Mostra de Tiradentes exibe o tocante ‘Mulher do Pai’, escalado para Berlim

Mostra de Tiradentes exibe o tocante ‘Mulher do Pai’, escalado para Berlim

Rodrigo Fonseca

20 Janeiro 2017 | 17h06

“Mulher do Pai”, um drama laureado com três prêmios no Festival do Rio 2016, vai representar o Brasil na Berlinale

RODRIGO FONSECA
Com quilos de carinho e respeito a despejar no colo das atrizes e cineastas Helena Ignez e Leandra Leal, as homenageadas de sua edição 2017, a Mostra de Tiradentes, evento responsável por inaugurar o circuito anual de festivais brasileiros, abre seu menu de pérolas autorais a partir desta sexta, com a projeção do premiado .doc Divinas Divas, como ponto de partida para uma leva de exercícios narrativos fora dos padrões. Logo no sábado, em horário nobre – 20h – na Tenda de Exibições, o evento agendou a exibição de um ensaio sobre feminices e suas complexidades, expresso como um maduro exercício de desafio ao silêncio: Mulher do Pai. Dirigido pela estreante gaúcha Cristiane Oliveira na fronteira com o Uruguai, este drama foi selecionado para o Festival de Berlim (9 a 19 de fevereiro), na mostra Geração.

Laureado com três prêmios no Festival do Rio 2016 (direção, fotografia e atriz coadjuvante, para a possante Verônica Perrotta), Mulher do Pai versa sobre uma adolescente, Nalu (Maria Galant), em processo de reeducação afetiva com seu pai cego (Marat Descartes, sempre impecável) e com a atual paquera deste, sua professora de Artes, Rosário (Verônica, radiante). Em sua passagem pelo certame carioca, nada se sabia sobre ele, fora a certeza do bom rendimento de sua diretora em curtas (Messalina Hóspedes) e da habilidade de Marat em incendiar a tela. Mas ao longo de 94 silenciosos minutos, as plateias do Rio comungaram do evangelho da readequação sentimental, relembrando como feridas viram cicatrizes no processo de amadurecimento da juventude, regado a hormônios e desilusões.

Cristiane Oliveira no set

Cristiane Oliveira no set

Ambientado numa instância no Sul do país, Mulher do Pai esgarça o Tempo no moenda muito parecida com a usada pelo cinema argentino, evocando cults como Kamtchatka (2002), só que sem qualquer tônus político, ou El Último Verano de la Boyita (2009): ou seja, desfia-se nele um rosário de relações. Marat vive Ruben, um ex-desenhista que perdeu a visão aos 20 e poucos anos por uma doença, como um sujeito xucro, acostumado a dar ordens às mulheres que o cercam, refugiando-se no zumzum de seu rádio de pilha. A morte de sua mãe (Amélia Bittencourt) vai tirá-lo, de modo parcial de sua inércia, conforme aprende a lidar com a chegada de um amor, Rosário, e a domar as tempestades hormonais de Nalu. A jornada dele é retilínea e curta: é sair da toca. Já a jornada de Nalu segue uma curva com arquitetura de quebra-molas: sai e volta para as convicções herdadas da finada avó, enquanto aprende a conjugar o verbo “amar”.

Viradas, o filme tem poucas. Não é uma estrutura clássica, de três atos, de redenção: é um filme com a lucidez de perceber que os ganhos da vida muitas vezes chegam como migalhas, enquanto as perdas nos aparecem como banquetes de fel. Em sua estreia no posto de realizadora de longas, Cristiane faz um registro dessa liturgia irretrocedível de perder e ganhar como uma dinâmica da existência. E o faz com desenvoltura, apoiada nos enquadramentos cerzidos a delicadeza da fotógrafa Heloísa Passos (faminta pela força daquele céu sulista), e com charme, seduzindo-nos pela simplicidade e pela paixão nos tempos de madureza entre Rosário e Ruben.