Mosaico egípcio: CCBB revê o cinema de Mohamed Khan

Mosaico egípcio: CCBB revê o cinema de Mohamed Khan

Rodrigo Fonseca

21 de junho de 2017 | 11h48

Mohamed Khan, um mestre do realismo no cinema do Egito, ganha homenagem póstuma no Brasil com retrospectiva que vai até 26 de junho no CCBB do Rio

RODRIGO FONSECA

Dono de uma filmografia esmerilhada pelo Real ao focar no cotidiano de um Egito que transcende seu misticismo, e vai além de suas pirâmides, o cineasta Mohamed Khan (1942-2016) pintou um retrato crítico da pluraridade cultural de seu país, expresso em longas-metragens como Antes do Verão (2015), trama sobre a relação entre pessoas de diferentes classes sociais. Esta produção será exibida nesta quarta-feira, às 19h, na mostra Cinema Egípcio Contemporâneo, que segue até o dia 26, revendo os trabalhos mais marcantes de Mohamed. A retrospectiva começou no dia 14 e trouxe ao Brasil marcos como Klephty (2004), com projeção nesta quinta, às 19h. A fim de abrir um panorama mais amplo da obra do cineasta, o CCBB trouxe ao RJ sua mais fiel parceira – de vida e de criação – Wessam Soliman, viúva de Mohamed e roteirista de alguns de seus filmes como A Menina da Fábrica (com sessão neste sábado, às 17h); Meninas do Centro (com sessão nesta quinta, às 17h); e No Apartamento de Heliópolis (um dos títulos de abertura do evento). Na entrevista a seguir, ao P de Pop, por e-mail, Wessam analisa a busca estética de seu companheiro.

 

Como a senhora avalia o lugar da mulher na obra de Mohamed? Como ele encarava o Feminino?
Wessam Soliman: O diretor Mohamed Khan sempre escolheu pessoas de classes mais esquecidas, excluídas da sociedade e fez um close up destes personagens. Isso foi o seu diferencial – o ser humano, as pessoas. Não é o local, o tempo mas a partir do personagem que começa o filme. E, nos seus filmes, o papel principal é sempre o de uma mulher.

“A Garota da Fábrica”: cult

Como a senhora definiria o Egito de Mohamed e sua habilidade de driblar as representações míticas e místicas de seu país? Quem seriam os faraós do Egito atuais no olhar de Mohamed?

Wessam Soliman: O Egito de Khan é a cidade grande, com seus segredos, com suas complicações. Ele sempre procurou as chaves e as senhas desta cidade para conseguir abraçar e aproximar mais. O único filme que ele fez fora da cidade foi Saiu e Não Voltou, mas também foi um filme sobre a cidade, sobre fugir dela. Os faróis do Egito atual no olhar de Khan são as pessoas normais, simples, do dia a dia. Elas são a continuação dos faróis antigos. Em seus filmes não tem ninguém famoso, conhecido. A única exceção deu-se em Dias de Sadat, sobre a vida presidente egi?pcio Anwar Al Sadat. Mas ele fez esse filme porque o seu amigo de toda a vida, o ator Ahmed Zaki, pediu para ele fazer.

Como a senhora avalia a relação do cinema de Mohamed com o Real, a partir das técnicas mais próximas da estética documental que marcam seus filmes?
Wessam Soliman:
O cinema de Khan é real, ele usa técnicas documentais para fazer isso. E a única em comum em seus filmes são as ruas. O crítico Samir Farid definiu o trabalho de Khan dizendo que você consegue acompanhar as mudanças nas ruas do Egito a partir dos filmes de Khan, desde o primeiro até o seu último filme. Você consegue perceber as mudanças nas ruas dentro do drama do filme.

“Klephty”: quinta no CCBB

Qual é o maior desafio de manter a obra de Mohamed viva?Wessam Soliman: Isso envolve a questão da manutenção do cinema dentro do Egito, de manter o arquivo dos filmes antigos, as cópias não só de Khan, mas também de outros diretores. A apresentação destes filmes para as novas gerações é a chave para manter a obra deles viva. A produção do cinema no Egito tem algumas falhas e estamos tentando nos adaptar às mudanças da tecnologia dos filmes digitais.

 

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