‘Minha Irmã’: a delicadeza do cinema suíço

‘Minha Irmã’: a delicadeza do cinema suíço

Rodrigo Fonseca

06 de agosto de 2021 | 05h31

Nina Hoss vitamina “Minha Irmã” com sua inteligência cênica

Rodrigo Fonseca
Aberto a pérolas do mundo todo como o brilhante filme sul-coreano “Sinkhole”, de Kim Ji-hoon, uma mistura de neochanchada com “filme catástrofe”, o Festival de Locarno, em 74ª edição, também valoriza a prata da casa, o cinema suíço, e pôs em exibição um dos achados locais recentes, lançado internacionalmente na Berlinale de 2020: o tocante “Minha Irmã” (“Schwesterlein”). Já distribuído no Brasil, pela A2 Filmes, o longa-metragem pode ser visto entre nós via Now, Looke, Vivo Play, Google Play, Microsoft e iTunes. Escrita e dirigida por Véronique Reymond e Stéphanie Chuat, a trama leva Locarno às lágrimas pela sinuosa abordagem de seu roteiro para os dilemas do amor fraterno, abalado por uma percepção de aparente finitude. Nina Hoss, um dos pilares da atuação no cinema europeu, beira a excelência neste drama sobre desterros, desacertos e acertos em família. A atriz transborda inquietude no papel de Lisa, uma dramaturga alemã brilhante, que já não escreve mais. Ela deixou Berlim para refazer a vida na Suíça, com filhos, marido e uma ilusão de rotina acomodada e brandura. Mas quando seu irmão gêmeo Sven (Lars Eidinger), um famoso ator de teatro, é diagnosticado com uma doença terminal, Lisa volta para a Alemanha e faz tudo o que está ao seu alcance para levá-lo de volta aos palcos, considerando a hipótese de escrever outra vez. Seu problema, contudo, não está numa possível escassez de palavras, mas, sim, na ausência de coragem para enfrentar seus demônios. A montagem de Myriam Rachmuth confere ao filme o tempo preciso para desopilar as angústias de seus protagonistas, compartilhando com as plateias.
Dos longas-metragens em competição pelo Leopardo de Ouro, “Petite Solange”, da diretora Axelle Ropert, da França, é o primeiro destaque de Locarno, narrando a desagregação de uma família, entre traições e decepções de um casal (Léa Drucker e Philippe Katerine), do ponto de vista de uma menina que está chegando à adolescência, vivida por Jade Springer. Mas a experiência audiovisual mais genial vista aqui até agora é o novo filme de Yann Gonzalez: “Fou de Bassan”. Com ecos de videoclipe e visual de giallo, esse curta explora uma série de conexões eróticas LGBTQ+s, brincando com jogos de BDSM.
Nesta sexta, dois filmes prometem sacudir as telas suíças: “Hinterland” e “Il Legionario”. O primeiro marca a volta às telas do diretor austríaco Stefan Ruzowitzky, ganhador de Oscar por “Os Falsários” (2007), numa história ambientada no fim da II Guerra, quando um soldado volta dos fronts incumbido de caçar um assassino que eliminou seus colegas de farda. É um fortíssimo nome na disputa oficial. Já o segundo é a principal aposta da seção paralela Cineasti del Presente, e parte do olhar do cineasta bielorrusso radicado na Itália Hleb Papou sobre uma brigada policial de Roma em que um cadete de origem africana precisa deter seus conterrâneos em uma ocupação. O festival chega ao fim no dia 14 com a sessão de “Respect”, com Jennifer Hudson em seu mais inspirado trabalho desde “Dreamgirls” (2006), narrando os percalços de Aretha Franklin na música e na luta contra o racismo.

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