MHL) nos sugere, é mais uma inquietação com o mundo e uma dificuldade em buscar o que narrar em meio ao parto de uma proposta cinematográfica nova, que espelhe quem ela é.
Sinuosa, a câmera do parisiense Denis Lenoir, o diretor de fotografia de Hansen-Løve, flana pelo rosto de Chris e pelas expressões faciais circunflexas de Tony de modo a homenagear Sven Nykvist (1922–2006), o parceiro de Bergman na luz, mas sem copiá-lo. MHL não quer ser Ingmar, menos ainda seu fotógrafo genial. Ela quer partir do universo particular deles para esmiuçar seus filmes e para entender o que um espírito errante como o de Chris sofre. E nisso, “Rosto a Rosto” (1976), um drama que deu a Bergman o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, é uma referência essencial à tocante cartografia sentimental com Vicky e Roth, pois é um trabalho especular. “Persona – Quando Duas Mulheres Pecam” (1966) também era, porém parecia mais verticalizado e de erupção mais incontinente. A produção lançada em 76 vai numa toada mais branda, mais perto do que Hansen-Løve opera quando sai do plano da realidade e entra, “metalinguisticamente”, pelo enredo do filme que Chris prepara. É nele que conhecemos a personagem de uma inspirada Wasikowska, Amy, também uma diretora de cinema, que se encontra entalada pelo desejo que nunca parou de sentir por um velho amado: Joseph. O rapaz é interpretado por Anders Danielsen Lie com uma desenvoltura avassaladora. Em dado momento, o mundo deles, de Amy e Joseph, atropela o planisfério onde Chris finca suas raízes. Mas deixa o filme te levar até lá, com sua montagem de uma retidão ímpar, sem atropelos, mansa (mas, jamais, monótona). E nesse tráfego – bem parecido com o da filósofa vivida por Isabelle Huppert em “L’Avenir” atrás de uma gata fujona – vamos montando tijolinhos da complexa usina de signos que Bergman nos deixou.

Mia Wasikowska nos dá sua melhor atuação ao lado de Anders Danielsen Lie

Entre 1946, com o lançamento do filme “Crise”, e 2003, quando o teledrama “Saraband” (citado em voz e no take de um poster por Hansen-Løve) começou a circular por TVs e cineclubes, o Cinema deitou-se num divã sueco para um trabalho de análise da moral, da fé e do amor. Trabalho esse apoiado numa troca simbólica com o diretor que pôs a alma humana no centro da câmera. Numa queda de braço com nosso superego, na triagem das neuroses que levam à brutalidade e ao desamor, Bergman rodou reflexões autorais sobre a existência que se tornaram marcos da arte de filmar, como “Morangos Silvestres” (1957), laureado com o Urso de Ouro do Festival de Berlim. Ele dirigiu cerca de 70 produções, entre TV e cinema, em 57 anos de ofício. Nesse período, um punhado de longas dele ganharam status de obra-prima, como “O Sétimo Selo”, também de 1957 (do qual Tony, vivido por Roth, prefere fugir). Em “Bergman Island”, entendemos mais sobre o modo de Ingmar enquadrar, de dirigir atores, de iluminar cenas e de esgarçar as fronteiras filosóficas da dramaturgia, baseado ora num preceito, ora numa sensação. Seu preceito: “Eu faço filmes com meus amigos mais queridos. Tenho 18 que cabem nessa categoria. Eles são a minha equipe, nada mais. (…) Eu vivo numa ansiedade sem causas tangíveis e, para me aliviar dela, eu preciso filmar”.

Entre as principais inquietações de Bergman, destaca-se a Finitude. Além dela, seus filmes se preocupam em discutir a presença de Deus, a agonia do existir, solidão, a fragilidade das convenções sociais e as incongruências da vida a dois. Deste último tema, ele extraiu um fenômeno midiático: “Cenas de um Casamento”, recriado recentemente com Jessica Chastain e Oscar Isaac, sob a direção do israelense Hagai Levi. Bergman ganhou um Globo de Ouro pela empreitada, uma das muitas honrarias douradas em seu currículo. Filho de um pastor protestante, nascido em Uppsala (a 70km a norte de Estocolmo), o diretor – que teve seu primeiro acesso a um projetor de imagens ainda menino, trocando uma dezena de soldadinhos de chumbo com seu irmão por aquela “lanterna mágica” – ganhou um Oscar honorário (o Irving G. Thalberg, dado em 1971), o Leão de Ouro Especial do Festival de Veneza, em 1971, e a Palma das Palmas do Festival de Cannes, em 1997.

Vale lembrar que não foram os franceses (garimpeiros de autoralidades, como Hansen-Løve) que descobriram Seu Ingmar: sua consagração aconteceu a partir do Festival de Punta del Este, no Uruguai, em 1952, de onde o filme “Juventude”, partiu para conquistar plateias sul-americanas, despertando atenções de jornalistas europeus aqui residentes. Daquele evento em Punta, críticos brasileiros como Ely Azeredo promoveram a potência estética de Bergman entre nós, contribuindo, à força de resenhas apaixonadas, para o êxito nacional de “Sorrisos de uma Noite de Verão” (1955) e “Noites de Circo” (1953).
Numa de suas últimas entrevistas, antes de sair da cena mortal, em 30 de julho de 2007, Bergman falava muito da decadência da matéria, mas com sabedoria. “Aprendi que posso dominar as forças negativas e usá-las a meu favor”, disse ele. Sua partida deixou órfãos muitos cineastas que nele se inspiravam, entre os quais o alemão Wim Wenders, que afirmou a jornais germânicos: “Sem Bergman, perdemos a Luz”. De certa forma, com “Bergman Island”, a Mostra de SP traz essa Luz de volta, para buscar respostas… para matar saudades.

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