‘Miss Marx’ e ‘Beginning’: potências

‘Miss Marx’ e ‘Beginning’: potências

Rodrigo Fonseca

22 de setembro de 2020 | 20h51

Romola Garai vive a caçula do autor de “O Capital” em “Miss Marx”, da romana Susanna Nicchiarelli

RODRIGO FONSECA
Egressa da Geórgia, tendo só curtas em seu currículo como diretora, Dea Kulumbegashvili teve uma apoteose para brilhar com seu longa-metragem de estreia na disputa de prêmios do Festival de San Sebastián, no norte espanhol, no mesmo dia em que o 68. ano do evento jogou holofotes sobre outra cineasta europeia em fase de ascensão artística: a romana Susanna Nicchiarelli. Dea veio brigar pela Concha de Ouro com o exótico DASATSKISI (BEGINNING), gastando quase cinco minutos num plano estático de uma mulher deitado na relva. Seu plano inicial, de um atentado a coquetéis Molotov em um culto evangélico, já eriça qualquer plateia. O que vem depois, em um desfile de planos estilizados, um mais belo que o outro, é um estudo sobre o dia a dia de um núcleo fervoroso de Testemunhas de Jeová numa província georgiana assolado por grupos extremistas. O atentado do início faz arder não apenas um templo como o casório de uma jovem com o pastor local. E esse ardor rende closes que se congelam, revelando paisagens afetivas que o silêncio sulca. É um procedimento aberto a muitas especiarias, de luz, de cor, de captação de som. É um feito imponente para uma potência estreante. É um feito que só fez pavimentar a estrada de Susanna para levar a Donostia (nome de San Sebastián no dialeto da região, o Euskara) um estudo sobre Eleanor Marx, a caçula do autor de “O Capital”. Estudo esse que vive momentos luminosos mas, por vezes, patina em uma coloquialidade folhetinesca careta.

Dea Kulumbegashvili, da Geórgia, estreia nos longas com gana de quebrar tabus com “Beginning”

Egresso de Veneza cheio de moral (mas sem prêmios), esse irregular, mas denso “MISS MARX” tem uma estrutura clássica de “rito de formação heróico”, assumindo Eleanor (encarnada em uma vibrante Romola Garai) como uma vigilante das causas sociais. Com vasto cabedal em tradução, ela avança pelo sufragismo, pela peleja em prol das melhorias da vida fabril e pela contestação das vicissitudes de uma união afetiva. Tem um traço romântico de fervor no desenho que Susanna dá a ela, ressaltado na composição de Romola. E essa ferocidade se acentua (e eleva nossa pressão) quando o longa se permite ser pós-moderno, quebrando quartas paredes, apostando em rock pesado, usando danças… Fora isso, um certo classicismo por demais objetivo trava o andamento do que poderia ser um tratado da rebeldia. Mas há beleza nessa forma de narrar… se há. Falar-se-á dela até San Sebastián terminar, no sábado, com a entrega de troféus, tendo, até agora, “SUPERNOVA (do Reino Unido) e “ANOTHER ROUND” (“DRUK”, da Dinamarca) como favoritos.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: