‘Morto Não Fala’ arrepia o ‘Corujão’

‘Morto Não Fala’ arrepia o ‘Corujão’

Rodrigo Fonseca

07 de outubro de 2021 | 14h17

RODRIGO FONSECA
Bestiário em forma de HQ, “Kripta”, gibi que abriu o sarcófago das trevas para os quadrinhófilos brasileiros nos anos 1980, tinha um reclame que apregoava “Todo dia é sexta-feira, toda hora é meia-noite”, como forma de evocar o sombrio. Na madrugada deste sábado, à 1h30, a TV Globo vai escancarar a Caixa de Pandora do cinema de horror nacional para dela sacar uma joia: tem “Morto Não Fala” esta noite. Prepare os nervos. É uma chance perfeita para se curtir o primeiro longa-metragem de um artesão brasileiro do macabro, Dennison Ramalho. Ele leva seus estudos sobre a Besta para a trincheira social da guerra pela sobrevivência nas periferias das metrópoles deste país de exclusões – e com domínio pleno da direção. Batizado mundialmente como “The Nightshifter”, esse thriller assombrado é cheio de indignação sociológica e alarmismo frente ao conservadorismo ao nosso redor. E vem rodando o mundo desde meados de 2018, incluindo nos carimbos em seu passaporte uma passagem pela seleção de Sitges, festival espanhol que cultua o terror. A Espanha aplaudiu com o ardor a doída reflexão de Dennison sobre desigualdades que estão mascaradas na forma alegórica do Sobrenatural.

Disfarçados em uma assombrosa aparência de cadáveres falantes, o sexismo, a violência do tráfico e a impunidade – males ainda inerentes à realidade brasileira – são os fantasmas mais assustadores dessa alegoria sobre as falências morais de sua pátria Brasil. Seu realizador, nascido em São Caetano (SP), mas criado no Rio Grande do Sul, entre 1982 e 2000, foi aclamado pelos curtas “Nocturnu”, “Amor só de mãe” e “Ninjas”. Ele só vê seu prestígio crescer nesse ambiente de mostras de fantasia, terreiro de forte fidelidade às cartilhas de gênero, e também fora dele, por seu desempenho na raia da excelência como roteirista de TV. Ele foi assistente do mítico José Mojica Marins, o Zé do Caixão, em “Encarnação do Demônio” (2008). Com ele, depurou ainda mais seu estilo, que amplia a loucura do enredo decalcado da prosa do escritor Marco de Castro, adaptada como roteiro pelo próprio Dennison e pela cineasta Cláudia Jouvin. A escrita do longa carrega uma crítica feroz às inércia morais de nossa nação.

Em sua passagem pelo Fantasia Festival, em Montreal, Dennison conquistou o Prêmio Especial do Júri, que justificou a láurea com o texto: “Casamento é o Inferno nesta combinação de subgêneros e tons, criando uma história de fantasma original, alimentada pelo instinto da vingança, carregada de humor negro e de pedaços de corpos caídos”. No BFI-London Film Festival, os espectadores fechavam os olhos cada vez que um funcionário do necrotério de São Paulo dotado de vidência, Stênio (Daniel de Oliveira, em uma devastadora atuação), enfia os pés no lodaçal da Danação Eterna. Na trama, Stênio tem a habilidade de ouvir as vozes de espíritos que acabaram de “fazer a passagem” para o outro lado da vida. Ao saber que sua mulher, Odete (a infalível Fabíula Nascimento), é infiel, ele decide se vingar. Aproveita uma dica de um “defunto” para colocar sua ex-paixão na mira de bandidos implacáveis. Mas seu plano terá consequências malévolas, uma vez que o espectro de Odete não quer se desapegar de sua casa, nem de seus filhos. Pelo menos não até que Stênio pague… e sangre.

André Faccioli assina a fotografia, que foge de saturações óbvias do formato, criando uma bem-vinda estranheza no registro da realidade de regiões periféricas. E a edição de Jair Peres garante à montagem um timbre de espanto que sabe dosar histeria (social e existencial) sem cair no excesso.

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