Mostra: Doclisboa ‘dominga’ com Kubrick

Mostra: Doclisboa ‘dominga’ com Kubrick

Rodrigo Fonseca

24 de outubro de 2020 | 07h01

Rodrigo Fonseca
Agendado no Doclisboa para este domingo, às 19h de Portugal (15h do Brasil), no Culturgest, o precioso “Kubrick Por Kubrick”, de Grégory Monro, aclamado em Tribeca, já está no cardápio do Mostra Play trazendo verdades. “Há quem veja ressonâncias de Stanley em Spielberg, que, sim, existem no interesse de ambos pelas questões técnicas e pela tecnologia, mas Kubrick jamais faria um final feliz”, afirmou Monro ao P de Pop em entrevista via Zoom, a comemorar a passagem de sua aula de sinestesia por telas lusófonas. “Christopher Nolan, sim, tem uma influência explícita de Kubrick. Mas é difícil você trazer Kubrick para uma linhagem artística mais específica pois não há como rotular um criador que, sem ter feito escola de cinema, vindo da fotografia, tenha criado uma obra tão livre, sem precisar se submeter aos estúdios, tendo o interesse da Warner pra si por conta do sucesso de ‘Spartacus’, que foi gigante, no mundo”.
Hoje envolvido num projeto sobre os shows do caubói Buffalo Bill, Monro é titular de um dos mais inquietantes longas entre os 198 títulos desta 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. “É bom ver que vocês, no Brasil e em Portugal, tentam enxergar essa dimensão sensorial de um filme que faz da palavra uma potência”.

Ator e documentarista, o cineasta francês que agora fala do diretor de “Lolita” (1962) tem no currículo pérolas como “Jerry Lewis, Clown Rebelle” (2016) e “Michel Legrand: Sans Demi-mesure” (2018). Mas seu trabalho mais recente é algo capaz de figurar entre os melhores .doc de 2020 – fácil, fácil. De um lado, no filme de Monro, vemos o monstro sagrado da direção que deu título ao .doc: o prodígio da fotografia e cineasta nova-iorquino Stanley Kubrick (1928-1999), que deu ao mundo obras geniais como “Laranja Mecânica” (1971). Do outro lado está o jornalista parisiense Michel Ciment, autor de joias como “Une Vie de Cinéma” e editor da revista “Positif”. Ele teve uma chance rara de vencer a resistência de SK a entrevistas e registou a conversa em livro. Esse papo renasce agora como experimento sinestésico, a partir de uma delicada pesquisa de fotos e cenas de arquivo de Monro, que calça cada um dos depoimentos do realizador. É uma chance rara de ouvirmos a voz de Kubrick. E ouvimos dele pérolas como: “O melodrama usa todos os problemas do planeta e todos os desastres que recaem sobre os personagens principais para mostrar que o mundo é um lugar justo e benevolente e todos os testes, provas e aparentes infortúnios que ocorrem no fim só reforçam essa crença. Mas a tragédia, a honestidade ou a tentativa de mostrar a vida como sendo mais próxima da realidade do que o melodrama pode deixar um sentimento de consternação. Porém, certamente a abordagem da fórmula, que apresenta o mundo diferentemente do que ele é, não parece ter muito mérito, a menos que você só esteja só fazendo entretenimento”.
“Ciment e Kubrick não eram amigos, mas se cruzaram algumas vezes em entrevistas raras, onde você percebe uma conexão não apenas pelo cinema. Kubrick está ali não só a falar de arte: está falando do mundo. E sua reflexão sobre a representação da violência é algo em total sintonia com as discussões de hoje”, diz Monro ao Estadão.
Vemos em “Kubrick by Kubrick” (título original) situações de bastidores curiosas como a escolha de Ryan O’Neal para protagonizar “Barry Lyndon” (1975), pelo ímpeto de se necessitar um galã. E se fala muito de “2.001 – Uma odisseia no espaço”, um dos marcos maiores da ficção científica nas telas. No .doc de Monro há muita reflexão de Stanley sobre a arte de adaptação literária. “A questão dele não era adaptar era poder encontrar em um livro um conteúdo que o apaixonasse”, diz Monro. “Não era o caso de ficar nas supostas excentricidades de Kubrick, mas, sim, de humanizar sua figura a partir dele mesmo, de sua voz, que, serena, parece desconectada do retrato mais pitoresco que se pinta dele por aí. Um retrato que não dá conta de sua grandeza”.

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