‘Mormaço’ tira a estética do assombro das CNTPs

‘Mormaço’ tira a estética do assombro das CNTPs

Rodrigo Fonseca

10 de maio de 2019 | 13h04

Rodrigo Fonseca
Guloseima que engorda e faz crescer, um empadão é medida de humanidade em “Mormaço”, um dos mais preciosos documentos poéticos para se entender o desmantelo do Rio de Janeiro dos anos 2010, que chega ao cinema este fim de semana, configurando-se como uma das mais instigantes (e maduras) empreitadas do cinema nacional na estética do assombro. Num ponto de fissura no concreto humano de um prédio de uma região central da cidade, quando algo de podre se anuncia no palco cheio de som e de fúria das obras para a viabilização das Olimpíadas de 2016, um porteiro bate um pratão de empada, esfarinhando seu prazer em migalhas que voam com uma afirmação de congraçamento: “Dona Rosa assou tanto empadão que sobra  até o Natal”. Dona Rosa, vivida por uma mítica estrela do nosso cinema de invenção, Analu Prestes (de “A$$untina das Amérikas”), é uma das vigas de sustentação do tal edifício que está em vias de demolição, para que construções ligadas aos Jogos Olímpicos sejam erguidas. O mesmo se passa com as fundições da Vila Autódromo, que encontram apoio em uma das vizinhas de Rosa, a advogada Ana, um signo de resiliência em quem Marina Provenzzano, em um desempenho de solidez esmagadora, vai esculpindo camadas de múltiplos códigos. Uns são de fragilidade. Outros, de retidão. Muitos, de espanto. E alguns, de fadiga, aquela que nos breca. Seu breque é a burocracia de um Município kafkiano. Numa proposta de analogia entre a mecânica do organismo e das instância municipais, numa sociologia funcionalista e numa biologia politizada, Meliande nos dá um novo “O processo”. Para isso, fazendo Kafka no Rio, recorre a uma metamorfose com folhas secas e perebas no lugar de baratas. Na mesa onde o empadão é servido a todos, a mesa do afeto de Rosa, os insetos usam ofícios de justiça.

Parte de um estado de coisas na Arte, entre o Sobrenatural e a legislação do Real, que já nos deu frutos preciosos como “A sombra do pai”, “Animal cordial” e “Morto não fala”, esta  autopsia em corpo vivo da geografia carioca – exibida inicialmente no Festival de Roterdã, em 2018, com o título em inglês “Sultry” – também um lugar para o humor em seu sistema de feridas abertas. Ana dá sinais de uma doença de pele que ninguém sabe explicar, como demonstra o médico vivido por Márcio Vito (ator-assinatura dos projetos feitos por Meliande com Felipe Bragança, tipo o lúdico “A Alegria”). No adoecimento, nos estágios iniciais de sua enfermidade cutânea, que Dona Rosa crê ser fruto das águas poluídas da cidade, um romance inusitada injeta enlevo na rotina de Ana e nesta narrativa de alarmismo. Um arquiteto metido a roqueiro, que mistura Ramones com Tranca Rua das Almas, numa mistura de rock’n’roll e candomblé, encantado por Oxum, vai embatucar as certezas da advogada. Pedro (papel que nos mostra o quão virtuoso Pedro Gracindo, trovador, menestrel, editor e ator, pode ser) é uma brisa que dilui o bafo quente nas ruas e no cangote de Ana. Um bafo de urgência. De um lado a urgência da Vila Autódromo. Do outro, a urgência de uma cidade que vê sua paisagem ser retorcida a ferro e sacos de cimento. Urgência traduzida na figura do representante da nova ordem das empreiteiras e construtoras (Thelmo Fernandes) que define seu arquiteto, Pedro, como um sujeito tímido por natureza: “Artista é tudo assim”.

No coração em que Pedro dá um mergulho, não muito fundo, mas de nado elegante, havia um vereador, Lucas (o ator e ótimo diretor Igor Angelkorte), que sinaliza ajuda para Ana. Mas não há reza que exorcize os demônios da remoção. Só o fantasma de uma praga epidérmica sem nome assusta mais, levando a plateia por uma jornada com ecos de “O inquilino” (1976), em que a lucidez vai sendo imolada em sacrifício por uma cidade que se atomiza. A luz do filme, assinada pelo fotógrafo Glauco Firpo, assinala essa morbidez, afogando-se em breu.

Marina Provenzzano escava inquietudes na figura da advogada Ana

Existe uma direção de atores surpreendente no arranjo narrativo de “body horror” (coisa de artesões como David Cronenberg, em seu “A mosca” e em “Spider”) construído por Meliande, que foi laureada com uma menção honrosa no Festival do Rio. Durante o trabalho de pesquisa para “Mormaço”, a diretora tomou conhecimento do conflito enfrentado pelo povo da Vila Autódromo, uma comunidade localizada em frente ao local onde seria construído o Parque Olímpico, cercada pela Barra da Tijuca e que despertava interesse comerciais da especulação imobiliária do Rio de Janeiro. Por conta disso, a Vila Autódromo foi incluída como moeda de troca na negociação do prefeito com as construtoras responsáveis pelo projeto do Parque Olímpico, para que ficassem com esse terreno. Porém a Vila Autódromo tinha dono e os moradores eram uma comunidade legalizada, que não podia ser removida de uma hora para outra. Imediatamente Marina incorporou o local à sua trama.

Na entrevista a seguir, ao P de Pop, ela explica suas escolhas.

