Mostra de SP de prosa com Jia Zhangke

Mostra de SP de prosa com Jia Zhangke

Rodrigo Fonseca

25 de outubro de 2020 | 07h20

O diretor chinês Jia Zhangke assina o cartaz da 44ª Mostra de São Paulo

Rodrigo Fonseca
Sintonizado com os protocolos de segurança contra a covid-19, Jia Zhangke troca com seus fãs as inquietações acerca da pandemia, num hibridismo entre fato e consternação poética, em “A VISITA” (“Visit”), curta-metragem já em exibição na 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, cujo cartaz estampa uma imagem produzida por este artesão das esculturas do Real. Este poema de perplexidades, mas também de resiliências, já no Mostra Play, retrata uma reunião entre dois parceiros de trabalho na qual vemos os rígidos protocolos de cuidados impostos pelo novo coronavírus: mascarados, as pessoas só se encontram após a temperatura do visitante ser medida, do aperto de mão ser recusado e da oferta de álcool em gel no lugar do café. É uma narrativa que se engata no projeto Spaces #2, produzido pelo Festival de Tessalônica, na Grécia, inspirado no livro “Espèces d’Espaces”, do escritor francês Georges Perec. Fã do realizador chinês, cujo nome é sinônimo de excelência, a maratona cinéfila paulistana convidou ainda “Swimming Out Till the Sea Turns Blue” (“Yi zhi you dao hai shui bian lan”). Por aí, a tradução ficou “NADANDO ATÉ O MAR SE TORNAR AZUL” e já é possível vê-lo online, sendo que há projeção presencial dele armada para o dia 29/10, no Belas Artes Drive-In. Lançado mundialmente via Berlinale, em fevereiro, fora de concurso, o novo longa-metragem do diretor de “Um Toque de Pecado” (prêmio de melhor roteiro em Cannes, em 2013) aborda a disseminação da literatura em áreas rurais da China, num contraste entre a arte da palavra e a arte de viver no campo. O nome de Jia – ganhador do Leão de Ouro de Veneza em 2006 por “Em busca da vida” – abre muitas portas, sobretudo falando sobre a dimensão milenar da leitura como analgésico.
“Não acredito na inércia dos afetos nas cidades, pois os espaços sociais estão sempre a viver alguma forma de movimento, mesmo que essa fricção pareça muito gradual, quase estanque ao nosso faro. Eu atravessei a China na década de 1990, com uma camerazinha na mão, e vi ali uma juventude expressar sua voz e afirmar sua existência como não havia percebido antes. E essa geração hoje é adulta, vive outras expressões de sentimento, de trabalho. Mas o que ficou das aspirações delas? O quanto a ebulição do momento passa e o quanto ela se torna um tipo de tradição?”, perguntou Jia em entrevista no Festival de Berlim, onde reviu sua obra em relação à geopolítica de seu país. “Revendo as imagens que fiz, à época, descobri muita coisa, sobre a China e sobre mim, entre elas a sensação de que o Tempo está passando, pro país, pra mim, pro mundo, para as nossas convicções”.

O curta-metragem “A Visita”

Em 2014, Jia teve sua vida documentada pelo diretor carioca Walter Salles em “Um homem de Fenyang”, lançado comercialmente no ano seguinte. Era um filme que faz uma reflexão sobre a natureza híbrida, entre feitos e fábulas, de suas narrativas. E esse hibridismo parece ser o fio condutor de sua cartografia dos afetos em “Nadando Até o Mar Se Tornar Azul”, ao trafegar pela província de Shanxi a partir da criação de uma feira literária que une autores como Jia Pingwa, Yu Hua e Liang Hong. Em maio de 2019, importantes escritores e acadêmicos chineses se reuniram em ali, num vilarejo — que, não por acaso, é a província natal do diretor – para uma celebração dos verbos de ação e de ligação da prosa. As imagens desse evento literário iniciam uma narrativa fílmica em 18 capítulos que abrange a história da sociedade chinesa desde 1949. Essa história é contada por Jia por meio das memórias do falecido escritor e ativista Ma Feng. O que vemos e ouvimos é um painel das décadas de 1950, 1960 e 1970, além de um passeio pela China de hoje. “Registrar, fotografar, filmar… isso é uma forma política de reação. Reage-se pela curiosidade”.

Cartaz de “NADANDO ATÉ O MAR SE TORNAR AZUL”

p.s.: Exibido em Veneza, na disputa pelo Leão de Ouro de 2019, e em Toronto, o estonteante “A Herdade”, de Tiago Guedes, chega enfim ao Brasil a partir desta segunda-feira, online, pela Mostra retratando a saga de uma família de latifundiários do Tejo dos anos 1940 aos dias de hoje, entre traições, disputas de poder e uma luta contra o governo, da perspectiva de quem se considera dono da terra. O desempenho de Albano Jerónimo como um fazendeiro arrogante é antológico.
p.s.2: Priorize ainda, entre as boas desta Mostra, “MISS MARX”, de Susanna Nicchiarelli. Responsável pela biografia da cantora alemã Christa Päffgen em “Nico, 1988” (2017), a cineasta romana de maior prestígio na atualidade escala a inglesa Romola Garai para viver a caçula de Karl Marx: Eleanor, tradutora e feminista essencial para o debate do sufragismo.

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