Mostra de Pitangui celebra a inclusão pela arte

Mostra de Pitangui celebra a inclusão pela arte

Rodrigo Fonseca

09 de outubro de 2021 | 16h29

Graziella Luciano abre a 3ª edição da Mostra de Pitangui – Fotos da geógrafa @Aline Pacheco – Divulgação

Rodrigo Fonseca
Nas asas do “Sonho de Ícaro”, de Biafra, em seu “Voar! Voar! Subir! Subir!” explodindo numa rádio de rua nas Minas Gerais, a Mostra de Pitangui abriu a noite de sexta preparando uma comovente aula de democratização do acesso ao audiovisual. Nas cercanias da Igreja de São Francisco de Assis, uma das paróquias do local, uma tela acoplada a uma instalação inflável foi dedicada a uma série de curtas feitos em oficinas de capacitação para futuras e futuros cineastas surpreenderem o país com imagens regadas de brasilidade. “Fotografia – Um olhar ambiental”, uma carta de amor aos cliques inusitados do retratista Nicodemos Rosa (morto em fevereiro), foi o primeiro trabalho a ser projetado, com direção de Leonardo Morato. A seguir veio o festejado curta “Rapsódia para o Homem Negro” (2015), de Gabriel Martins, projetado em tributo à produtora mineira Filmes de Plástico. Foi um abre-alas de respeito, onde falou-se das narrativas que condenam a exclusão (entre elas a racial) em todas as suas formas mais vis.
Fundada em 16 de maio de 1855, a cerca de 125 km de Belo Horizonte, Pitangui se inscreve no censo do IBGE com uma área de 569,636 Km² e uma população de cerca de 28 mil habitantes. Mas sua importância histórica, como sendo a sétima vila fundada nas Gerais, passa, agora, a ir além de seu patrimônio arquitetônico – e de seu feijão tropeiro arrebatador. Sua entrada para o calendário anual dos festivais cinematográficos do país celebra os esforços de uma cultura de inclusão pelas ferramentas da arte, estabelecido sob o recorte temático “Cinema e Educação”. Vai ter filme (bom) por lá até o Dia das Crianças, dia 12, num evento integralmente gratuito para o público, realizado de forma presencial, num leonino cuidado com os protocolos da covid-19. Ou seja: sem máscara, não! De 15 a 27 de setembro, sob os auspícios da coordenadora Graziella Luciano, foram oferecidos quatro cursos para 60 alunos de diferentes idades. Neles, os estudantes produziram um total de 28 curtas, que estão sendo exibidos na tela grande, em praça pública, durante a programação. Basta um clique atencioso lá no site https://mostracinemapitangui.com.br/ para acompanhar o festival.
“Por conta da pandemia, o público estava sedento por eventos como este, em que a gente pode mostrar o resultado dos quatro cursos que fizemos. Um resultado acima do esperado”, diz Graziella Luciano, falando em democratização do fazer. “Nosso desejo é que a mostra possa manter uma assiduidade mesmo que seja bienal”.

O diretor Maurílio Martins e o produtor Thiago Macêdo Correia fizeram da Filmes de Plástico uma grife de invenção

Um show com o cantor mineiro Moisés Navarro levou canções de amor ao abre da mostra, que concedeu um troféu honorário ao diretor Maurílio Martins e ao produtor Thiago Macêdo Correia, da Filmes de Plástico. A obra deles, iniciada em 2009, tem vasta quilometragem nas telas de Cannes, Roterdã e Locarno. Essa grife de reflexões estéticas é formada por três diretores: André Novais Oliveira, Gabriel Martins e Maurílio, um trio produzido por Macêdo. O trio de realizadores é egresso de Contagem – dos bairros Amazonas, Milanez e Jardim Laguna – e Thiago vem de Teófilo Otoni. Eles se conheceram entre 2005 e 2006 e realizaram obras aclamadas como “Filme de sábado” (2009), “Dona Sônia pediu uma arma para seu vizinho Alcides” (2011), “Pouco mais de um mês” (2013) e “Quintal” (2015).
“O cinema que havia com mais evidência em Minas quando a gente começou vinha da videoarte. Era algo que não dialogava com a nossa formação, vinda de Paul Verhoeven, John Carpenter, John Cassavetes e Carlão Reichenbach, entre outros. Não reagimos a esse cinema que existia lá. A gente apenas resolveu fazer uma outra coisa e filmar aquilo que estava no nosso quintal. A gente foi retratar o que a gente conhece. Respondemos às circunstâncias que a gente tinha. Mas a gente não quer romantizar esse aspecto das dificuldades. Eu adoraria não quer chorar um cachê. A gente achou um jeito de fazer baseado no empenho de pessoas que acreditam no que estão fazendo”, explica Macêdo, lembrando que a produtora tem o inédito “Marte Um”, de Gabriel Martins, parar tirar do forno em breve.
Sempre ao lado de Macêdo, na homenagem de Pitangui, na noite de sexta-feira, Maurílio roda em breve o novo projeto da Filmes de Plástico: “O Último Episódio”, ambientado em 1991. “Nosso manifesto passa por corpo e geografia. Temos filmes muitos distintos, que juntam referências diversas, retratando corpos dos locais onde a gente mora”, diz o cineasta. “A gente celebra um cinema possível”.

Neste sábado, Pitangui conferiu uma seleção de cinema de mirada infantil, com “Por Aqui passou um Rato”; “Meu Melhor Amigo”; “Tzinga”; Pila Pilão; “Histórias de quintal: O Espetáculo e Mulungum”; “Millie”; “Gabi; “Nimbus, o caçador de nuvens”; “Lis”; “Quando a chuva vem?”; e “Dudu e o lápis cor da pele”. Esta noite, dando sequência ao tributo às ideias da Filmes de Plástico, a mostra confere o longa “No Coração do Mundo” (2019), que Maurílio dirigiu em duo com Gabriel Martins. Em sua trama, estamos na periferia de Contagem. Lá, o misterioso Marcos (Leo Pyrata) busca uma saída para sua rotina de bicos e pequenos delitos. Surge uma oportunidade arriscada, mas que pode solucionar todos os seus problemas. Para isso, ele precisa convencer sua namorada, Ana (Kelly Crifer), a se juntarem a Selma (Grace Passô) e executarem o plano que pode mudar suas vidas para sempre. Exibido no Festival de Roterdã, na Holanda, há dois anos, o longa arrebatou elogios em sua passagem pelo circuito francês, em 2020.

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