‘Morto não fala’, mas brilha nas telas

‘Morto não fala’, mas brilha nas telas

Rodrigo Fonseca

09 de outubro de 2019 | 11h00

Daniel de Oliveira é Stênio, funcionário de um necrotério que apela para as forças do Além para se vingar de uma traição


RODRIGO FONSECA
Abriram-se os portões do Inferno: “Morto Não Fala” chegou. Quinta-feira entra em cartaz o primeiro longa-metragem de um artesão brasileiro do macabro, Dennison Ramalho, que leva seus estudos sobre a Besta para a trincheira social da guerra pela sobrevivência nas periferias das metrópoles deste país de exclusões. Batizado mundialmente como “The Nightshifter”, esse thriller de horror, indignação sociológica e alarmismo frente ao conservadorismo ao nosso redor vem rodado o mundo desde meados de 2018, incluindo a seleção de Sitges, festival espanhol que cultua o terror. A Espanha aplaudiu com o ardor a doída reflexão de Dennison sobre desigualdades que estão mascaradas na forma alegórica do Sobrenatural. Disfarçados em uma assombrosa aparência de cadáveres falantes, o sexismo, a violência do tráfico e a impunidade – males ainda inerentes à realidade brasileira – são os fantasmas mais assustadores dessa alegoria sobre as falências morais de sua pátria Brasil. Seu realizador, nascido em São Caetano (SP), mas criado no Rio Grande do Sul, entre 1982 e 2000, foi aclamado pelos curtas “Nocturnu”, “Amor só de mãe” e “Ninjas”. Ele só vê seu prestígio crescer nesse ambiente de mostras de fantasia, terreiro de forte fidelidade às cartilhas de gênero, e também fora dele, por seu desempenho na raia da excelência como roteirista de TV. Ele foi assistente do mítico José Mojica Marins, o Zé do Caixão, em “Encarnação do Demônio” (2008). Com ele, depurou ainda mais seu estilo.

Em sua passagem pelo Fantasia Festival, em Montreal, Dennison conquistou o Prêmio Especial do Júri, que justificou a láurea com o texto: “Casamento é o Inferno nesta combinação de subgêneros e tons, criando uma história de fantasma original, alimentada pelo instinto da vingança, carregada de humor negro e de pedaços de corpos caídos”. No BFI-London Film Festival, os espectadores fechavam os olhos cada vez que um funcionário do necrotério de São Paulo dotado de vidência, Stênio (Daniel de Oliveira, em uma devastadora atuação), enfia os pés no lodaçal da Danação Eterna. Na trama, Stênio tem a habilidade de ouvir as vozes de espíritos que acabaram de “fazer a passagem” para o outro lado da vida. Ao saber que sua mulher, Odete (Fabíula Nascimento), é infiel, ele decide se vingar. Aproveita uma dica de um “defunto” para coloca-la na mira de bandidos implacáveis. Mas seu plano terá consequências malévolas, uma vez que o espectro de Odete não quer se desapegar de sua casa, nem de seus filhos. Pelo menos não até que Stênio pague… e sangre.

O que existe de político no seu terror? O quanto a periferia de “Morto Não Fala” traduz as incongruências da política social do Brasil?
Dennison Ramalho:
Nos meus filmes, eu não parto de uma agenda política. Eu quero fazer filmes de terror, adultos… filmes que choquem. Se a sua história não opera na chave da fábula de terror, como os filmes do Rodrigo Aragão, por exemplo, que tem criaturas místicas no interior profundo do Brasil… se a sua história acontece nas grandes cidades, é impossível você não tocar nos assuntos que afligem essas metrópoles do Brasil. É impossível não tocar nas calamidades que acontecem na periferia, no problema do tráfico e do crime. Se a história contada se passa dentro de um aparelho público, como um necrotério, essas mazelas acabam sendo contadas. O morticínio, embora não oficial, é escancarado principalmente com a população de homens jovens e negros que lotam os necrotérios das grandes cidades do país. Se a história de terror que está sendo contada acontece nas grandes cidades, você acaba falando sobre o horror do Brasil, mas isso nunca é um ponto de partida ou um compromisso do filme.
Qual é a linhagem de terror que a América Latina melhor desenvolveu?
Dennison Ramalho:
Com o meu conhecimento e experiência cinéfila, eu consigo enxergar dois grandes movimentos de terror latino na história do cinema. Um deles é o Mojica, o cinema do Zé do Caixão. O segundo é o cinema de gênero fantástico mexicano, que conta com filmes como “Até o Vento Tem Medo”, do diretor Carlos Enrique Taboada. Tem ainda “El Topo” e “A Montanha Sagrada”, do chileno Alejandro Jodorowsky, que não são filmes de terror e sim fantásticos, mas por hora flertam com o horror; e há “Alucarda, la hija de las tinieblas”, de Juan López Moctezuma, um clássico do terror mundial. Seriam esses são os grandes baluartes do cinema de terror latino.
O que o necrotério de mortos falantes de seu filme representa como metáfora das nossas atuais desesperanças?
Dennison Ramalho:
A gente vê uma humanidade nua e crua nos elementos marginalizados. Os mortos que falam são pessoas que estão deixando suas famílias para trás, pessoas que tiveram suas existências abreviadas por razões violentas e entregam suas últimas confissões e pedidos a esse interlocutor mediúnico, que é o nosso protagonista. Para além disso, nós tivemos a oportunidade de conhecer necrotérios das grandes cidades do Brasil, fosse nas nossas pesquisas de campo, ou eu próprio fazendo outros filmes com o mesmo cenário. Eu vejo que entra ano, sai ano, o necrotério continua sendo uma instalação pública mal aparelhada, suja e que abriga pessoas trabalhadoras que são vistas de maneira marginalizada pela sociedade que acabam sofrendo muito com isso e ainda precisam lutar para não se identificar com a história daqueles cadáveres. O necrotério fala desse desamparo, dessa marginalização e desses mortos que são pessoas que partilham de muita coisa conosco, principalmente no que diz respeito à família.
p.s.: A partir de 31 de outubro, o Paramount Channel passa a exibir, às 21h30, a brilhante série “Yellowstone”, com Kevin Costner dublado por Garcia Júnior.
p.s.2: Vai ter “O muro era muito alto”, desenho inédito de Marão, na décima edição do Animage, que acontece de 11 a 20 de outubro, no Recife.

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