‘Mojo Mickybo’, diesel à irlandesa nos palcos

‘Mojo Mickybo’, diesel à irlandesa nos palcos

Rodrigo Fonseca

11 de outubro de 2019 | 19h31

Jornada à Irlanda de 1970, “Mojo Mickybo” traz Cirillo Luna (esq) e Pedro Henrique Lopes (nas fotos de Junior Mandriol) como amigos de 9 anos num front de afetos fraturados


RODRIGO FONSECA
1969, ano que não acabou para a cidade partida chamada Imaginário Cinéfilo, tal a carochinha “Era uma vez em Hollywood” nos faz crer, é o norte de um tempo pausado (jamais perdido) para “Mojo Mickybo”. Assim se chama um jogo da amarelinha capaz de testar os múltiplos trunfos cênicos de Cirillo Luna e Pedro Henrique Lopes numa risca de giz em forma de palco. É peça… peça boa. Estamos em 1970, numa Belfast sem nome, sem trevo de quatro folhas e sem potes de ouro, que enxerga uma bandeira verde de resistência num filme de um ano antes: o “Butch Cassidy”, de George Roy Hill. Nas telas da Irlanda retratada como peça na dramaturgia de Owen McCaferty – encenada no fio da navalha dos afetos por Diego Morais, no Teatro XP Investimentos, no RJ -, o faroeste com uva passa responsável por consolidar a dobradinha entre Paul Newman e Robert Redford é um colírio, inédito em circuito, para jovens crescidos nos escombros da intolerância. Objeto direto do verbo “querer bem”, a amizade de Mojo e Mickybo é um reservatório de água potável no cacto seco de uma terra cicatrizada por conflitos. (Re)Vivemos, na inflamada encenação, a fase histórica do The Troubles, nome dado a uma tensão separatista entre católicos e protestantes em função de uma adesão (ou não) daquele país ao Reino Unido. Aos 9 anos, os meninos interpretados por Cirilo e Lopes, ambos sob a calda de chocolate da inocência, vivem em extremos do extremo, na unção divina do companheirismo. Política é bolha de sabão para ambos, assim como é translúcida a devastação emotiva de suas famílias, entre prevaricações de pais e um tom de consternação e apatia de mães. Os atores dão vida a todos os vértices do poliedro de rins e fígados que integra essa Comédia Humana: interpretam idosos murchos, mulheres maculadas pelo sexismo, homens ocos. Mas é no brincar da infância, seja numa gangorra, seja no jogral do mocinho e bandido, que o Redford Luna e o Newman Pedro Henrique queimam melhor o diesel da perplexidade – e da poesia. Imitando aquele delirante western de 69, onde ser marginal era ser herói, esse par jovens de astros do teatro brasileiro cria um parangolé de alívio no front espinhoso de uma nação sem irmandade e sem troca. Ao longo da montagem, que Morais leva na margem oposta à redenção, sem jamais devolver sua plateia às CNTPs da inércia, o amor moleque de Mojo por Mickybo é carregado por outros vetores, na aceleração da moral. O que o espetáculo – imperdível, com apresentações às 6ªs e sábs., às 21h, e doms., às 20h, até o próximo dia 27 – deixa pra seus interlocutores, como legado, é a boca seca. Aquela boca seca das rezas inúteis, das ladainhas que os deuses ignoram e só bezerros de ouro escutam. É Kierkegaard na veia, no temor e no tremor de uma Irlanda em chamas, de um só abraço, que pode deixar de ser abrigo a qualquer minuto.

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