Momento maldito de Sean Penn no Prime

Momento maldito de Sean Penn no Prime

Rodrigo Fonseca

08 de junho de 2020 | 10h07

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Visto regularmente no Telecine, ao lado de Mel Gibson, em “O Médico e o Louco” (2019), Sean Justin Penn vai completar 60 anos no dia 17 de agosto, envolvido na direção de um projeto em família: “Flag Day”, com seus filhos, Dylan e Hopper. Ele entra em cena na pele de um vigarista com problemas com sua filhota. Recentemente, o Globoplay trouxe para o Brasil um de seus melhores trabalhos: a série “The First: Viagem a Marte”, sobre um desastre em uma corrida espacial. Mas, no ambiente do streaming, uma das pedidas mais obrigatórias ligadas ao ator (laureado com o Oscar por “Milk” e por “Sobre Meninos e Lobos”) e realizador está na Amazon Prime: “The Last Face – A Última Fronteira” (2016). Trata-se do mais recente experimento de Penn como cineasta, rejeitado em massa pelo planisfério cinéfilo. É difícil imaginar que um somatório de grifes tão forte quanto a junção de Penn (no posto de diretor), Charlize Theron (então namorada dele) e Javier Bardem pudesse resultar num filme que o circuito exibidor repudiasse, sem direito a uma vaga para estrear comercialmente aqui. Porém, esse drama de ecos bélicos, sobre médicos que atuam em campos de batalha, é a prova de que, na indústria cinematográfica, o improvável pode se tornar possível, sobretudo à força de vaias. Vaiado em sua projeção no Festival de Cannes, há quatro anos, em disputa pela Palma de Ouro, o longa-metragem foi condenado ao esquecimento, uma vez que sua estreia foi vetada em diversos países – incluindo o Brasil – sob a suspeita de se tratar de uma bomba. Mas há uma dimensão de encantamento nessa narrativa, que se passa majoritariamente em terreno africano.
“Tentamos retratar a realidade nas zonas de guerra da África, trabalhando com muitos figurantes. A ideia era retratar os horrores da violência”, disse Penn ao P de Pop, ao fim da exibição da produção na Croisette. “Eu tentei eliminar qualquer traço de super-herói que pudesse cercar os médicos: são pessoas normais, sujeitas a falhas, a dúvidas. Mas há um empenho humanista que precisa ser retratado”.

Em seu quinto longa-metragem como realizador, Penn, que já dirigiu cults como “Acerto final” (1995) e “Na Natureza Selvagem” (2007), narra o romance entre dois voluntários dos Médicos Sem Fronteiras em um ambiente de aspereza. Seus protagonistas são os doutores Wren (Charlize) e Miguel (Bardem), que ensaiam uma paixão em meio ao combate. O roteiro é pautado por um debate sobre o bem-estar dos refugiados da África, que se mistura à love story entre Wren e Miguel na Libéria, em meio a um sangrento conflito. Em Cannes, houve um ataque violento à analogia (incompatível), proposta por Penn, entre os efeitos da guerra e as dores do amor. Essa foi a frase de abertura do longa.
“Existe aqui um empenho em debater o assistencialismo por quem se expõe ao perigo”, diz Penn. “Não há glorificação na guerra”.

p.s.: Hoje, às 14h50, na “Sessão da Tarde”, a TV Globo exibe o fofíssimo “Compramos um zoológico” (“We Bought a Zoo”), lançado por Cameron Crowe em 2011, com desempenhos impecáveis de Scarlett Johansson e Matt Damon. Na trama, o viúvo Benjamin (Damon, dublado por Felipe Grinnan) se muda com seus rebentos para um terreno onde funciona um abrigo animal decadente.

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