Que códigos do fantástico e do sociológico “Mormaço” busca discutir e até transpor em seu corpo a corpo com o RJ?
Marina Meliande:
Desde muito cedo eu quis trabalhar a questão do corpo que se transforma, e a minha principal pergunta era: ‘qual seria o principal impacto da transformação das cidades, urbanísticas e políticas, sobre os corpos de seus habitantes. Era o que mais me interessava e me dava vontade de escrever uma narrativa, a partir do Rio, que é a minha cidade. Eu parti da informação de que o Rio estava passando por um processo intenso de transformação, bastante agressivo. Nesse processo violento e arbitrário, muitos habitantes dessa cidade não se sentiam mais pertencendo a esse espaço. Ou se sentiam bastante desconfortáveis nesse processo, ou por se sentirem ameaçados ou porque não foram consultados nas decisões de mudança. O principal código que me interessa é a transformação do corpo, pensando uma ideia de corpo utópico. O que seria um corpo que reage às transformações, representando um lugar de resistência ou de algo não imaginado. É um lugar da poesia, da utopia, da busca de uma cidade que não foi imaginada e, por isso mesmo, ainda não é real.

Há um foco de resiliência na tua protagonista que trava, de uma forma à la Polanski, um embate com o meio. Mas que heroísmo existe nela? Que heroísmo possível nos sobrou, a partir do que “Mormaço” mostra?
Marina Meliande:
Existe uma ideia de impotência. É uma protagonista que está lutando para ficar de pé, para conseguir ajudar outras pessoas. Ela está muito imbuída de um sentimento de defesa, mas ela luta contra forças maiores do que ela. É um filme sobre o acúmulo do cansaço. Enquanto os moradores acumulam uma ideia de força, de energia, a Ana vai minando e acumula impotência. Isso se mistura com as outras sensações do filme, de calor, de tensão, de sufocamento. Sensações que o mormaço provoca. É uma batalha difícil de ser vencida. A gente vê que as forças das pessoas, do Poder Público da Justiça, são maiores do que as pessoas. O heroísmo estaria nas transformações do corpo, que chegaria a sentir ou sugerir um outro lugar, uma saída, uma transformação não racional. A doença talvez se espalhe, talvez vire uma epidemia, talvez a gente confunda com uma ideia de deterioração. Mas ela pode ser uma forma de recomeço, de se misturar com a cidade num outro grau, ainda não pensado.

A Vila Autódromo em andança forçada

Que propostas de luz o Glauco Firpo trouxe pro filme?
Marina Meliande:
Sempre conversamos propostas de luz, articuladas com todos os setores do filme. A gente tinha esse desejo de começar bastante realista, com luz natural, com cenas documentais. Mas tínhamos a ideia de um certo esmaecimento. Ele começa com cores fortes, mais vivas. Mas a gente tinha vontade de fazer essa sensação do calor, do verão. Mesmo o figurino de Ana começa com cores mais fortes e vai se deteriorando. Na própria casa dele, as folhas verdes vão perdendo a cor, secando. Locais inicialmente iluminados vão perdendo a luz. “Mormaço” começa realista, mas vai entrando progressivamente numa curva mais de gênero. Nos toque do fantástico, ele vai ficando mais sombrio. Ela vai para um lugar soturno. Essa progressão foi desenhada na luz, refletindo a dramaturgia do roteiro.

Qual era o RJ das filmagens de Mormaço e qual é o RJ que recebe o filme agora?
Marina Meliande:
O Rio das filmagens foi o de 2016. Filmamos entre março e abril daquele ano e era um RJ que ainda vivia a euforia das Olimpíadas, propagada pelas grandes mídias e pela Prefeitura. Era difícil naquele momento criticar a Prefeitura pois era como se você estivesse jogando contra o governo. Mas, ao mesmo tempo, a Prefeitura agia violentamente contra algumas comunidades e espaços públicos urbanos. Era uma situação de bastante tensão. Foi um pico de tensão na Vila Autódromo, com ameaças de remoção mais violenta. Era um Rio que tentava simular uma sensação de tranquilidade e segurança pública, pois iríamos sediar os Jogos Olímpicos e nada poderia sair do lugar. Era uma falsa sensação de pacificação de um lado e intensos conflitos de outro. O RJ que recebe o filme agora é de crise política e econômica profunda, onde a gente tem nossos últimos governadores na prisão, deixando claro as negociatas que foram feitas no último governo, incluindo algumas para que os Jogos Olímpicos fossem feitos, inclusive com grandes construtoras. Estamos pagando essa conta. A crise não é só por conta das Olimpíadas, mas elas demandaram um investimento enorme. Num primeiro momento, elas geraram bastante emprego, mas hoje há uma crise nesse setor. Enfim, o Rio que nos recebe não é, nem de perto, aquele que receberia uma herança benéfica desses jogos.

O que esse voo solo na direção, somado a uma série de experiências individuais como montadora e produtora, revela sobre a estética que você persegue hoje?
Marina Meliande:
O que eu persigo hoje como estética está muito próximo do que eu consegui desenvolver no “Mormaço”: essa ideia de misturar códigos de gêneros diferentes, de modo às vezes difícil de identificar. Gosto dessa confusão. A gente consegue encontrar frescor nas misturas. E me interessa muito falar sobre os nossos tempos, sobre o que a gente vive e onde a gente vive. Sinto que meus próximos trabalhos vão continuar refletindo o que é viver no Rio de Janeiro de hoje. É um imaginário em constante mutação. Uma cidade encarada como um cartão-postal, supostamente maravilhosa. É nosso dever como artista atualizar ou propor novos imaginários para esse espaço. São filmes políticos que buscam uma poética própria. E o cinema de gênero me ajuda nisso.

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