Modesto Máximo, o herói bibliófilo

Modesto Máximo, o herói bibliófilo

Rodrigo Fonseca

20 de dezembro de 2019 | 08h36

Rodrigo Fonseca
Então é Natal… festa das rabanadas, da espera pelo Papai Noel e de regalos que podem – por que não? – vir em forma de livros, ou de amor a eles. Eis que a delícia “Os Fantásticos Livros Voadores de Modesto Máximo” (“The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore”) salta das prateleiras como opção, agora que começa um zumzumzum pela indústria audiovisual de que suas páginas serão vertidas em um longa-metragem misturando atores e animação em computação gráfica. Um professor aqui do P de Pop, José Prado – mestre no ensino de editoração na Pós em Literatura e Narrativas Infantojuvenis da Cândido Mendes – foi quem levantou a bola desta versão em papel de um cult em curta metragem do cinema. Rola uma especulação de que sua transposição para o formato longa terá Guy Ritchie (de “Sherlock Holmes” e “Jogos, trapaças e dois canos fumegantes”) como diretor… ou, no mínimo, como produtor. Diante da forte expectativa que o “Pinocchio” (“Pinóquio”), de Matteo Garrone, lançado ontem na Itália, com Roberto Benigni de Geppetto, a busca por fantasias decalcadas de “literatices” é alta.
Vogais e consoantes são servidas a livros famintos em tigelas fundas, regadas a leite, como se fossem Sucrilhos, em um dos quebra-molas narrativos do curta-metragem “The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore” (2011), um calombo de ação que traduz o fantástico no universo decorado de “literatices” do diretor William Joyce e seu parceiro Brandon Oldenburg. A expressão entre aspas sai de uma página avulsa de “Solo de clarineta” (1973), de Érico Veríssimo, quando usa pétalas para representar dedos de mãos femininas e uma corola como metáfora de um punho em riste. “Deixemos de literatice, pois a vida nos conclama”, escreve o autor de “Incidente em Antares”, indo por um caminho oposto ao do filme de animação produzido pelo Moonbot Studios e laureado com o Oscar por seu virtuosismo técnico e sua vontade de potência poética traduzida em cores. Com gosto açucarado de cereal Kellogs, as tais letras e sílabas do início desta nossa prosa servem de ração para o colorido que se espalha pela tela como um amarelo Van Gogh conforme brochuras e opúsculos das mais variadas naturezas se aproximam de um jovem bibliófilo buscando um abrigo em forma de abraço. O rapaz, que vai adquirindo cinza nos cabelos a cada andança de sua vivência, é o protagonista desta fábula de formação (de cunho educativo, mas sem didatismos moralizantes) acerca da importância da leitura para assegurar a sobrevivência da sonho, a pureza no oxigênio de nosso imaginário estético. Seu realizador é um americano da Louisiana, hoje com 61 anos, que foi um dos produtores do sucesso “Robôs” (2005), de Carlos Saldanha, e encontrou sua voz autoral ao partir para um formato de experimentação digital: seu curta virou um aplicativo de iPad, para assegurar ao diretor alguma lucratividade. Com o Oscar, o produto, que assegurou para si um público leitor em gadgets eleotrônicos, alcançou uma nova encarnação na forma de livro, aqui lançado pela Rocco. Aqui, a publicação dele alcançou resenhas elogiosas na crítica.

Modesto, ou Morris, é um Visconde de Sabugosa que alcança, na ficção, clarividência similar àquela atribuída à escritora e ilustradora inglesa Beatrix Potter (1866-1943). Lendas (que se tornaram ainda mais célebres após o filme “Miss Potter, com Renée Zellweger) falam que ela via os animais saltitantes e boquirrotos de sua obra em visões que mais eram exercícios de criação do que algum autismo iluminado. Morris, na trama animada por Joyce, é como Beatrix: ele vê os relevos mais inusitado no acidente geopolítico de inclusão pelo assombro que a arte literária é. Por isso, pessoas que não leem são vistas por ele como almas sem cor. Cada uma delas que recebe um livro, adquire vermelhidão, “azulice”, “amarelitude”, negrume… É a vida que se instaura, entra e salta, pimpona. Estamos diante de uma ode à essencialidade do verbo “ler” como um exercício de empoderamento essencial. Quem lê não apenas sabe mais: vive mais… e melhor. É sobre essa qualidade que o cineasta se debruça, criando um Quixote que promove uma cirurgia para salvar um livro de seu desfolhar.
Como seu Sancho Pança etéreo, Morris conta com Humpty Dumpty, prosopopeia em forma de ovo que saiu da Carochinha, nas peripécias da Mamãe Ganso. A albumina falante testemunha cada passo do paladino consonantal de William Joyce como o Grilo Falante de Pinóquio. É seu guru, um Sr. Miyagi que guia seus passos numa dinâmica serena, de “Limpe o assoalho”. Cada gesto de Humpy Dumpty é de acolhimento, no ofício do coadjuvante que ajuda o personagem principal a trilha sua moira com o dinamismo da doçura. Sua presença engorda a carne de uma iguaria da animação independente dos EUA, gestada fora dos auspícios da Disney/Pixar, com espaço para ousar… e metáforas para encantar.
p.s.: “Fim de festa”, segundo longa-metragem de ficção do pernambucano Hilton Lacerda (de “Tatuagem”) deixa o Festival do Rio, encerrado ontem, com o troféu Redentor de melhor filme e o de melhor roteiro, numa escolha louvável do júri.
p.s. 2: Cogita-se que “Le Sel Des Larmes”, o novo longa-metragem de Phillipe Garrel, estará no páreo pelo Urso de Ouro no 70º Festival de Berlim, que este ano, vai de 20 de fevereiro a 1º de março.

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