Mostra de críticos no CCBB se rende ao genial ‘A Bruxa’

Mostra de críticos no CCBB se rende ao genial ‘A Bruxa’

Rodrigo Fonseca

16 Janeiro 2017 | 12h42

Produção de US$ 3,5 milhões,

Produção de US$ 3,5 milhões, “A Bruxa” rendeu o prêmio de melhor diretor a Robert Eggers em Sundance, em 2015


RODRIGO FONSECA
Vai começar nesta quarta, em solo carioca, mais uma edição da mostra anual da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro, a ACCRJ, ocupando o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ) até o dia 6. Laureado com o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro no domingo passado, Elle, o polêmico thriller do cineasta holandês Paul Verhoeven, foi eleito o melhor de 2016 e será exibido já na abertura, na quarta. Já o melhor longa brasileiro ficou com o libelo político Aquarius, do pernambucano Kleber Mendonça Filho. Além deles, serão apresentadas criações recentes Jafar Panahi (Taxi Teerã), Woody Allen (Café Society), Quentin Tarantino (Os Oito Odiados), Charlie Kaufman (Anomalisa), Todd Haynes (Carol), Jia Zhang-ke (As montanhas se separam), Hong Sang-soo (Certo agora, errado depois) e Béla Tarr (O cavalo de Turim). As escolhas da ACCRJ também prestigiaram os iniciantes como László Nemes (O Filho de Saul). Mas uma escolha merece especial destaque: a inclusão de um filme de terror – gênero muitas vezes proscrito em votações dessa lavra – no panteão dos destaques de 2016 nas telonas. E não se trata de um filme de horror qualquer: A Bruxa (The Witch: A New-England Folktale) é um estandarte de qualidade e de rigor plástico do filão. Ele será projetado no dia 25, às 17h40, seguido por um debate com os críticos Mario Abbade e Carlos Brito, em programa duplo com O Cavalo de Turim, do mestre húngaro Béla Tarr.  

 

Este exercício criativo do diretor Robert Eggers pela seara do medo recebeu 25 prêmios e tem 42 indicações a láureas em sua trajetória. Sua bilheteria global beira US$ 40 milhões. E ele ainda virou objeto de culto entre fãs do sobrenatural, um filão que se encontra hoje em alta em Hollywood e fora dele. Um dos filmes mais assistidos nos EUA no fim de semana passado foi um terror: Nunca Diga Seu Nome (The Bye-Bye Man), com a mítica Faye Dunaway.

 

Mais do que ser um marco do terror contemporâneo, lapidado a cinzel visualmente a partir de enquadramentos de uma meticulosidade milimétrica, A Bruxa é um manifesto político de afirmação do Feminino. Sob brumas que evocam a tradição sobrenatural dos filmes da Hammer e mesmo Suspiria, do bacante Dario Argento, o longa-metragem de Robert Eggers é uma alegoria uterina capaz de expressar, em sua viagem pelo pântano da fantasia, todos os traumas da submissão das mulheres. Produzido pela cia. paulistana RT Features de Rodrigo Teixeira, com DNA americano, brasileiro, canadense e inglês, este horror filmado ao custo de US$ 3,5 milhões lotou salas de exibição por aqui: os ingressos se esgotavam em sessões abarrotadas tanto de fãs do Além quanto de não iniciados nas assombrações, aquecidos por um boca a boca inflamado por opiniões opostas, no “ame-o ou odeio-o” típico de cinema de gênero que extrapola o filão ao qual se filia. Se dá medo? Dá… e muito, com sua mecânica de susto e sangue, precedida de preliminares psicanalíticas, na qual o rosto devastado de desilusão da personagem Katherine (Kate Dickie) já é um espanto em si. Mas o pânico é só uma fatia deste suculento fruto da atual safra indie dos EUA.

 

Ganhador de um merecido prêmio de melhor direção em Sundance em 2015, A Bruxa respeita os cânones clássicos do terror, entregando ao espectador aquilo que mais se espera desta linhagem – ou seja, sustos – mas o faz caminhando por uma selva de signos quase animais da masculinidade e da feminilidade. Atuações primorosas, sobretudo a da Lolita Anya Taylor-Joy, alternam espaço com um personagem para entrar na História das Trevas: Black Phillip, sobre o qual não se pode falar muito. Porém, o que mais rende solidez ao filme é a reflexão nas entrelinhas sobre a opressão das mulheres, ao longo dos séculos, caracterizada a partir de uma Nova Inglaterra (de cores lavadas) de excomunhões, paganismos e de feitiçarias do século XVII. Eggers caminha na referência de dois pensadores cinematográficos da Fé e do ardor das fêmeas – o Ingmar Bergman de A Fonte da Donzela e o Carl Theodor Dreyer de A Palavra – para fazer uma metafísica da culpa e do revanchismo.

 

Microcosmo de abnegações e fanatismos, a Massachusetts de 1630 vira palco para a Alegoria da Caverna de Eggers, de onde só as mulheres esclarecidas saem, iluminadas pela certeza do próprio desejo. O eixo desta bolandeira é a jovem Thomasin (Anya, numa interpretação carregada de sedução) que, durante um passeio da floresta, vê seu irmão bebezinho ser raptado, numa fração de piscar de olhos. Vemos uma criatura correr com o neném no colo pelas matas, mas não dá para perceber bem quem é o/a raptor/a. Dali pra diante, uma sucessão de mazelas vai se abater sobre a família de Thomasin, envolvendo elementos rústicos e silvestres, como os chifres de um bode preto e o bico de um corvo. No ebó cinematográfico de Eggers, paus e pedras são ferramentas para nos lembrar de que do pó viemos… mas nem todos a eles voltaremos. Pelo menos não as mulheres que souberem usar o sexo como um instrumento de sua própria soberania sobre o corpo e a sabedoria como arte de enganar.

Nesta era de difficult men, ou seja, de homens fragilizados e emasculados, A Bruxa entra em sintonia com todos os discursos da correção política, exercitando-a com elegância, sob o disfarce de um terror que tenta espelhar as lacunas da alma. Um terror que dá frio na espinha, mas não congela o pensamento. Filmaço!