Mostra celebra obra em vídeo de Joel Zito Araújo

Mostra celebra obra em vídeo de Joel Zito Araújo

Rodrigo Fonseca

15 de julho de 2021 | 16h20

O cineasta mineiro Joel Zito Araújo em foto de Jacob Solitrenick

Rodrigo Fonseca
Tem ficção nova de Joel Zito Araújo, a esperada “O Pai da Rita”, no forno, aquecendo uma estética de inclusão que encontrou nas veredas documentais uma vereda poética de reflexão sobre o real. Saber misturar resiliência e sobriedade, sem jamais abrir mão da indignação frente à violência racial, e ser capaz de traduzir essa mistura em imagens é o que tornou o realizador mineiro, egresso da cidade de Nanuque, nas Gerais, uma das vozes a serem ouvidas com mais urgência, no cinema mundial, quando o tema é a exclusão das populações negras. Em 2019, a projeção de seu documentário “Meu Amigo Fela” no Festival de Roterdã, cercada de aplausos e debates calorosos, deu a ele uma consagração internacional que coroa uma andança de três décadas pelo planisfério cinéfilo. Em 2000, “A Negação do Brasil”, uma reflexão sobre estratégias de segregação midiáticas, passando por telenovelas, serviu como seu passaporte para as salas de cinema. Mas, antes, ele passou anos trabalhando com vídeo, documentando Brasis em outros formatos do audiovisual. Seu currículo é recheado de pérolas nesse formato como “São Paulo Abraça Mandela” (1991), que retrata o encontro do líder sul-africano com os movimentos negros paulistas, e “A Exceção e a Regra” (1997), que documenta a primeira vitória jurídica na história de nosso país de um caso de demissão por racismo. A partir do dia 22, até 1º de agosto essa porção da obra do realizador de “Filhas do Vento” (2004) vai estar disponível numa mostra online que leva seu nome e o subtítulo Uma Década Em Vídeo, que pode ser vista via: https://mostrajoelzitoaraujo.com.br/. O evento é promovido pela produtora mineira Ponta de Areia, em parceria com a TV dos Trabalhadores (TVT). “Nossos Bravos” (1987), “Memórias de Classe” (1989), “Alma Negra da Cidade” (1991) e mais uma leva de filmes de JZA ficarão disponíveis por dez dias no site da retrospectiva, que vai lançar um catálogo, em formato de e-book, sobre esse rico momento da obra do cineasta. O pacote inclui uma entrevista com Joel Zito e diálogos com seus parceiros de trabalho, como o advogado Hédio Silva Júnior e o diretor de fotografia Luiz Miyasaka, além de uma fortuna crítica sobre as obras, com documentos e referências bibliográficas.

Cena de “São Paulo Abraça Mandela”

Serão transmitidos em tempo real, ainda, três debates com autores e autoras dos textos do catálogo, como Bernardo Oliveira, Dácia Ibiapina, Débora Olimpio, Edileuza Souza, Ewerton Belico, Fabio Rodrigues, João Carlos Nogueira, Nicole Batista, Paulo Galo e Vladimir Seixas. As conversas serão mediadas pelo crítico de cinema Juliano Gomes, editor dos textos. E, completando a grade de atividades, a mostra exibirá ainda dois programas bônus. O primeiro gira em torno do material bruto do filme “A Exceção e a Regra”. O segundo é composto por três programas da série “Vídeo Popular – 30 Anos Depois”, exibido pela TV dos Trabalhadores (TVT) em 2015, tendo Joel como apresentador. Além da parceria com a TVT, a mostra teve o apoio da TV PUC de São Paulo, responsável pela preservação do acervo da Associação Brasileira de Vídeo Popular (ABVP).

Cena de “A Exceção e a Regra”

A que período da sua trajetória essa mostra se reporta e o que ela sinaliza das suas reflexões sobre o Brasil?
Joel Zito Araújo:
Essa mostra pega os meus primeiros dez anos de atividade, quando comecei a expressar a minha visão sobre as questões sociais no Brasil por meio do audiovisual. É um período em que estive muito ligado ao movimento sindical brasileiro, à formação da CUT. Fui funcionário do DIEESE e assessor de educação sindical no setor de telecomunicações. Eu estava, portanto, muito permeado pelas pautas dos movimentos sindicais de esquerda daquele momento. É o período em que começo a descobrir que a questão da invisibilidade negra no Brasil tinha uma face midiática muito forte. E começo a entender também que racismo e arrogância de classe no Brasil é que nem goiabada com queijo, como dizia Joaquim Nabuco, é uma característica nacional que permanecerá por muito tempo.
De que maneira você avalia a atual representação das lutas raciais e das populações negras no cinema brasileiro?
Joel Zito Araújo:
Acho que agora está chegando forte, principalmente pelas mãos das mulheres negras, embora elas enfoquem mais a temática de gênero e raça. Mas, agora, temos um movimento de cinema negro no cinema brasileiro. Ele é ainda parte da produção de curtas e médias, mas influencia as novas gerações. As melhores cabeças do cinema brasileiro já incorporam em suas equipes profissionais negras e negros jovens, para assegurar um olhar de diversidade sobre o Brasil.
O que podemos esperar de “O Pai da Rita”, seu novo trabalho na direção de longas de ficção?
Joel Zito Araújo:
“O Pai da Rita” pretende ser um refresco no olhar, um colírio para nossas almas. O tema é sério: a dificuldade histórica de paternidade do homem negro. Mas sua narrativa é leve e gostosa. Esse longa é mais um filme meu sobre redenção amorosa. São dois sambistas da Vai-Vai entrando na terceira idade, amigos quase irmãos querendo superar os erros do passado. Ele vai contra a onda de ódio e ressentimento das gerações mais conversadoras de nosso país neste momento, que abraçaram seu líder cruel. O filme oferece a chave da redenção e superação, através de uma comédia leve e amorosa, diante dos temas das novas gerações.
Quais são seus novos passos na narrativa documental depois do sucesso de “Meu Amigo Fela”?
Joel Zito Araújo:
Estou neste momento dirigindo uma série documental para a HBO MAX, mas deixo para eles a iniciativa de divulgar. A série deve estrear em março do ano que vem.

p.s.: A Petrobras Sinfônica se aventura no mundo das séries ao criar “O Mistério da Orquestra”, que vai desvendar como os sons de um concerto são produzidos. E o que pode ser mais instigante para uma criança do que música, mistérios e pura magia? Dividida em sete episódios, que irão ao ar diariamente no canal de YouTube (https://www.youtube.com/watch?v=9ooVILzbEYk) até o dia 20 de julho, sempre às 10h, a série tem direção de Tadeu Aguiar, narração do músico da orquestra, Fernando Thebaldi, e participação dos atores Pedro Henrique Motta (conhecido por seu trabalho em “Detetives do Prédio Azul”), Paulo Feitas e Claudio Tovar. A proudção traz uma trama divertida, que conta as peripécias de Armando e Isaac quando são transportados para uma aventura virtual cheia de mistério e música. Os nomes dos personagens são uma delicada homenagem aos maestros Armando Prazeres, fundador da Orquestra Petrobras Sinfônica, e Isaac Karabchtevsky, Diretor Artístico e Regente Titular. O compositor alemão Ludwig van Beethoven também será personagem.

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