‘Monólogo Público’: Melamed em masturbação bipolar… e fina

‘Monólogo Público’: Melamed em masturbação bipolar… e fina

Rodrigo Fonseca

11 de junho de 2017 | 11h54

Michel Melamed faz dancinha e cosquinha e existencialismo no crocante “Monólogo Público” (FOTO: JULIA RODRIGUES)

RODRIGO FONSECA
Xana é uma pessoa muito bacana: entre quilos de Rivotril e espasmos de Parkinson, ela pariu um corisco, o Eu Lírico de Michel Melamed na peça Monólogo Público. Peça da melhor categoria no quesito invenção verbal, tensão muscular, transgressão teatral: enfim, Vida, viva, colorida. De todas as melamedices que já singraram os palcos de São Paulo e do Rio de Regurgitofagia (2003) pra cá, Xana é o que há de mais molhadinho na fertilidade neural do bardo por trás de Bipolar Show e outras iguarias afrodisíacas. Ideal para ser visto a dois, pelo mormaço que levanta ao exumar a Solidão (enquanto substantivo comum concreto), o espetáculo é um jogral de recitações, dancinhas e existencialismos perfumados a riso, tendo uma Xana onipresente (na ausência) ao alcance imaginário de todos. Parece masturbação, mas não é: a partir de um jogo cênico sofisticado, em cartaz até 25 de junho no Sesc Ginástico carioca, Melamed faz de Xana o alvo de uma prosopopeia. Ela se personifica, e facilmente, pois sempre foi gente e não metonímia do prazer.

Xana é o modelo judaico da mãe onipotente mesmo quando impotente, por fazer, como ele diz, “o melhor carinho do mundo”. Num dado momento, entra também na discussão o homem para quem Xana se abriu, no sentido cardíaco do verbo: o pai do lado lírico de Melamed. Ele e Xana carregam DNA eslavo, um DNA que evoca o Piauí dos soviéticos. Mas os soviéticos já não são mais chamados assim, pois ganharam identidade, assim como Melamed ganhou. No fundo, entre as gargalhadas que provoca falando do quanto o “a filha única do pai da Xana tem problemas com a Xana”, Melamed está a falar de sua própria construção de subjetividade e de sua afirmação na arte como um trovador do que veio após o Moderno. Seu novo monólogo regurgita memórias imaginárias e fatos reais, ruminando suas conquistas e nossas melhores memórias de espectadores dele. É uma peça sobre reencontros de desencontros, e os momentos doces que eles geram.

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