‘Mormaço’: crônica de uma demolição geopolítica anunciada

‘Mormaço’: crônica de uma demolição geopolítica anunciada

Rodrigo Fonseca

29 Abril 2016 | 09h05

Imagens do set de

Imagens do set de “Mormaço”, filmado em abril

Frente ao esgotamento físico e moral no qual o Rio de Janeiro se encontra hoje, ferido de obras por todos os lados, em função de um “sonho olímpico” cada vez menos coletivo, um projeto como Mormaço, primeiro longa-metragem solo da cineasta Marina Meliande, carrega uma dimensão de catarse crítica que o torna necessário e urgente. Com filmagens recém-finalizadas, este potencial ensaio sobre resistências se embrenha por um terreno onde fantasia, doença e perplexidade se misturam numa geopolítica de extremos poéticos. Parceira de Felipe Bragança em A Alegria (2010) e A Fuga da Mulher-Gorila (2009), a diretora ambienta sua narrativa em um verão cozido em fervura máxima – o verão mais quente já experimentado pelos cariocas. Na trama, a cidade muda e muda também o corpo de uma jovem jurista, num reflexo das alterações na paisagem (física e humana) à sua volta, assombrada pelo espectro das remoções de comunidades em prol do “progresso urbanístico”.

“Há muita coisa estranha ocorrendo no Rio de Janeiro, como bueiros que explodem do nada, apontando um ambiente para acontecimentos fantásticos”, diz Marina.

Mormaço nasceu em locações em Copacabana e na Vila Autódromo (vizinha ao Parque Olímpico na Barra da Tijuca), a produção de R$ 2 milhões foi desenvolvida com o suporte da Résidence da Cinefondation, promovida pelo Festival de Cannes, e do Hubert Bals Fund, promovido pelo Festival de Roterdã. No processo de construção do longa, Marina acompanhou a luta de lideranças femininas da Vila para entender o jogo de armar que se dá hoje no local e mesmo em outros pontos do Rio enquanto as Olimpíadas não começam. Na trama, Ana (Marina Provenzzano) é a advogada que enfrenta o Mal (na forma da especulação no mercado de imóveis) ao mesmo tempo em que começa um novo amor. Mas a paixão e o trabalho hão de concorrer com um elemento inesperado: uma moléstia misteriosa em seu organismo.

“Numa balança desequilibrada de forças, na qual o concreto parece mais forte do que os indivíduos, o fantástico entra em cena para transformar um corpo que resiste às mudanças geográficas, durante o verão mais quente da História da cidade”, disse Marina, que foi conferir o drama dos moradores da Vila Autódromo, hostilizados pelas autoridades pela recusa de deixar o espaço onde construíram suas vidas.

Para a Prefeitura do RJ, aquele terreno é necessário para o planejamento do perímetro olímpico brasileiro. Moradora da Vila, Sandra Souza, que é uma voz de resistência na peleja contra as remoções, entra no elenco, para tonificar sua discussão política.  “A Vila é um espaço marcado por lideranças femininas fortes. As mulheres têm uma importância fundamental para manter aquele espaço”, explica a cineasta, que traz ainda para sua trupe os atores Pedro Gracindo, Analu Prestes e Igor Angelkorte.

Fotos de Guilherme Tostes

Marina Provenzzano em fotos de Guilherme Tostes

Na trama, o empenho de Ana para ajudar os moradores de uma comunidade sob ameaça de remoção coincide com a hipótese de seu prédio ser demolido. Sua síndica (vivida por Analu) tenta resistir. Mas, no meio de um combate em prol da preservação do direito ao patrimônio, uma doença vai se abater sobre a jovem protagonista.

 

“Há no Rio o sentimento de que diferentes classes podem se sentir excluídas”, diz Marina.

A atomização gradual das paisagens carioca são abordadas também no vigoroso O Prefeito, comédia de Bruno Safadi, sobre um alcaide (Nizo Neto) que vai governar a cidade sob os escombros da Perimetral.